Consciência com atitude não tem cor

Consciência com atitude não tem cor

Daniela Gonçalves*

23 de novembro de 2021 | 07h35

Daniela Gonçalves. FOTO: DIVULGAÇÃO

Tem sido cada vez mais comum as organizações implementarem ações voltadas a práticas de Diversidade e Inclusão (D&I). Afinal, vivemos em um mundo globalizado onde questões políticas, econômicas, financeiras e até mesmo de saúde pública que ocorrem em outros continentes impactam diretamente o nosso dia a dia. Então, quando o tema é Consciência Negra não podia ser diferente. Consciência Negra é uma expressão que designa a percepção histórica e cultural que os negros têm de si mesmos. Também representa a luta dos negros contra a discriminação racial e a desigualdade social. Assim, a escolha do dia não foi aleatória, foi feita por ser a data de morte de Zumbi dos Palmares em 20 de novembro de 1695. Ele foi um dos líderes do maior quilombo que já existiu no Brasil e ficou conhecido por ter liderado a resistência do quilombo contra os ataques portugueses no século XVII.

Nesse sentido, as ações promovidas no dia 20 de novembro não deveriam ser de comemoração, mas sim de conscientização e reflexão incluindo atividades que proporcionem o reconhecimento da cultura negra como parte integrante da cultura brasileira.

No entanto, vale afirmar que este assunto não se restringe somente a esta data já que tem sido fortemente incorporado nas estratégias de desenvolvimento das empresas e instituições de ensino, por exemplo. Recentemente temos visto uma amplitude na oferta de oportunidades para avançarmos com o desafiador processo de evolução da luta contra os diversos tipos de preconceitos, destacando aqui o racial. Uma constatação relevante é o aumento significativo de vagas de emprego e capacitações direcionadas aos negros, bem como a divulgação de histórias de conquistas pessoais e profissionais que se tornam inspiração para pessoas da mesma raça.

Obviamente não dá para esquecer o passado e nem esconder fatos do presente, é preciso reconhecer que o racismo existe. Isso requer esforço, pois infelizmente não ocorre naturalmente, mesmo no Brasil onde temos 56,1% da população negra, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE, 2020). Pesquisas apontam ainda, que quanto maior o nível hierárquico, menor a presença de mulheres negras no comando das empresas – cerca de somente 0,4%. Estas são apenas algumas evidências de que a sociedade necessita ser mais igualitária, mas para isso precisa urgentemente passar por um processo de reeducação e enxergar sem filtros que a temática racismo é de extrema relevância.

Aceitar que o problema permanece é parte da solução e as organizações estão tentando fazer o seu papel ao não medirem esforços na direção do respeito as singularidades, seja de gênero, raça, etnia, orientações, etc. Há inclusive um aumento de iniciativas empresariais para mostrar às jovens negras que elas também podem exercer funções antes preenchidas somente pelos homens. Com isso, empresas que não se preocupam com as caraterísticas físicas e valorizam genuinamente a capacidade das pessoas se tornam mais criativas, inovadoras, produtivas, competitivas e consequentemente sustentáveis a longo prazo. Estas são ações de uma movimentação social de visão mais aberta.

É válido lembrar que é igualmente importante que os homens negros e as mulheres negras reflitam sobre como eles e elas se veem, pois dessa maneira o tema D&I ganhará ainda mais força. Nesse sentido, além de fazer parte da estratégica dos negócios e rotinas empresariais, o assunto passa a ser uma realidade presente na vida das pessoas, pois todos assumem suas responsabilidades sociais e atuam como agentes de transformação ao tirarem o tema do papel colocando-o em prática.

Palavras como colonização, escravidão, sofrimento, discriminação, exclusão e racismo podem até fazer parte da nossa história, porém, neste caso, o passado não determina o futuro como mostra um pequeno trecho dessa narrativa…

Certa vez, uma mãe disse para a sua filha: “Você não precisa ter medo das pessoas, você precisa saber respeitá-las; portanto, pode dizer tudo o que você quiser, desde que saiba como falar.” Sua filha, por sua vez, aprende uma lição até então não ensinada nos bancos escolares dos colégios públicos que frequentou quando criança e adolescente. Sua filha aprendeu a se posicionar, a reconhecer os seus limites, a potencializar as suas qualidades, a se autovalorizar, a enfrentar os seus medos e a encarar os desafios de frente, a não desistir de seus sonhos. Hoje, essa filha mulher tem uma linda trajetória profissional de sucesso que começou há 21 anos quando ingressou no mercado de trabalho como estagiária. Anos depois, ela literalmente decolou em sua carreira e foi para o exterior atuando como gestora responsável por um departamento da maior empresa aérea da América do Sul.

Ou seja, para essa mãe negra que um dia foi empregada doméstica e trabalhadora da indústria metalúrgica, CONSCIÊNCIA COM ATITUDE NÃO TEM COR. Mesmo não tendo a oportunidade de frequentar as melhores escolas e não possuir formação universitária que é tão requerida atualmente, ela tem a mais brilhante das competências – a sabedoria, que a fez compartilhar seus valores de educação e cultura com sua única filha que “segue a cartilha”.

Essa filha é a autora deste artigo, a qual por meio deste texto faz um convite à reflexão coletiva, já que ações que envolvam respeito, empatia, generosidade, humildade, preservação de valores, mente aberta para mudanças e pluralidade cultural, assim como o desenvolvimento de tantas outras habilidades, competências e atitudes positivas certamente não são definidas pela cor da pele. Em outras palavras, por mais que haja campanhas de conscientização sobre os preconceitos, a verdade é que atitude e oportunidade andam juntas.

*Daniela Gonçalves, especialista em treinamento e desenvolvimento e professora da Estácio São Paulo

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