Consequências das prévias do PSDB

Consequências das prévias do PSDB

Ney Lopes*

29 de novembro de 2021 | 10h00

Ney Lopes. FOTO: ALEX SILVA/ESTADÃO

Finalmente, o PSDB escolheu João Doria, nas tumultuadas prévias internas, para ser seu candidato à presidência em 2022.

Doria obteve 53,99% dos votos tucanos, derrotando o governador gaúcho Eduardo Leite, que somou 44,66%, e o ex-senador Artur Virgílio, com 1,35%.

A escolha foi feita por 30 mil filiados, que participaram do processo de forma presencial ou remota.

O fato novo traz consequências inevitáveis para a corrida presidencial de 2022.

O PSDB pretende centralizar as discussões sobre a criação de uma candidatura conjunta na terceira via, que seja capaz de fazer frente às campanhas do presidente Jair Bolsonaro e do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Não será fácil atingir esse objetivo.

O acúmulo de conflitos no partido levanta interrogações se a campanha presidencial será capaz de juntar as discordâncias do passado e superar as divisões que alimentaram essas prévias.

O discurso de Doria foi recheado de pesadas críticas a Jair Bolsonaro, a quem acusou por “negligenciar a vacina”, e o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, a quem endereçou a fala de que não será complacente com quem “roubou” dinheiro público.

De acordo com a última pesquisa Ipespe, tanto Doria como Leite não passam dos 2% das intenções de voto.

O PSDB é o terceiro que mais apoia as pautas do presidente no Congresso e está em vias de sofrer uma debandada de seus parlamentares em abril do próximo ano, quando 13 de seus 33 deputados federais podem deixar a legenda.

O principal motivo é que, sem um palanque presidencial de peso, os tucanos temem dificuldade para se reeleger.

Buscam, assim, legendas de partidos do Centrão, como o PL (que deve receber Bolsonaro nos próximos dias), PP ou PRB.

Outro desafio será a candidatura tucana ganhar espaço no cenário nacional.

Com a demora na definição, o PSDB acabou vendo o crescimento da pré-candidatura de Sérgio Moro.

O ex-juiz disputa no mesmo campo da chamada terceira via e aspira apoio também no eleitorado de centro, centro-direita e direita (especialmente nos desapontados com o governo Bolsonaro).

Em termos realistas e sem histerismos, é ainda a confiável pesquisa do IPESPE desta semana, quem mostra o cenário real e atual do país: Lula (PT) com 42%; Presidente Jair Bolsonaro com 27% teve queda de 3 pontos mas segue em segundo lugar.

Na pesquisa sobre a avaliação do governo de Jair Bolsonaro, 63% dos entrevistados disseram desaprovar a gestão, contra 31% que aprovam.

Percebe-se a olho nu a queda vertiginosa de apoio popular do presidente Bolsonaro.

Não se diga que há apoio silencioso a Bolsonaro.

Os seus seguidores fanáticos não conhecem o termo “silencio”, a partir das campanhas diárias nas redes sociais.

O mesmo acontece com os adeptos de Lula.

Portanto, os números da pesquisa refletem o quadro real.

Quem quiser tem o direito de enganar-se e negar a realidade de hoje, o que não impede mudanças ao longo da campanha..

Como este cenário, a “terceira via” teria que unir-se para aspirar chegar ao segundo turno.

O esfacelamento de votos entre Doria, Moro, Mandetta, Ciro, Rodrigo Pacheco, Simone Tebet favorece a dupla Lula e Bolsonaro, no confronto final da eleição.

As eufóricas demonstrações promovidas pelos adeptos demonstram que o presidente conserva realmente o apoio da sua base “radical” e apenas alguns moderados, mostrados nas pesquisas.

As sucessivas crises e comportamentos despropositados fragilizam o presidente, ninguém duvide.

Por seu turno, Lula não passa de 40% de apoio. Não será suficiente para ele ganhar.

Corre ainda ao risco de divisões com candidatos de esquerda.

Ao elogiar ditaduras sul-americanas, afastou-se do centro democrático.

O caminho do sucesso para a terceira via seria um nome aglutinador e de credibilidade.

Mas parece difícil, embora não impossível.

João Doria poderá tentar, sobretudo por trazer consigo a bandeira de ter iniciado o processo de vacinação contra a Covid no país e o sucesso obtido em SP.

Mas, tudo leva a crer que o Brasil no segundo turno de 2022 estará entregue ao imponderável.

Que Deus nos proteja!

*Ney Lopes, jornalista, ex-deputado federal, professor de direito constitucional da UFRN, procurador federal e advogado

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