Conscientização sobre o Alzheimer: como o óleo de cannabis pode ajudar pacientes com a doença

Conscientização sobre o Alzheimer: como o óleo de cannabis pode ajudar pacientes com a doença

Bárbara Arranz*

10 de março de 2021 | 06h50

Bárbara Arranz. FOTO: DIVULGAÇÃO

Uma das enfermidades mais cruéis que existem, a Doença de Alzheimer se desenvolve lentamente e vai tirando do paciente a capacidade de cuidar de si próprio progressivamente. A campanha Fevereiro Roxo foi criada como forma de conscientizar a população sobre o Alzheimer e outras patologias, como lúpus e fibromialgia. Apesar de serem doenças que, aparentemente, não têm muito em comum, elas se aproximam por não terem cura conhecida pela medicina. Nesse material falarei um pouco mais sobre o Alzheimer e sua relação com o uso da cannabis medicinal, que pode resultar em uma melhor qualidade de vida para os pacientes.

A Doença de Alzheimer é uma patologia progressiva cuja causa específica ainda é um mistério para a ciência. Ela é diagnosticada geralmente depois dos 60 anos e evolui rapidamente, comprometendo as funções cerebrais até levar o paciente a um estado de demência. Cientistas acreditam que há predisposição genética para o Alzheimer, pois observou-se que pacientes com histórico familiar da doença apresentam os primeiros sintomas mais cedo do que pacientes sem histórico familiar, por volta dos 50 anos.

Esquecimentos, desorientações no tempo e espaço costumam ser os sinais iniciais. A dificuldade em lembrar palavras também é muito comum e pode acontecer já nos primeiros anos da doença. Fatores de risco como predisposição genética individual, diabetes mellitus, hipertensão arterial, depressão, surdez, baixa escolaridade, sedentarismo, consumo elevado de gordura saturada, consumo excessivo de bebidas alcoólicas, infecções recorrentes por vírus da família herpes ou mesmo exposição crônica à poluição atmosférica são elementos frequente associados a uma maior chance de desenvolver o Alzheimer. A expectativa de vida após o diagnóstico não passa de 10 anos.

Segundo dados da Organização Mundial da Saúde (OMS), estima-se que 50 milhões de pessoas sofram de algum tipo de demência no mundo, e 70% destes casos são causados pelo Alzheimer. No Brasil, de acordo com a OMS, o número de pessoas vivendo com demência deverá triplicar até 2050.

Qual a relação entre cannabis e Alzheimer?

Embora seja uma planta muito poderosa, a cannabis não tem o poder de curar o Alzheimer. No entanto, pelo que já se sabe e pelos relatos de cuidadores, o uso da planta para fins medicinais retarda uma série de sintomas, ajudando tanto o paciente quanto seus cuidadores a terem uma vida mais tranquila.

Posso citar o caso de um paciente que tive contato e foi diagnosticado com. A doença evoluiu rapidamente. De personalidade tranquila, o paciente passou a apresentar um comportamento mais impaciente de forma constante, uma característica comum da doença.

A esposa relata a mudança no quadro depois que começou a utilizar a planta. De acordo com dona Euciene, os resultados foram surpreendentes, após seis meses de uso o marido já estava em um quadro bem avançado, se acalmou e também teve melhora no apetite, ganhando mais qualidade de vida. Ele ainda passou a chama-la para ir ao banheiro durante a noite, coisa que não fazia, além de não precisar de tomar nenhum outro remédio a não ser que a pressão esteja alta.

Usando como base esse relato podemos elencar uma série de benefícios da cannabis para pacientes com Alzheimer, entre eles: a melhora na socialização, melhora no apetite, tratamento contra insônia, acalma o paciente, ajuda a tratar oscilações bruscas de humor, ajuda a reduzir inflamações em diversas áreas do corpo, além de atuar na neurogênese – capacidade de regeneração do cérebro pelo nascimento de novas células.

Usar o óleo de cannabis full Spectrum desde o diagnóstico pode ajudar bastante na evolução do paciente, pois ele retarda boa parte dos sintomas descritos acima. Mas como a cannabis pode ser tão efetiva no tratamento da doença?

A cannabis sativa é cultivada e usada há pelo menos 5 mil anos. Porém, boa parte dos estudos e das descobertas acerca do poder medicinal da planta aconteceram nas últimas décadas. Parte disso se deve ao preconceito e a guerra à planta travada por muitos governos.

Já foram identificados mais de 400 componentes químicos ativos na maconha. Alguns desses são específicos da planta: os canabinóides. Existem diversos canabinóides, mas alguns dos mais conhecidos são o Canabidiol (CBD) e o Tetra-hidrocanabinol (THC), o Canabinol (CBN) e o Canabigerol (CBG).

No começo dos anos 90, cientistas descobriram um par de receptores presentes no cérebro e em outras partes do corpo que reagem positivamente a essas substâncias. A esses receptores foi dado o nome de Sistema Endocanabinóide, que entra em ação quando os canabinóides presentes na maconha são ingeridos, geralmente através do óleo de cannabis full Spectrum. O uso do óleo leva nosso organismo para o estado de homeostase, que significa o equilíbrio do nosso organismo, condição que o paciente ganha com a utilização do produto. A homeostase é a capacidade dos organismos de manterem seu meio interno em certa estabilidade. O termo criado por Walter Cannon, pode ser definido como a habilidade de manter o meio interno em um equilíbrio quase constante, independentemente das alterações que ocorram no ambiente externo.

O consumo do óleo de cannabis é efetivo porque ele age diretamente no cérebro, acalmando os pacientes e ajudando em questões como insônia e perda de apetite. Quando ativados, os receptores espalhados por outras partes do corpo também ajudam a tratar inflamações e dores musculares.

Além disso, estudos apontam que o óleo de cannabis ajuda a conter a formação de beta-amilóide no cérebro, característica relativamente comum nos pacientes com Alzheimer. Trata-se de uma fibra proteica pegajosa, que se junta rapidamente e forma placas prejudiciais ao funcionamento da região onde é formada. Os ativos presentes no CBD (canabinóide da maconha) inibema criação dessas proteínas, cuja proliferação está associada à degeneração das células cerebrais e ao quadro de demência.

Por fim, os agrupamentos de beta-amilóide podem bloquear a sinalização entre as células nas sinapses. Eles também podem ativar as células do sistema imunológico, causando inflamações e devorando células deficientes.

Ainda são necessários mais estudos, mas se realmente ficar provado que o óleo de cannabis ajuda a conter esse processo, estaremos diante de uma descoberta muito significativa.

No Brasil, temos algumas associações de pacientes que produzem o óleo e distribuem para seus associados. A nível federal, o congresso está discutindo a estruturação de uma cadeia de produção de medicamentos à base de cannabis que envolve inclusive a distribuição via SUS. Mas o projeto em questão, de autoria do deputado Paulo Teixeira, ainda está longe de virar lei e muitas discussões e articulações precisam ser feitas.

*Bárbara Arranz, biomédica e presidente do conselho executivo na Linha Canabica

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