Construir ou reformar

Construir ou reformar

João Rogério Alves Filho*

09 de setembro de 2020 | 05h30

João Rogério Alves Filho. FOTO: DIVULGAÇÃO

A sequência de eventos ocorridos a partir das passeatas de maio de 2013 em nosso País traz em seu bojo uma clara noção de atordoamento cívico.

Os eventos que se sucederam, sem ordem cronológica ou de importância, transmitem, por si, a claudicância de nosso senso republicano mais abrangente.

A reeleição da ex-presidente Dilma, por margem apertadíssima, e o início de uma polarização sem precedentes na Nova República, já apontou em 2014 para um perigoso “pastoril” eleitoral, que culminou em seu impedimento já em 2016, tendo como pano de fundo a Operação Lava-Jato e os seus multifacetados efeitos, para o bem e para o mal.

Já em 2018, a greve dos caminhoneiros anunciava a eclosão de um dos processos eleitorais mais confusos com que já nos deparamos, inclusive, com atentado à vida de um candidato e prisão de outro, tendo marcado nossa história como o ano em que até as famílias e os círculos íntimos de amizade se viram marmorizadas pelo ódio e intolerância que vem pautando essa quadra de nosso País.

O atual debate sobre fake news, ódio e sustentabilidade ambiental é urgente, tendo passado a pautar, inclusive, nossa relação com os demais países do mundo.

Isso é muita coisa, coisa muito intensa.

O quadro confuso acima descrito, não é exclusivo ao Brasil, entretanto, alguns líderes que mantiveram um senso de civilidade entre seus governados devem nos servir de exemplo. Esses exemplos estão espalhados por todos os continentes, e, algo os trazem a um mínimo multiplicador comum: eles lideraram a partir de princípios de ordenamento social que se transpuseram a meras questões econômicas.

Neste momento em que surge um primeiro esboço de reforma tributária, a ideia nunca apresentada de uma reforma administrativa, uma reforma política utópica no cenário político atual e a impensável revisão de nosso pacto federativo, tudo isso, se contextualizado na retrospectiva acima, soa inócuo, enquanto incapaz de sua aprovação em modelo eficaz diante de nossa atual representação legislativa.

É pelo acima narrado que devemos refletir se a primeira reforma a ser urgentemente implementada em nosso País já não é a de construção de um novo modelo de cidadania. A reconstrução de nosso pacto social, a revisão de nossos valores e princípios enquanto nação é algo trabalhoso, mas que já não podemos adiar.

Até lá, infelizmente, temo estarmos andando em círculos, promovendo arremedos e gambiarras, vivendo um país recordista mundial em desigualdade. O eterno país do futuro.

*João Rogério Alves Filho é economista e sócio-diretor da PPK Consultoria

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