Conhecer e fazer história

Conhecer e fazer história

José Renato Nalini*

05 de dezembro de 2020 | 10h00

José Renato Nalini. FOTO: DANIEL TEIXEIRA/ESTADÃO

A História é mestra e ensina para uma legião heterogênea de aprendizes. Alguns assimilam suas lições. São poucos, até raros. A maior parte da humanidade passa pela História sem saber o que ela é. Sem aprender com ela.

Em Platão se contempla a história como investigação dos fatos, apresentados de modo genético, ao lado da investigação das causas desses fatos. Há certa identificação entre ambas as investigações.

Aristóteles, na “História dos Animais”, oferece uma coletânea de fatos e documentos. Nesse sentido a palavra “História” subsistirá até o século XVIII.

Em Francis Bacon, as “histórias” de todas as espécies de coisas. Com a vinculação da história à memória, em oposição à filosofia e às ciências, ou, em última análise, à razão. A História é o fundamento da filosofia e das ciências, que nada mais constituem do que a reflexão teórica sobre tais coletâneas transmitidas pela memória. História adquire aqui uma concepção empirista e puramente passiva: nada mais do que a investigação e o achado formam corpo único.

Para D’Alembert, a integralidade de nossos conhecimentos se baseia na memória, uma “coleção maquinal e puramente passiva de todos os conhecimentos”. A memória é a primeira das faculdades. A segunda é a imaginação. A terceira é a razão.

Passa-se a qualificar a História: ela é divina, uma coleção de fatos revelados, ela é a pesquisa empírica sobre os fatos pertinentes ao ser humano e ela também inclui a natureza. Mas todas elas versam sobre fatos, não sobre essências. Mera acumulação passiva sem pesquisa científica.

Já no século XVII, Buffon observa: “no homem, a memória emana do poder de refletir”. É na memória que ocorre a transformação. Distinguem-se os humanos dos demais animais, porque o homem consegue introduzir uma dimensão temporal da qual o animal não tem qualquer noção. Para o animal irracional, passado e futuro não fazem sentido, porque eles só têm sensações.

A faculdade de inserir temporalidade na memória histórica deveria fazer da humanidade uma entidade em constante evolução. Aprender com os erros pretéritos, evitá-los no presente, preveni-los no porvir.

Não é o que ocorre. O momento presente é o atestado eloquente de que involução é algo mais do que possível. É provável.

A massa iletrada é conduzida facilmente pelos algoritmos que a manipulam, fazendo com que simpatias instintivas se robusteçam e se tornem blindagem resistente a tudo o que seja diferente. O problema epistemológico de nossos dias não é apenas o confronto entre a história escrita e a história real, porque a história fabricada em inúmeras versões confunde até as mentes esclarecidas.

No afã de intensificar opções passionais que se afastam do ideal de tolerância, respeito à diversidade, convívio harmônico e observância do capítulo mínimo exigível a um grau civilizatório compatível com o avanço da ciência no Século 21, parcela a mais atuante da sociedade mostra desconhecer a história. Atropela conquistas, retrocede à barbárie, comporta-se de maneira selvagem, no pior sentido desse verbete. Não se esqueça que, para Jean-Jacques Rousseau, o homem era o “bom selvagem”.

Evidências de irracionalidade conduzem a uma conclusão melancólica: o animal racional, a primícias entre as criaturas, aproxima-se do seu irmão animal irracional. Para este, não existe história.

O resultado é a construção de uma história triste. História de exclusão, de retrocesso na universalização dos direitos humanos, cuja amplitude contribui também para torná-los triviais e pouco respeitados.

Educação plena e consistente, algo que só existe no discurso, reverteria a nefasta tendência rumo ao total desconhecimento da História, que só existiria na luta de classes. Condenação da humanidade à reiteração de erros passados, agora agravados com a inclemência com que a natureza tem sido tratada por este inquilino infiel e criminoso que é o ser humano.

Quem saberá conduzir esta população errante e errática, cuja alternativa ao caos é a recuperação da essência do homem?

O deserto de lideranças faz com que os habitantes do planeta se aproximem, ao menos metaforicamente, de uma coletividade liliputiana, em que a mesquinhez das ideias rivaliza com a arrogância das pretensões.

Sem conhecer a História, a humanidade faz uma história em marcha-a-ré, triste, descolorida e sem final feliz.

*José Renato Nalini é reitor da Uniregistral, docente da pós-graduação da Uninove e presidente da Academia Paulista de Letras – 2019-2020

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