Consagração da Rússia e Ucrânia, por quê?

Consagração da Rússia e Ucrânia, por quê?

Dom Pedro Carlos Cipollini*

12 de abril de 2022 | 06h00

Dom Pedro Carlos Cipollini. FOTO: DIVULGAÇÃO

Alguém disse que os buracos negros, estudados pela Física, fornecem perspectiva da nossa insignificância. O filósofo Blaise Pascal, inventor da máquina de calcular, observa que a principal doença do homem é a curiosidade inquieta das coisas que ele não pode conhecer.  No entanto, sabemos que o ponto alto da inteligência humana é saber que não se consegue saber tudo, há limites. Não só a constatação da nossa incapacidade de conhecer o Universo da matéria nos interpela, mas também a percepção do mistério de um mundo invisível, real e espiritual. E aqui me vem à mente a frase mil vezes repetida de Saint-Exupéry: “O essencial é invisível aos olhos”.

Ao vermos pela televisão a imensidade da destruição que a guerra entre a Rússia e a Ucrânia provoca, mais facilmente avaliamos os danos materiais. Nesta loucura da guerra, porém, há um imenso dano invisível, um imenso dano espiritual que vai secando a seiva da árvore da humanidade. Com todo respeito aos que não acreditam, o ser humano tem uma “alma” de valor infinito, uma consciência que jamais morrerá, e que adentra a eternidade, quando passa pela porta da morte. A alma é a causa eficiente e o princípio organizador do corpo vivo, afirmou Aristóteles.

Tudo isto reflito porque é muito normal pensarmos a guerra em termos econômicos ou perdas materiais. Raramente pensamos a partir do mistério que nos envolve por dentro e por fora de nossa existência. Não me refiro somente ao mundo dos sentimentos, já que o coração tem razões que a própria razão desconhece. Refiro-me ao mundo interior, mundo do mistério que habita em nós e que na Sagrada Escritura, nos Evangelhos, Jesus chama de “Pai”. Um Deus Pai criador que não abandona a sua criação, embora não seja escravo das leis da mesma, que ele criou, pelo que podemos sim falar em milagre. Por outro lado, Deus respeita nossa liberdade.

A partir do reconhecimento da existência do Mistério, da Revelação de Deus aos seres humanos que Ele criou por amor, e redimiu através de Jesus Cristo, seu Filho feito homem, é que podemos falar em “consagração”. O Papa Francisco convidou as pessoas de fé e as pessoas de boa vontade a se unirem a ele na consagração da Rússia e Ucrânia a Deus pelas mãos de Nossa Senhora de Fátima, a mãe de Jesus, Filho de Deus. Assim ele coloca na frente da humanidade suplicante pelo fim da guerra, a Maria de Nazaré, que aceitou colaborar com Deus na história da salvação. Ela aceitou a missão de ser mãe de Jesus, o redentor, e por isso também mãe dos redimidos. Foi a primeira que acreditou, sendo fiel até o fim. O evento de Fátima recorda-nos a primazia de Deus, em um mundo que aos poucos vai se esquecendo Dele. Dizer primazia de Deus quer dizer primazia do ser humano também, criado à sua imagem e semelhança. Sem Deus o homem não se explica, se complica.

Consagrar a Deus estas duas nações, através do Imaculado Coração de Maria, é olhar esta guerra num nível mais alto, profundo e misterioso. O mundo do transcendente, mundo espiritual, esta “eletricidade” que ninguém vê, mas nos envolve o tempo todo e nos ilumina a partir de dentro. Esta consagração é um chamado a ver este conflito por outro ângulo, o das coisas que valem a pena, daquilo que permanece. E o que permanece é o que pertence a Deus, tudo o mais está fadado a desfazer-se em nada. Pertencer é o significado de consagração. De fato, consagrar significa “separar para”, tornar sagrado, e no caso aqui, tem o sentido de reservar para Deus. Fazer voltar a ser de Deus o que o homem lhe rouba espalhando a morte.

E o que é de Deus, o que pertence a Ele? A vida, a paz, a fraternidade universal, a civilização do amor. Tudo isto não só é plano de Deus, Reino de Deus como diz a Bíblia, mas é aspiração mais profunda do ser humano, quando não está embebedado pela busca do poder, ganância e vaidade.

O pedido do Papa Francisco, ao consagrar a Ucrânia e a Rússia à intercessão da Mãe de Jesus é chamar à consciência de que o verdadeiro poder é o poder de Deus que se difunde pelo amor que gera vida, e não pela violência que gera morte. E Maria por ter aceito a missão de mãe do Filho de Deus, pode agir para que Ele seja acolhido como salvador, pois “Ele é a nossa Paz”, diz o apóstolo São Paulo. O mundo espiritual pode assim intervir na realidade da história, colaborando com a humanidade para ajudá-la na sua realização.

Esta consagração é uma chamada a respeitar a ordem estabelecida por Deus e impressa na consciência de cada pessoa. Consciência de que, com a guerra todos perdem e se perdem, com a paz todos ganham e se salvam. A reconstrução material depois de uma guerra é relativamente rápida. A reconstrução moral e espiritual demora gerações para acontecer, dado que, com a guerra há uma degradação profunda que atinge o espiritual. E aqui cabe a pergunta de Jesus: “O que adianta ganhar o mundo inteiro e perder a sua alma?” (Mt 16,26).

E é justamente a força interior de cada um e de cada povo, é a força espiritual que pode proporcionar a esperança, capaz de fazer renascer a vida onde foi espalhada a morte. Consagrar é acreditar na força das sementes do bem, espalhadas no coração do homem, sementes que passando pela morte, ao morrerem, fazem brotar a vida.

*Dom Pedro Carlos Cipollini, bispo de Santo André – SP

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