Consciência para quem?

Consciência para quem?

Nauê Bernardo Pinheiro de Azevedo*

21 de novembro de 2020 | 19h50

Nauê Bernardo Pinheiro de Azevedo. FOTO: ARQUIVO PESSOAL

Eis que chegou e passou o dia da consciência negra, criado em 2003 para que fosse possível ao povo brasileiro refletir sobre a luta diária contra o racismo e as conquistas históricas da população negra no país. Naturalmente, em um país no qual o racismo é bastante cordial, o tema gera polêmica.

O dia da consciência negra não serve para que a gente use o vídeo do Morgan Freeman ou qualquer outra coisa do gênero que remeta ao “somos todos humanos” – até porque sabemos bem que alguns são mais humanos que outros, não é mesmo?

Esse dia tem o condão de servir para que a gente, como sociedade, reflita a respeito do “ser negro” no nosso país, e como o mito da democracia racial é, que nem tudo o que se intitula mito, um devaneio, uma enganação, um punhado de discursos bobos e alegorias (e, em vários casos, sem utilidade na vida real).

Como eu gosto muito de futebol, vou tomar como exemplo inicial esse esporte, que acaba traduzindo muito bem várias das relações sociais que temos no Brasil.

Em 2014, o país se viu estarrecido com o caso de injúria racial que ocorreu contra o goleiro Aranha, então jogador do Santos [1]. Na ocasião, em visita ao Grêmio, o goleiro sofreu apupos com conotação racista. As câmeras flagraram uma moça gritando de forma bem estridente, e isso foi o circo perfeito. Por quê? Porque conseguiram, dessa forma, jogar o problema para uma minoria – algo que sempre acontece no país. Naturalmente, a ela foi dada toda a chance de se explicar [2], já que a opinião do agressor geralmente importa muito no Brasil (desde que não seja fora do padrão que as pessoas veem como correto). O caso teve desdobramentos polêmicos: o Grêmio foi excluído da competição que disputava, como punição, e a moça sofreu toda sorte de agressão antes de ser convidada a trabalhar em uma ONG antirracismo [3].

Houve muita comoção, muita discussão, muita polêmica, muita gente revoltada com o caso. É claro que o racismo nos estádios ia sofrer um baque poderoso, né? Parece que não, conforme mostra levantamento do Observatório da Discriminação Racial no Futebol [4]. Afinal de contas, racismo é coisa de uma minoria tola. “O problema não é meu! Eu não sou racista. Inclusive, tenho cabeleireiro negro” [5]. Os casos continuaram acontecendo. E o que esse estudo mostra? Não, não houve simples e bruto aumento de casos ou algo assim, se é o que você pensa que estou demonstrando: o que ocorreu foi a revelação da situação.

O buraco é fundo, e precisamos urgentemente acabar com essa falsa conciliação na qual vivemos. Falsa conciliação, inclusive, é a expressão que dá título a um dos textos que eu mais gosto na vida divulgado pelo jornalista David Butter no blog Chuteira Preta, em 2014 (à época do acontecimento com o goleiro Aranha) [6]. Trocando em miúdos, o autor, àquela época, já alertava para o tanto que vem sendo ser fácil ser cretino no nosso país. E eu acredito que o trecho a seguir fala melhor do que eu sobre essa situação:

“a esses aspectos, soma-se outro, que vem colorindo a vida cultural do Brasil há quase uma década: a cretinice militante contra o espantalho do “politicamente correto”. Há carreiras erguidas em cima disso. A fórmula é uma: a da provocação guarnecida com uma porta de saída, um potencial de negação. É possível, assim, um humorista comparar jogadores de futebol ao King Kong, dizendo que ambos “vão para a cidade, ficam famosos e pegam uma loira”: o acervo do racismo brasileiro acionado para uma provocação com porta de saída (“nunca disse que os jogadores eram negros”)”.

(Observação: a parte mais legal é que deram voz a um texto sobre racismo escrito por um branco. Já já falo mais sobre isso – e lógico que não há nenhuma crítica ao brilhante David).

Ou seja: nós simplesmente varremos o problema para baixo do tapete transmutando a culpa em alguma espécie de minoria invisível, torpe, babaca. Mas continuamos a tolerar a situação, já que não é culpa nossa, e nem problema nosso, certo?

Errado. O problema é de todo mundo.

Essa semana publicaram um dado muito intrigante: negros são maioria pela primeira vez nas universidades públicas, aponta IBGE [7]. Muito lindo! Mas meu Deus, onde que tá esse povo todo? Porque os cursos de direito e medicina continuam branquinhos (obs.: já melhorou muito!). E não custa lembrar a polêmica com a autodeclaração em cotas, por meio das quais várias pessoas brancas se declaram negras ou pardas, respondendo que sofreram racismo na Europa, por exemplo. E culpam o sistema, indicando que “ninguém sabe definir o que é um negro”. Ah meu amigo, sabem. E como sabem.

Em 2018, o Estadão publicou um dado assustador [8]: a taxa de homicídios de negros é mais que o dobro da taxa de brancos no país. No mesmo ano, foi revelado que o número de feminicídios caiu entre brancas, mas aumentou entre mulheres negras e indígenas [9]. Em 2016, o Correio trouxe outra estatística, revelando que jovens negros de 21 anos têm 147% mais chances de serem assassinados [10]. Sim, é isso mesmo, este que escreve e assina o presente texto é uma EXCEÇÃO. As chances de eu ter sido assassinado eram sensivelmente mais altas do que as de pessoas brancas. Sim, eu podia estar morto de forma altamente violenta. Isso, por si só, deveria ser algo forte o bastante para mobilizar o país rumo a uma solução, já que uma parte imensa da juventude pode ser condenada à morte sumariamente.

