Conexão com o propósito da empresa: como deixar essa chama acesa?

Conexão com o propósito da empresa: como deixar essa chama acesa?

Alfredo Pinto*

15 de novembro de 2020 | 04h30

Alfredo Pinto. FOTO: DIVULGAÇÃO

Poucas vezes na história, empresas e organizações foram colocados à prova por uma série de crises contínuas e que, infelizmente, parecem ser intermináveis. A ameaça à saúde das pessoas pela pandemia de Covid-19 chegou acompanhada de uma forte crise econômica, dos episódios de racismos em diversas partes do mundo e de incidentes que tornam ainda mais desafiadores as questões envolvendo a mitigação dos efeitos das mudanças climáticas.

Como manter as operações saudáveis e ainda dar esperança a seus funcionários, clientes e sociedade como um todo? O “copo meio cheio” da crise indica que as empresas reagiram melhor à pandemia do que se poderia esperar.

No âmbito dos negócios, mostraram resiliência e souberam se adaptar rapidamente. Caminharam em direção à necessária e urgente digitalização, avançando em meses o que não haviam conseguido fazer em alguns anos. Também se livraram das amarras organizacionais e adotaram o método ágil, fundamental para períodos como o que estamos vivendo.

Como resultado, obtiveram algo tão valioso quanto a fidelização dos clientes: o orgulho de seus colaboradores. Em uma pesquisa da Bain & Company com quase 1.000 funcionários globais de empresas de todos os tamanhos realizada durante os primeiros meses da crise, 75% dos funcionários disseram que estão orgulhosos da forma como sua empresa os apoiou e a seus clientes durante a pandemia, e 64% relataram sentir orgulho da maneira como sua organização apoiou a comunidade em geral.

A Covid-19 trouxe aos funcionários uma conexão extraordinária com o propósito corporativo. Na maioria das empresas, eles se reuniram naturalmente em torno de um objetivo comum, que deu sentido ao seu trabalho durante esses tempos difíceis. Entre os funcionários cuja satisfação com a empresa aumentou durante a pandemia, 86% disseram que seu empregador tem um propósito que considera significativo.

A verdade é que quase por acidente, as empresas redescobriram o poder de se unir para um propósito. Agora eles têm a oportunidade de repensar o que querem ser nos próximos 50 anos. Têm uma chance de reacender seu propósito. Isso é verdade tanto para organizações que ainda estão no centro desta tempestade e em busca de sua Estrela Polar com um propósito de união, quanto para organizações que já superaram o pior das crises e que agora procuram aproveitar ao máximo esse momento.

Por que, afinal, é tão importante ter um propósito alinhado ao de seus colaboradores? De acordo com meus sócios e colegas Michael Mankins e Eric Garton, autores do Livro Tempo, Talento e Energia, um funcionário engajado com a empresa onde trabalha consegue ser 44% mais produtivo do que um empregado somente satisfeito. Um funcionário inspirado, entretanto, chega a ser 125% mais produtivo que o último. Por isso, as empresas que mais inspiram seus funcionários são as que possuem melhor desempenho.

E como definimos esse propósito? Uma delas é como a razão de uma empresa existir, ou seja, aquilo que dá sentido ao trabalho diário dos funcionários. O propósito também é uma noção de longo prazo. O que você deseja representar ao longo do próximo meio século. O propósito também deve apoiar a visão e a estratégia do CEO.

Redefinindo seu propósito e focando nele, as empresas estão mais bem equipadas para prosperar em um mundo em constante mudança. Um enfoque correto no propósito, como o compromisso com a sustentabilidade, por exemplo, pode ajudar uma empresa a atrair talentos-chave, gerar a confiança do consumidor e obter acesso a recursos importantes, como cadeias de suprimentos sustentáveis.

Ao longo de um processo de definição de propósito, as organizações devem atender a questões mais amplas, respondendo a demandas não apenas de acionistas, mas também de clientes (que cada vez mais exigem produtos que reflitam seus valores), funcionários – que desejam que seu trabalho tenha significado -, seu ecossistema de parceiros de negócios e a própria sociedade, num momento em que lutamos com as crescentes preocupações ambientais e desafios sociais.

Hoje, as empresas normalmente se enquadram em três categorias: O primeiro grupo ainda não começou a pensar sobre seu propósito. O segundo começou a refletir, mas ainda não agiu. O terceiro formulou uma declaração forte e está tentando colocá-la em prática.

As organizações que ainda não começaram a pensar nisso podem começar seguindo estas etapas:

  • Estude o que a organização aprendeu sobre si mesma durante as crises atuais. O que uniu os funcionários, os deixou orgulhosos de sua organização e aprofundou seu engajamento?
  • Capture esse propósito redescoberto. As empresas podem formular sua declaração de propósito de uma forma que englobe o que a empresa, seus funcionários, seus clientes e sua comunidade em geral desejam apoiar e alcançar nos próximos anos.
  • Comunique a nova declaração de propósito em toda a empresa de uma forma que envolva a mente e o coração dos funcionários.
  • Adapte-o de forma que atenda à realidade do negócio, incluindo os processos da empresa e suas oportunidades de capacitação dos colaboradores.

Um objetivo corporativo eficaz afeta a forma como a empresa gera valor financeiro e também como a organização é percebida no mercado. Ele está claramente vinculado à estratégia de negócios, levando em consideração as decisões críticas e a alocação de recursos. Também influencia a cultura da empresa, incluindo a forma como as pessoas trabalham e se comportam, inspirando a organização de uma forma que libera energia e criatividade discricionárias. Finalmente, culmina em ações concretas.

Como diversas empresas ao redor do mundo estão descobrindo, focar no propósito dá esperança aos funcionários em um cenário incerto. Clientes e comunidades exigiam que as empresas fizessem a coisa certa antes mesmo de nos encontrarmos em meio a uma crise global de saúde. Suas preocupações continuarão crescendo. Revitalizar o propósito de uma organização é se preparar para o futuro, investindo agora para colher os benefícios que virão depois e vão muito além dos ganhos financeiros.

*Alfredo Pinto é Office Head da Bain & Company para a América do Sul

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