Conservar a sanidade

Conservar a sanidade

José Renato Nalini*

29 de maio de 2021 | 12h00

José Renato Nalini. FOTO: WERTHER SANTANA/ESTADÃO

As consequências do combo de crises em que o Brasil imergiu não são facilmente detectáveis. As prognose decerto falharão e o resultado concreto, sua procissão de desgraças e sequelas deixará aturdidos os pensadores que costumam vaticinar o imponderável e não se cansam de exercer a misteriosa arte da futurologia.

Não se pensava houvera espaço para tantos episódios que deixam a sensatez estupefata. O inimaginável está a acontecer rotineiramente, sem que haja tempo de recuperação do espanto anterior. É uma sucessão de sustos.

O funcionamento da Comissão Parlamentar de Inquérito que apura as responsabilidades pela inoperância diante de uma pandemia intensamente pré-anunciada, não oferece margem segura de esperança. Alguns episódios nela verificados desautorizam a validade de todos os estudos sobre as provas, elemento primordial para que a justiça humana se faça. A desfaçatez com que se fabricam fantasias delirantes e versões inconsistentes é uma verdadeira aula de ética ao contrário.

Só que tudo isso ocorre simultaneamente ao anúncio de que a cepa Indiana já chegou a São Paulo, que se avizinha a inevitável terceira, da série de ondas do vírus maligno que quer esvaziar o Brasil, que não chegam os insumos para a fabricação de vacinas e que as UTIs estão novamente repletas.

Acrescente-se o noticiário assustador dando conta de que a vacina mais utilizada na imunização dos brasileiros tem baixo teor de eficácia. Para precaver, será necessária uma terceira dose. Ora, se já não existem vacinas suficientes para a primeira dose, o que apavora os submetidos a prováveis contágios, o que dizer em relação à necessidade deu uma terceira dose?

Países desenvolvidos já cuidaram de avaliar os efeitos da COVID-19 depois de quase um ano e meio de peste descontrolada. Pesquisadores da Universidade de Oxford na Inglaterra, detectaram 14 distúrbios neurológicos ou psiquiátricos em quase 250.000 pessoas, 6 meses depois da confirmação do diagnóstico positivo. Tais distúrbios foram a ansiedade (17%) transtornos de humor (14%) abuso de substâncias (7%) e insônia (5%). Já dentre as doenças neurológicas, registrou-se acidente vascular cerebral (2,1%), demência (0,7%) e hemorragia cerebral (0,6%).

Infelizmente, não é só. Num outro estudo, 47.780 pessoas que tiveram COVID-19 mostraram taxas maiores em relação à população não acometida, em disfunção múltipla de órgãos em todas as faixas etárias. Pior ainda: depois de 140 dias do diagnóstico da COVID-19, 30% dos indivíduos tiveram de ser novamente hospitalizados. 12% deles morreram. São notícias do British Medical Journal de 15 de março último.

Diante desse quadro, no poderoso Reino Unido,   como explicar a leviandade do negacionismo tupiniquim? Os que se aglomeram, não usam máscaras e não acreditam em vacina não sentiram a atuação crescente e cruel da “indesejável das gentes”? Não houve qualquer morte familiar ou de alguém próximo? O que significam para eles, esses quase meio milhão de mortes, tragédia que afeta incontáveis famílias brasileiras?

Consideram normal a oscilação do número de contaminados e de mortos? A lotação das unidades de terapia intensiva? A falta de medicamentos para entubar, de oxigênio para permitir a respiração, da qual sequer damos conta enquanto saudáveis? Quem assistiu alguém morrer por falta de oxigênio narra uma cena dantesca.

Algo está muito estranho no mundo de hoje e, principalmente, tudo parece fugir ao normal no Brasil. Nunca haverá o “novo normal”. A anormalidade já vigora. Os fenômenos psíquicos recrudescerão de inúmeras formas. Tenho empiricamente registrado a falta que o convívio gera em todas as idades. Os “filhos da pandemia”, nascidos entre 2020 e 2021 terão dificuldade em qualquer espécie de convívio ampliado. Foram objeto de cuidados exclusivos de seus pais. Conseguiram socializar-se?

Por isso é de cautela procurar fórmulas de preservação da higidez mental. Fazer meditação, orar, ler, conversar, espairecer. Se nada disso se mostrar suficiente, buscar auxílio profissional. Existe apoio gratuito, oferecido por organizações como os Neuróticos Anônimos-NA, uma confraria integrada por seres humanos que partilham suas experiências e procuram fortalecer os ânimos extenuados pela persistente praga que se abateu sobre nós. Angústia, depressão, medo, nervosismo, insatisfação indescritível, tudo colabora para reduzir a qualidade de vida.

Em São Paulo, a sede da entidade está na rua Brigadeiro Tobias, 118 sala 402 e o telefone é 3228 2042. Maiores informações podem ser facilmente obtidas no site www.neuróticosanônimos.org.br

Se não servir para você, poderá talvez ajudar alguém que necessite de uma alavanca para conservar a sanidade mental em tempos tão plúmbeos como os que hoje vivenciamos.

*José Renato Nalini é reitor da Uniregistral, docente da pós-graduação da Uninove e presidente da Academia Paulista de Letras – 2021-2022

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