Por outro lado, nas eleições gerais de 2018 o país elegeu apenas 4% de parlamentares negros [11], e, ao mesmo tempo, eu peço que cada pessoa que ler isso aqui me indique quem são os chefes de Poder Executivo estaduais negros. Isso num país no qual a maioria da população se declara negra ou parda [12]. Você tá entendendo o tamanho do problema? Não? Peraí, deixa eu te dar mais alguns dados:

– Negros ganham 42,5% menos e ocupam 30% dos cargos de chefia [13];

– Proporção de juízes negros ou pardos, segundo o CNJ, é de 15,6% [14] (obs: Brasília só foi ter a primeira mulher negra desembargadora a partir de 2019, com a eleição da dra. Maria Ivatônia. SÓ. EM. 2019. Analise quantos ministros de tribunais superiores são pessoas negras depois de terminar esse texto);

– A expectativa de vida média de pessoas negras no Brasil é de 67 anos, enquanto a de pessoas brancas é de 73 anos [15].

Precisamos deixar de lado a cretinice, os sofismas, os jargões, e começar a olhar para o tamanho do problema. Precisamos desnudar nosso racismo para poder combater de forma adequada. Não dá para continuar pensando que está tudo bem. Não está. Não tem nada bem. O racismo começa na invisibilidade, passa pelo determinismo e desemboca na miséria e na morte. Parem de diminuir o problema. Parem de achar que a gente precisa seguir com essa falsa conciliação. Existem dados, existem estudos, existem N coisas indicando que não, não está tudo bem. E se minha fala não é suficiente para vocês, vejam algum branco que fala sobre o assunto – também existem vários.

Como disse a grande e necessária Angela Davis, não basta não ser racista – é necessário ser antirracista. E todos e todas podem fazer isso. Sem se açoitar, sem se martirizar, sem achar que tudo é culpa sua. Comece a refletir. Entenda que práticas suas podem ser racistas e tente muda-las, aos poucos. Não é um processo fácil, mas juntos a gente consegue.

Mesmo com toda a comoção social provocada pelo “vidas negras importam”, ainda estamos longe de um resultado satisfatório. Mas, ao menos, entendo que estamos caminhando para algum lugar. E que possamos seguir por esse caminho, para atingir uma sociedade verdadeiramente antirracista. Desde que haja o espaço para a constante auto responsabilidade e autocrítica, uma vez que é comum pessoas que fazem o mínimo se sentirem acima de qualquer crítica quando confrontadas com atitudes discriminatórias que cometeram.

Em 2020 seguimos presenciando crianças sendo mortas vítimas de balas perdidas. Crianças sendo largadas à morte por patroas. Pessoas sendo asfixiadas e mortas na rua ou em estacionamentos de supermercados. E todas elas tinham em comum o mesmo elemento: a cor de sua pele. Sonhos interrompidos, sentenças sumárias de morte. Todas com o mesmo elemento comum.

Vencer a narrativa de que o racismo no Brasil não existe, como algumas pessoas ainda querem fazer valer em pleno 2020, é necessário. Enquanto os olhos continuarem fechados para esse fenômeno social, o país nunca será capaz de vencer essa chaga. E, enquanto não encarar com seriedade esse problema, é possível afirmar categoricamente que mais e mais pessoas negras seguirão vitimadas em seus psicológicos, suas oportunidades ou mesmo suas próprias vidas.

Portanto, existem dois lados nessa história, e nenhum outro. Se depois de tudo isso você ainda não deu o braço a torcer e não quer entender sua participação para mudar o cenário, eu sinto muito, mas você é parte do problema. Parte atuante. Fique bem e desfrute sua participação no lado errado da história.

*Nauê Bernardo Pinheiro de Azevedo, advogado e cientista político

[1] https://www.terra.com.br/…/goleiro-aranha-e-alvo-de…

[2] http://g1.globo.com/…/patricia-moreira-quebra-silencio…

[3] https://gauchazh.clicrbs.com.br/…/Quero-ser-um-simbolo…

[4] https://globoesporte.globo.com/…/relatorio-aponta…

[5] https://www.mg.superesportes.com.br/…/meu-cabeleireiro…

[6] http://globoesporte.globo.com/…/falsa-conciliacao.html

[7] https://oglobo.globo.com/…/negros-sao-maioria-pela…

[8] https://sao-paulo.estadao.com.br/…/geral,taxa-de…

[9] https://www.camara.leg.br/…/547491-feminicidio-cresce…/

[10] https://www.correiobraziliense.com.br/…/jovens-negros…

[11] https://oglobo.globo.com/…/pais-elegeu-apenas-4-de…

[12] https://g1.globo.com/…/populacao-que-se-declara-preta…

[13] https://noticias.r7.com/…/negros-ganham-425-menos-e…

[14] https://www.cnj.jus.br/pesquisa-do-cnj-quantos-juizes…/

[15] https://www.metropoles.com/…/populacao-negra-enfrenta…

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