Contrato de Marcos Valério levou Lava Jato a alvos da 27ª fase

Contrato de Marcos Valério levou Lava Jato a alvos da 27ª fase

Descoberta de contrato apreendido pela Polícia Federal, em março de 2014, no escritório da contadora do doleiro Alberto Youssef, Meire Pozza, levou os investigadores ao empresário Ronan Maria Pinto, preso hoje pela Operação Carbono 14, e seus negócios com o PT

Julia Affonso, Ricardo Brandt, Andreza Matais e Fausto Macedo

01 de abril de 2016 | 09h10

Marcos Vaélio. Foto: Celso Junior/AE

Marcos Vaélio. Foto: Celso Junior/AE

A descoberta de contrato apreendido pela Polícia Federal, em março de 2014 – quando foi deflagrada a Operação Lava Jato – no escritório da contadora do doleiro Alberto Youssef, Meire Pozza, levou os investigadores ao empresário Ronan Maria Pinto e seus negócios com o PT. O empresário e o ex-secretário-geral do partido Silvio Pereira foram presos temporariamente nesta sexta-feira, 1, alvos da 27ª batizada de Operação Carbono 14.

É um contrato de mutuo, no valor de R$ 6 milhões, de 2004 envolvendo a a empresa 2S Participações Ltda, do publicitário Marcos Valério, a Expresso Nova Santo André, do empresário Ronan Maria Pinto, de Santo André – investigado na morte do prefeito petista de Santo André, em 2002 -, e a Remar Agenciamento e Assessoria. Assinam os representantes da 2S e da Remar.

No mesmo ano, 2004, o Banco Schahin concedeu um empréstimo para o pecuarista José Carlos Bumlai – preso desde novembro do ano passado, pela Lava Jato – de R$ 12 milhões. O valor, segundo admitiu o amigo do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, foi tomado por ele a pedido do PT. Ele e um dos delatores dos processos citaram os nomes de Silvio Pereira e do ex-tesoureiro do partido Delúbio Soares – levado coercitivamente para depor hoje – na operação.

CONTATO 2S E RONAN

CONTATO 2S E RONAN 2
“Constatou-se que Jose Carlos Bumlai contraiu um empréstimo fraudulento junto ao Banco Schahin em outubro de 2004 no montante de R$ 12 milhões. O mútuo, na realidade, tinha por finalidade a “quitação” de dívidas do Partido dos Trabalhadores(PT) e foi pago por intermédio da contratação fraudulenta da Schahin como operadora do navio-sonda Vitória 10.000, pela Petrobras, em 2009, ao custo de US$ 1,6 bilhão”, informou a força-tarefa da Lava Jato.

“A partir de diligências, descobriu-se que, do valor total emprestado de R$ 12 milhões a Bumlai, pelo menos R$ 6 milhões tiveram como destino o empresário do município de Santo André (SP), Ronan Maria Pinto.”

Mensalão. O Ministério Público Federal sabia, desde 2012, da existência de um negócio que envolveria R$ 6 milhões e os investigados do mensalão. O publicitário mineiro Marcos Valério, operador de propinas no mensalão, afirmou em tentativa de delação premiada naquele ano – quando seria condenado – que dirigentes do PT pediram a ele R$ 6 milhões. O dinheiro seria destinados ao empresário Ronan.

Segundo Valério, isso serviria para que o empresário de Santo André parasse de “chantagear” o ex-presidente Lula, o então secretário da Presidência, Gilberto Carvalho, e o então ministro da Casa Civil, José Dirceu – preso desde março, pela Lava Jato, em Curitiba.

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Ronan tentava relacionar Lula, Carvalho e Dirceu a suspeitas de corrupção na cidade que teriam motivado o assassinato do prefeito Celso Daniel, em 2002 – a conclusão da polícia paulista é de que ele foi vítima de um crime comum, não político. Bumlai teria sido uma das pessoas que teria atuado nesse episódio de suposta compra do silêncio do empresário de Santo André.

O empresário negou qualquer relação com o caso, e disse não conhecer nem Bumlai nem Marcos Valério.

Contrato confidencial. Dois anos depois das afirmações de Valério, em delação que acabou não sendo fechada, o contrato dos R$ 6 milhões da empresa do publicitário envolvendo empresa de Ronan foi apreendido no escritório da contadora de Youssef durante as buscas da Lava Jato.

