Conta ‘Pelego’ era vocacionada para pagar propina, diz delator

Conta ‘Pelego’ era vocacionada para pagar propina, diz delator

Recursos ilícitos de contratos de navios sonda da Petrobrás transitaram por instituição financeira na Suíça até chegar a lobista do PMDB e aliado do presidente da Câmara, alvo de denúncia da Procuradoria por corrupção e lavagem de dinheiro

Redação

22 de agosto de 2015 | 05h00

Por Mateus Coutinho, Ricardo Brandt, Fabio Fabrini e Andreza Matais

Eduardo Cunha. Foto: Reuters

Eduardo Cunha. Foto: Reuters

No rastro da propina de US$ 5 milhões supostamente paga ao presidente da Câmara,. deputado Eduardo Cunha (PMDB-RJ) – denunciado nesta quinta-feira, 20, por corrupção e lavagem de dinheiro -, a Procuradoria-Geral da Reública identificou um emaranhado de contas na Suíça e no Uruguai. Uma delas é a conta Pelego que, segundo o executivo Júlio Camargo, delator da Operação Lava Jato, era ‘vocacionada’ para pagar recursos ilícitos no exterior.

A propina, sustenta a Procuradoria, liberada em parcelas, passava primeiro pelas contas de empresas de fachada do lobista do PMDB Fernando Falcão Soares, o Fernando Baiano – preso na Lava Jato -, aliado do presidente da Câmara, que seria o destinatário final de pelo menos US$ 5 milhões.

A denúncia contra Eduardo Cunha, subscrita pelo chefe do Ministério Público Federal, Rodrigo Janot, é sustentada essencialmente pela delação de Júlio Camargo, que acusa o peemdebista de tê-lo pressionado por US$ 5 milhões e por um incrível acervo de extratos bancários enviados por Genebra, por meio de cooperação jurídica internacional. O Ministério Público da Suíça identificou as contas utilizadas por Fernando Baiano para operar a propina dos navios sonda no exterior.

As autoridades suíças enviaram documentação da Three Lions Energy, no Banco Clariden LEU, de titularidade do lobista do PMDB que recebeu US$ 800 mil da conta da offshore Piemonte Investment Corporation, controlada por Júlio Camargo.

Essa é uma das operações que confirma documentalmente as revelações do delator. À força-tarefa da Lava Jato, Júlio Camargo afirmou que a propina global no âmbito dos navios sonda foi de US$ 40 milhões. Parcelas foram enviadas por ele, através da Piemonte, para contas de Fernando Baiano no exterior, depois repassadas para Eduardo Cunha, segundo a acusação.

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Em 2011, porém, as multinacionais contratadas pela Petrobrás interromperam os repasses intitulados ‘comissões’.
Ocorreu, então, o litígio entre o delator e o deputado. O relato de Júlio Camargo foi o ponto de partida da investigação da Procuradoria. Ele contou que Eduardo Cunha o pressionou a pagar US$ 5 milhões num encontro realizado no dia 18 de setembro de 2011, um domingo, em um escritório no Leblon. Os investigadores descobriram que Fernando Baiano participou do encontro.

Não bastava a palavra do delator. Janot e sua equipe recorreram, então aos colegas suíços.

O rastreamento mostrou que a conta de Baiano repassou, em 17 de setembro de 2008, a quantia de US$ 75 mil para a empresa offshore panamenha Russel Advisor AS – com conta bancária na instituição UPB -, de propriedade de Nestor Cerveró, ex-diretor de área Internacional da Petrobrás, indicado pelo PMDB. Cerveró já foi condenado a uma pena total de 17 anos de prisão.

A utilização de contas no exterior era uma das maneiras de operar o pagamento da propina de US$ 40 milhões destinada a Fernando Baiano, Eduardo Cunha e ao ex-diretor da Petrobrás Nestor Cerveró, no esquema comandado pelo PMDB”, afirma Janot.

