Contadora de propinas da Odebrecht diz a Moro que mulher de marqueteiro ‘tinha contato com o chefe, o dr. Marcelo’

Contadora de propinas da Odebrecht diz a Moro que mulher de marqueteiro ‘tinha contato com o chefe, o dr. Marcelo’

Maria Lúcia Tavares, que por onze anos trabalhou no Departamento de Operações Estruturadas, revela em audiência com juiz da Lava Jato como era a rotina das planilhas de pagamentos ilícitos da empreiteira e que Mônica Moura esteve duas vezes em sua sala

Mateus Coutinho, Ricardo Brandt e Fausto Macedo

03 de fevereiro de 2017 | 12h53

marialuciamoro

A secretária Maria Lúcia Tavares, que por onze anos trabalhou no Departamento de Operações Estruturadas da Odebrecht – conhecido como ‘setor de propinas’ da empreiteira – afirmou nesta sexta-feira, 3, ao juiz federal Sérgio Moro que Mônica Moura, mulher do marqueteiro João Santana, ‘tinha contato com o chefe, com o dr. Marcelo (Odebrecht)’.

“Ela (Mônica) tinha contato com o chefe, com o dr. Marcelo, e com o dr. Hilberto (Silva)”, relatou Maria Lúcia. “Então, ela foi lá prá entregar a conta lá fora (na Suíça) eu passei prá minha colega que ela fazia conta lá fora prá poder entregar a encomenda aqui no Brasil.”

Marcelo Odebrecht está preso desde 19 de junho de 2015. Ele e mais 76 executivos e ex-executivos da empreiteira estão fazendo delação premiada.

A secretária disse que no setor de operações estruturadas era subordinada a Hilberto Silva e a Fernando Migliaccio.

Ela contou que Mônica – condenada nesta quinta, 2, com o marido João Santana por lavagem de dinheiro a oito anos de prisão – esteve duas vezes em sua sala, na sede da empreiteira, para pegar dinheiro relacionado ao codinome ‘Feira’ – como Mônica era identificada nas planilhas de propinas.

Em audiência na Justiça Federal no Paraná, base da Operação Lava Jato, Maria Lúcia foi ouvida na ação penal que tem como réus principais o ex-ministro Antônio Palocci (Fazenda e Casa Civil), o empreiteiro Marcelo Odebrecht – ambos estão presos.

A secretária foi ouvida por vídeoconferência.

Ela foi questionada sobre as planilhas onde havia um campo intitulado ‘Posição Especial Programa Italiano’, que seria referência ao ex-ministro Palocci, segundo o Ministério Público Federal – a força-tarefa da Lava Jato sustenta que a Odebrecht repassou R$ 128 milhões a ‘Italiano’.

Palocci estava na audiência, na sala do juiz Moro. Indagada pelo criminalista José Roberto Batochio, defensor de Palocci, se ela o conhecia, Maria Lúcia foi taxativa. “Só de televisão.”

“Nunca esteve pessoalmente com ele (Palocci)?”, insistiu o advogado.

“Nunca, nunca.”

“Nunca falou com ele?”, ainda o defensor

“Nunca falei com ele”, respondeu a secretária.

A procuradora da República Laura Tessler abordou mais detalhadamente as planilhas de propinas. “A sra conhece o codinome ‘Italiano’ e a quem se refere?”

“Não sra., sabia os codinomes, mas não sabia quem são as pessoas referenciadas nos codinomes”, disse Maria Lúcia. “Também não tinha curiosidade de saber.”

Ela explicou porque sabia que Mônica Moura era codinome ‘Feira’. “Porque ela foi lá na sala.”

O juiz Moro perguntou. “Eram muitos codinomes para os quais se faziam pagamentos pelo setor de operações estruturadas?”

“Era muito codinome, era muito.”

“A sra não sabia a identidade da maioria?”

“De jeito nenhum, não conhecia ninguém. Só vinha prá mim codinomes e as senhas quando davam os endereços.”

“E quem sabia a identidade dos codinomes?”

“Não tenho conhecimento.”

“O sr. Fernando (Migliaccio) sabia?”

“Pode até ser, mas ele nunca me falou nada, nunca falou quem era e quem não era.”

A procuradora insistiu. “Eram pagamentos paralelos, é isso?”

“Isso.”

“Por que não eram feitos pela contabilidade oficial da Odebrecht?”

“Não sei, a minha função era eles mandavam fazer o serviço, mas depois com o tempo fui verificar que aquilo era ilícito.”

“Deram explicação para a sra por que se fazia dessa forma?”

“Não, não, na minha ignorância não procurava saber.”

“A quem respondia o sr. Hilberto Silva?”

“Ao Marcelo (Odebrecht).”

A procuradora prosseguiu, quis saber das ‘remessas’ da empresa para os clientes.

“Era o seguinte, a gente recebia uma planilha, essa planilha vinha com os codinomes, esses codinomes vinham com os valores e a data da entrega. Esperava o chefe mandar prá mim os
endereços e repassava para o prestador de serviço.”

“A sra. recebia de quem essa planilha com os codinomes?”

“Essa planilha vinha do Fernando Migliaccio e de Ubiraci também.”

“Foi identificada em busca e apreensão na residência da sra planilha fazendo referência a ‘Feira’. A sra sabe identificar quem seria essa pessoa?”

“Sei sim, o nome dela é Mônica Moura, ela esteve lá para pegar o endereço prá pegar o dinheiro e também levar uma conta.”

“Essa planilha ‘programa especial Italiano’ a sra. teve contato com ela? A sra. se recorda de ter tido contato com essa planilha?

“Recordo, recordo sim. Foi o Fernando (Migliaccio) que passou prá mim, prá fazer a programação do dia a dia, com os valores, fazer a programação.”

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