Conselhos para uma jovem advogada

Conselhos para uma jovem advogada

Ludmilla Corkey*

13 de dezembro de 2019 | 04h00

Ludmilla Corkey. FOTO: DIVULGAÇÃO

Fui convidada a falar sobre diversidade e inclusão na indústria de óleo e gás na ADIPEC – maior evento da indústria no Oriente Médio, e que acontece todos os anos Abu Dhabi. Com a retomada de investimentos no setor de óleo e gás no Brasil e as perspectivas de crescimento nos próximos anos, comecei a pensar em como o papel da mulher no setor havia mudado nas últimas décadas. Somos um grupo grande agora. E ocupamos cargos relevantes nos setores público e privado. Por outro lado, acredito que ainda há muito o que conquistar!

Quando comecei a trabalhar no setor de óleo e gás há 20 anos, logo após a abertura do mercado no Brasil, eu era uma jovem cheia de certezas. Eu tinha certeza de que poderia trabalhar da mesma maneira que um homem e, em troca, receberia o mesmo tratamento e teria as mesmas oportunidades. Eu tinha me formado em duas universidades, concluído um mestrado e muitos outros cursos, o que me dava uma certa segurança e sentimento de que estava preparada para qualquer desafio.

Talvez eu fosse jovem demais para perceber que ainda tínhamos tantas batalhas pela frente. Eu acreditava realmente que as mulheres já haviam superado todos os obstáculos. Tínhamos acesso às melhores escolas e universidades, podíamos votar, escolher nossas carreiras e não havia nada com o que devêssemos nos preocupar.

Eu fui me dando conta da realidade ao longo dos anos à medida que fiquei mais velha, me casei, tive filhos e … assumi posições mais altas. Olhando à minha volta, notei que não havia tantas mulheres em posições de liderança como havia nas posições mais juniores, e então fui apresentada a um desafio então desconhecido para mim: o viés.

O viés é o que nos faz olhar de maneira diferente para homens e mulheres quando fazem exatamente a mesma coisa. Há muitas pesquisas que mostram esse fenômeno. Homens são assertivos, mulheres são agressivas. Homens são líderes, mulheres são mandonas. Homens são confiantes, mulheres… muitas vezes não são tão confiantes porque estão preocupadas em serem queridas por seus colegas de trabalho.

Não tenho a resposta sobre a maneira mais eficaz de combater o viés ou preconceito, mas tenho três conselhos que gostaria de dar às mulheres de hoje.

1. Meu primeiro conselho é que precisamos respeitar as escolhas das mulheres – sejam elas quais forem. Se queremos seguir uma carreira ou cuidar dos filhos, nossas escolhas são simplesmente legítimas. Se uma colega decidiu deixar sua brilhante carreira em um banco para dedicar sua vida a criar seus filhos (como a minha irmã), precisamos apoiá-la! Se uma amiga nunca trabalhou porque sempre teve certeza de que sua vida seria preenchida cuidando de sua família (como a minha mãe), precisamos respeitá-la! E se uma colega decidiu trabalhar longas horas, viajar e assumir um dos projetos mais difíceis da vida depois de ter gêmeos prematuros (como eu), não devemos oferecer a ela nada menos do que o nosso respeito.

2. O segundo conselho é que devemos incentivar cada vez mais mulheres a assumir posições de liderança no trabalho. Parece óbvio, mas é inacreditável o poder de termos modelos femininos de liderança no trabalho! Para a maioria das mulheres, ver outras mulheres em posições de liderança é inspirador, estabelece um modelo feminino de gestão e, acima de tudo, é uma prova de que elas podem chegar lá!

3. Meu último conselho é provavelmente o mais difícil. Precisamos criar meninas e meninos igualmente confiantes. Como mãe de um menino e uma menina, eu posso ver que há uma diferença que se torna evidente desde muito cedo. Tendemos a esperar mais das meninas, a exigir mais delas… e isso é replicado na vida adulta no trabalho. Se você lidera equipes de homens e mulheres, tente não deixar os homens se sentirem confortáveis demais e não deixe as mulheres se sentirem tão culpadas…

Eu realmente gostaria que esses três conselhos fossem suficientes para resolver todos os problemas! Mas sabemos que o caminho a seguir não é tão fácil. No meu caso, decidi que é uma causa pela qual vale a pena lutar porque o trabalho é minha paixão, porque realmente acredito que as mulheres podem conseguir o que quiserem e porque quero ver um mundo em que minha filha tenha a verdadeira certeza de que todos os obstáculos ficaram realmente para trás.

*Ludmilla Corkey é advogada especialista no mercado de Energia e Gás do Madrona Advogados

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