O material intitulado “Enivaldo confidencial” seria um contrato “referente a um proprietário de uma empresa de ônibus de Santo André/SP” que era guardado a “sete chaves”, contou Youssef em seu termo de delação 25, prestado em 26 de outubro de 2014.

“(Youssef) sabia que Enivaldo Quadrado tinha os documentos guardados no escritório de contabilidade de Meire Pozza, a pedido daquele, por uma questão de resguardo pessoal”, explicou Youssef. Questionado pela força-tarefa da Lava Jato sobre o que ele temia, o doleiro disse não saber, mas era algo que guardava “a sete chaves”.

“Enivaldo Quadrado disse que preparou a triangulação de pessoas que figurariam em tal contrato”, explicou Youssef. “O contrato foi feito entre a empresa de Marcos Valério, istó é, a 2S Participações Ltda, e uma outra empresa que Enivaldo indicou.” A empresa, para os investigadores, é a Remar. Para isso, o ex-dono da Bônus-Banval “receberia dinheiro ou algum outro favor”, contou.

Segundo o doleiro, quem pediu para que Enivaldo Quadrado fizesse o documento “era uma pessoa ligada ao Partido dos Trabalhadores – PT, chamada Breno Altman”. “Sabe que Breno Altman é ligado ao PT, pois o declarante (Youssef) foi a Cuba duas vezes realizar negócios e o mesmo estava presente. O pai de Breno foi um dos fundadores do PT”, registra a força-tarefa, no termo de delação.

Breno Altman é jornalista e consultor internacional, com relação próxima com o ex-ministro José Dirceu. Ele nega qualquer envolvimento no caso, diz nunca ter visto Bumlai. Ele foi levado coercitivamente para depor, nesta sexta-feira, alvo da Operação Carbono 14.

“Indagado sobre o que motivou Breno a realizar tal operação, foi o fato de que o PT estaria sendo ameaçado por conta do caso ‘Celso Daniel’, de maneira que a documentação foi preparada para atender a determinada pessoa, que seria o proprietário de uma empresa de ônibus.”

O doleiro disse que não poder especificar o tipo de chantagem estaria envolvida, mas que ela “objetivava que tal pessoa ‘ficasse quieta’ em relação ao Caso Celso Daniel”.

Os procuradores da Lava Jato afirmaram nesta sexta-feira, 1, que “para fazer os recursos chegarem ao destinatário final, foi arquitetado um esquema de lavagem de capitais, envolvendo Ronan, pessoas ligadas ao Partido dos Trabalhadores e terceiros envolvidos na operacionalização da lavagem do dinheiro proveniente do crime contra o sistema financeiro nacional”.

“Há evidências que apontam que o Partido dos Trabalhadores influiu diretamente junto ao Banco Schahin na liberação do empréstimo fraudulento. Para chegar ao destinatário final Ronan Maria Pinto, os investigados se utilizaram de diversos estratagemas para ocultar a proveniência ilícita dos valores e a identidade do destinatário final do dinheiro obtido na instituição financeira.”

O advogado de Delúbio Soares não foi localizado. O espaço está aberto para a defesa do ex-tesoureiro do PT se manifestar.

COM A PALAVRA, A DEFESA DE SILVIO PEREIRA

A advogada Mariângela Tomé, que defende Silvio Pereira, afirmou: a defesa não vai se manifestar, pois não tomou conhecimento do caso.

COM A PALAVRA, RONAN MARIA PINTO

Nota – Esclarecimentos – Ronan Maria Pinto

Sobre a Fase da Operação Lava Jato
Nota Ronan Maria Pinto
Há meses reafirmamos que o empresário Ronan Maria Pinto sempre esteve à disposição das autoridades de forma a esclarecer com total tranquilidade e isenção as dúvidas e as investigações do âmbito da Operação Lava Jato, assim como a citação indevida de seu nome. Inclusive ampla e abertamente oferecendo-se de forma espontânea para prestar as informações que necessitassem.

Mais uma vez o empresário reafirmará não ter relação com os fatos mencionados e estar sendo vítima de uma situação que com certeza agora poderá ser esclarecida de uma vez por todas.

