Contratos com empresa alvo da Lava Jato foram fechados na gestão de Paulo Bernardo

Contratos com empresa alvo da Lava Jato foram fechados na gestão de Paulo Bernardo

Homem forte dos governos Lula e Dilma, ex-ministro do Planejamento e de Comunicações caiu no ostracismo após ele sua mulher, a senadora Gleisi Hoffmann, terem sido citados por delatores

Redação

13 de agosto de 2015 | 20h44

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Por Andreza Matais e Fábio Fabrini, de Brasília e Julia Affonso, de São Paulo

O acordo de cooperação técnica entre o Ministério do Planejamento para gestão da margem consignável dos servidores sob investigação da 18.ª fase da Operação Lava Jato foi assinado na gestão do ministro Paulo Bernardo, conforme a Pasta. O petista comandou o ministério de março de 2005 a janeiro de 2011 no governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. No primeiro mandato da presidente Dilma Rousseff foi ministro das Comunicações.

Sob o comando de Bernardo, o ministério assinou acordo com o Sindicato Nacional das Entidades Abertas de Previdência Complementar (SINAPP) e a Associação Brasileira de Bancos (ABBC). Essas entidades contrataram a empresa Consist Software Limitada para desenvolver o sistema de gestão da margem consignável. Em troca, a empresa recebia um porcentual por empréstimo consignado fechado por servidores da pasta.

A PF não atribui a Gleisi e nem a Paulo Bernardo envolvimento em irregularidades identificadas no acordo de cooperação técnica.

As investigações mostraram que após o contrato, a Consist repassou entre 2010 e 2013 a quantia deR$ 5 milhões ao escritório de advocacia Guilherme Gonçalves & Sacha Reck que respondeu pela coordenação jurídica das últimas três campanhas da mulher do ex-ministro, Gleisi Hoffmann(PT/PR), e atuou para o próprio Bernardo em outras causas não eleitorais. O escritório de advocacia recebeu, ainda, R$ 1,2 milhão de outra empresa da Consist, a SWR Informática. O advogado Guilherme Gonçalves ainda recebeu R$ 957 mil da Consist após migrar para outra banca em Curitiba, base política do casal.

A determinação sobre quem receberia o dinheiro da empresa partiu do advogado Alexandre Romano e do lobista Milton Pascowitch. Ex-vereador pelo PT, Romano foi preso nesta quinta-feira, 13 pela Pixuleco II, 19.º capítulo da Lava Jato. O Estado apurou que ele operava para petistas graúdos a partir de um escritório de advocacia que funciona em São Paulo. Pascowitch é um dos delatores da Lava Jato. Foi ele quem entregou a participação de Romano no esquema.

O ex-ministro é oriundo do sindicato dos bancários e até a deflagração da Lava Jato era considerado um dos políticos mais influentes do país. Ele e a mulher chegaram a comandar concomitantemente dois dos mais cobiçados ministérios da Esplanada – Casa Civil e Comunicações. Atualmente, o ex-ministro não ocupa cargo público e Gleisi perdeu o protagonismo no Senado desde que o ex-diretor de Abastecimento da Petrobrás Paulo Roberto Costa disse em delação premiada que Paulo Bernardo solicitou R$ 1 milhão para o esquema de cartel e corrupção na estatal. Dinheiro que seria destinado à campanha da mulher ao governo do Paraná. Informação que rendeu a Gleisi abertura de investigação pelo Supremo Tribunal Federal (STF) a pedido da Procuradoria-Geral da República.

O Estado não conseguiu localizar Bernardo. O advogado Guilherme Gonçalves afirmou que advogou para Gleisi em “demandas corriqueiras na área eleitoral” e “para o Paulo Bernardo advoguei pessoalmente em queixas crimes que propus como advogado dele.”

Gonçalves enfatizou que tem como provar que trabalhou de fato para a Consist. “É documentalmente comprovado que prestei serviços para a Consist, não existe nada de fachada. Tenho todos os documentos que mostram que houve sim prestação de serviços e consultoria para a Consist pela qual recebemos honorários advocatícios.”

COM A PALAVRA, O MINISTÉRIO DO PLANEJAMENTO

Em nota, o Ministério do Planejamento informou que irá rescindir o acordo de cooperação e que já abriu sindicância para investigar possíveis irregularidades. A Comissão de Sindicância tem 30 dias prorrogáveis por mais 30 dias para apresentar suas conclusões. O ministério informou que não suspeitou de ilegalidade envolvendo o acordo até porque o Tribunal de Contas da União (TCU) havia avaliado o caso e concluído que “não foi cometida irregularidade por parte do ministério ao ter celebrado o acordo ao final de 2009”. Na época, o acordo foi assinado pela secretário de Recursos Humanos do ministério Duvanier Paiva Ferreira, morto em 2012 após hospitais de Brasília se recusarem a atendê-lo porque ele não tinha um cheque para oferecer como caução. Após o episódio, o governo proibiu os hospitais de fazerem essa exigência dos pacientes.

COM A PALAVRA, RUSSO

O presidente do diretório municipal do PT, Marco Bariao, o ‘Russo’, informou que Romano não é mais filiado ao partido. “O senhor Alexandre Correa de Oliveira Romano foi filiado ao PT de Setembro de 1999 a 22 de Setembro de 2005′.

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