Contra teimosia não há vacina

Contra teimosia não há vacina

Ricardo Viveiros*

13 de novembro de 2020 | 05h00

Ricardo Viveiros. FOTO: DIVULGAÇÃO

Desde que surgiram, os humanos polemizam. Cada um tem sua opinião e, boa parcela, acredita que é a correta. Desse eterno confronto nasceram importantes transformações. O debate ilumina o contraditório, traz diferentes visões de um mesmo tema.

São poucos os que têm a consciência de ouvir, pensar e, com sabedoria, manter ou não sua ideia sobre determinada tese. Alexandre Herculano, jornalista, historiador e poeta português, disse: “Não me envergonho de corrigir meus erros e mudar as opiniões, porque não me envergonho de raciocinar e aprender.” O francês Blaise Pascal, filósofo e escritor, já havia dito algo semelhante quase 200 anos antes.

O que difere o defensor do cientificamente comprovado do apenas teimoso? O primeiro depende de fatos concretos, enquanto o outro é movido por vaidade, pretensão, fervor. Enquanto o interlocutor fala, ao invés de ouvir e pensar, apenas busca como irá contradizer e impor sua tese. Inexiste escuta ativa.

Claro que são diferentes as motivações que embasam as teorias dos teimosos, transitam desde convicções religiosas, passando por conceitos de vida até chegar em ideologias políticas. Sempre concebidas e argumentadas de modo radical. Não é sequer uma paixão, como optar por um time de futebol. É algo fundamentado em uma cega certeza que não permite diálogo.

Sigmund Freud, judeu-austríaco criador da Psicanálise, alertava: “Alemão não é teimoso, teimoso é quem teima com um alemão.” Justa ou injusta, a referência serve para alcançar o que significa ser renitente às mudanças do livre pensar. Nestes tempos de pandemia, há demonstrações de uma fase que começou bem antes da crise sanitária. Uma “Cultura do Ódio”, expressão que cunhei e trouxe a público em artigo publicado em setembro de 2019. A questão política dividiu as pessoas em dois lados, os contra e os a favor. E isso acontece em vários pontos do Planeta, potencializado pela tecnologia digital. Qualquer coisa é motivo de acirrada polêmica.

Pessoas morrendo e a questão não é salvá-las, é a ideologia da origem da vacina: chinesa de esquerda ou britânica de direita. Tudo é muito novo, natural que se desconfie da eficácia. Além do que, os pesquisadores alertam para reações ainda imprevisíveis.

Caso uma grande parcela da população não for vacinada, a Covid-19 trará novas ondas de contaminações e mortes. Vale lembrar que como o terraplanismo, arautos do anticientificismo e seus poderosos apoiadores resgataram do passado doenças que estavam dominadas pelas vacinas. A turma antivacina tem alimentado a volta de sarampo, rubéola, coqueluche e tuberculose como já se registra também na Europa e nos EUA.

Segundo pesquisa da revista “Nature” em 19 países, 71,5% das pessoas estão dispostas a tomar a vacina, desde que as agências sanitárias declarem seguro. A se confirmar o estudo, realizado em julho passado, países com grande confiança em governos centralizados como China, Coreia do Sul e Cingapura, bem como países de renda mediana como Brasil, Índia e África do Sul, estão entre os com população predisposta a se vacinar.

O corajoso povo brasileiro aprendeu a lutar contra as adversidades, doenças crônicas causadas por má gestão pública. Nesse caso, a única imunização é o voto. Enquanto isso, melhor deixar morrer a teimosia, do que perder mais vidas. Sem xenofobia doutrinária e ignorância explícita. Que venha a vacina, não importa a ideologia da origem, mas sim a eficácia.

*Ricardo Viveiros, jornalista, professor e escritor é autor, entre outros livros, de A Vila que Descobriu o Brasil, Pelos Caminhos da Educação e Justiça Seja Feita

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