Solicitamos à imprensa atenção a essa nota e mais seriedade e sobriedade na apresentação do empresário, assim como nas informações e afirmações que vêm sendo feitas e divulgadas. Todas as denúncias que o envolveram ao longo dos anos foram ou estão sendo investigadas e Ronan Maria Pinto vem sendo defendido e absolvido. A mais recente, uma sentença de primeira instância, onde houve condenação, encontra-se em grau de recurso.

Essas são as informações.

Aguardamos mais detalhes sobre a totalidade da Operação.
Cordialmente,

Assessoria de Imprensa

COM A PALAVRA, BRENO ALTMAN

Fui surpreendido, na manhã de hoje, com a notícia de que a Policia Federal havia comparecido à minha casa, em São Paulo, com um mandado de condução coercitiva e outro de busca e apreensão.

Tinha viajado a Brasília para participar de atividades da Jornada Nacional pela Democracia, que ontem reuniu duzentas mil pessoas apenas na capital do país.

Atendendo a orientação dos próprios agentes federais, compareci à sede brasiliense da instituição. Meu depoimento foi tomado durante cerca de uma hora, em clima cordial e respeitoso.

Minhas declarações sobre a investigação em curso, no entanto, poderiam ter sido tomadas através de intimação regular, com data e horário determinados pelas autoridades. O fato é que jamais tinha recebido qualquer convocação prévia para depor.

Aliás, assim foi procedido com demais depoentes do inquérito que envolve meu nome: nenhum deles tinha sido levado a depor sob vara, até esta sexta-feira, respeitando norma legal que estabelece coerção somente para quem foge de comparecer a atos judiciais ou oferece risco à ordem pública.

Só posso reagir com indignação ao regime de exceção que o juiz Sérgio Moro resolveu estabelecer para alguns dos intimados da chamada Operação Carbono 14.

Infelizmente não é novidade. O atropelo de garantias constitucionais é a prática predominante do magistrado Sérgio Moro e de procuradores que atuam em sua corte.

Desde a condução coercitiva do ex-presidente Lula, tem ficado mais claro aos brasileiros que a Lava Jato faz da intimidação, do espetáculo e do arbítrio suas principais ferramentas de intervenção.

Sob a bandeira de combate à corrupção, trata-se de investigação seletiva e contaminada, cujo objetivo derradeiro é a derrocada do governo da Presidenta Dilma Rousseff, a interdição do ex-presidente Lula e a criminalização do Partido dos Trabalhadores.

Depois das multitudinárias concentrações de ontem e da revogação de decisões arbitrárias do juiz Moro pelo Supremo Tribunal Federal, era de se esperar que a República de Curitiba revidasse. Seu papel principal, afinal, é fabricar fatos que alimentem os meios de comunicação alinhados à oposição de direita.

Sou apenas mais um dos alvos deste tornado antidemocrático.

Não foi apresentada, durante o interrogatório, qualquer prova ou indício de meu eventual envolvimento no caso investigado, de suposto empréstimo ao empresário Ronan Maria Pinto.

A falta de solidez na inquirição também se revela, por exemplo, pelas perguntas que diziam respeito às atividades de antiga editora da minha propriedade, fechada há quase vinte anos, com indagações até sobre o tipo de livros que publicávamos, e à doação eleitoral de dois mil reais que fiz, em 2006, a Renato Cinco, então candidato a deputado estadual pelo PSOL do Rio de Janeiro.

O que importava, afinal, era a criação de fato político que realimentasse tanto a Operação Lava Jato quanto a ofensiva por um golpe parlamentar contra a presidente da República.

Apesar de ultrajado em meus direitos de cidadão, continuarei à disposição da Justiça e confiante que, mais cedo ou mais tarde, retornaremos à plena vigência do Estado de Direito.

Mas minha situação pessoal é de pouca relevância. Como jornalista e militante das causas populares, tenho a obrigação de denunciar o esculacho ao qual nossa Constituição e nossas leis têm sido submetidas.

Também é meu dever, ao lado de milhares e milhares de outros lutadores, continuar nas ruas contra a escalada golpista da qual faz parte a Operação Lava Jato.

Estou orientando meus advogados a entrarem com uma ação no Conselho Nacional de Justiça contra o juiz Sergio Moro, pela ilegalidade de minha condução coercitiva, em decisão prenhe de ilações e especulações.

O Brasil não pode aceitar que um estado policial se desenvolva nas entranhas de nossas instituições democráticas.

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