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A colaboração da Suíça ajudou a identificar o caminho do dinheiro que foi transferido da Samsung Heavy Industries logo após os contratos serem celebrados com a Petrobrás, entre 2006 e 2007, para as empresas de Júlio Camargo e, posteriormente, para as contas de Fernando Baiano.

Inicialmente, foram identificadas 34 operações da Piemonte Investment Corp pela quais foram repassadas US$ 14.317.083,00 para diversas contas no exterior indicadas por Fernando Soares, sob seu controle ou de terceiros indicados por ele. Em 17 de julho de 2007 Cerveró recebeu a visita de um representante do Banco Credit Suisse. Dias antes, em 29 de junho de 2007, foi realizada transferência de US$ 200 mil da Piemonte Investment Corp para a conta da FTP Sons Limited, justamente no Branco Credit Suisse em Zurique.

A Procuradoria-Geral da República buscou a origem da rede de propinas da qual se teria beneficiado o presidente da Câmara. Os pagamentos do delator começaram em 16 de setembro de 2006, logo após o primeiro contrato de navio-sonda ser firmado entre a Samsung Heavy Industries e a Petrobrás, e se prolongaram até outubro de 2012.

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A conta Pelego merece destaque na denúncia do procurador-geral. “Foram pagos a título de propina referentes às sondas US$ 3.949.105,15 a partir de contas controladas por Júlio Camargo, mais especificamente a conta da empresa Blackburn Venture e da Pelego, esta última vocacionada para o pagamento de propinas, para contas também indicadas e controladas, direta e indiretamente, por Fernando Soares, coincidentes, com exceção de uma delas (Odalisa Invest), com as transferências.”

Os repasses ocorreram em 5 de outubro de 2006, 27 de novembro de 2006, 12 de janeiro de 2007, 25 de fevereiro de 2008, 5 de março de 2008 e 18 de junho de 2008.

“Todas as contas no exterior foram indicadas a Júlio Camargo por Fernando Soares”, afirma o procurador. “Embora nem todas pertençam a este último, foram contas utilizadas para permitir que o dinheiro chegasse aos destinatários já conhecidos da propina: Fernando Soares, Nestor Cerveró e o denunciado Eduardo Cunha.”

Os pagamentos da propina, assinala a denúncia histórica em 85 páginas,’transcorreram normalmente desde agosto de 2006 até meados de 2009′.

Nessa época, julho de 2009, se deu a entrega da primeira sonda. “A Samsung alegou questões contratuais e não efetuou o pagamento da última parcela do contrato de comissionamento, no valor de US$ 6.250.000. Em consequência, Júlio Camargo deixou de repassar os valores da propina a Fernando Soares, que cobrava os pagamentos, mas ainda de maneira ‘amena’.

O mergulho nesse capítulo da propina aponta, ainda, contas do doleiro Alberto Youssef, peça central da Lava Jato, por onde também circulou dinheiro ilícito dos contratos dos navios sonda. As empresas de Júlio Camargo, Treviso e Piemonte, por meio de contratos de câmbio sob a falsa rubrica de investimento direto no exterior CBLP Ind. Dir.Ext-Participações em Empresas, remeteram, respectivamente US$ 1.535.985,96, US$ 950 mil e US$ 588.422,91 para as suas ocntas no Banco Merry Linch, em Nova York.

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Em seguida, dando como garantia esses mesmos valores, contraiu um empréstimo no mesmo banco em favor da offshore Devonshire Global Fund, empresa controlada por Youssef que, por meio de quatro operações de câmbio, também sob a falsa rubrica “Capitais Estrangeiros a Longo Prazo Investimentos Diretos no Brasil”, aportou US$ 3.135.875,20 na GFD Empreendimentos Ltda – pessoa jurídica de fachada do doleiro -, promovendo a internalização da quantia no Brasil.

“Em seguida, Youssef disponibilizou tais valores em espécie para Júlio Camargo. Com tal disponibilidade, o próprio Júlio Camargo entregou parcela de tais valores, em espécie, para Fernando Soares.”

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