Conclamação aos advogados

Conclamação aos advogados

Antonio Cláudio Mariz de Oliveira*

23 de junho de 2021 | 13h35

Antonio Cláudio Mariz de Oliveira. FOTO: ARQUIVO PESSOAL

Não estivéssemos em estado de luto, consternação e profunda tristeza pelas quinhentos mil mortes, teríamos motivo de efusiva comemoração, pois sábado assistimos à uma festa cívica, como poucas já ocorreram nesses país, que nos deu alento e esperança.

Estive na Avenida Paulista com minha mulher, uma das filhas e minha neta mais velha. Estávamos os quatro de mãos dadas. Esse elo simbólico unia milhares de homens e mulheres, algumas crianças, sem distinção de raça, cor, origem social, ideologias, partidos políticos, ou preferências clubísticas (inúmeros são-paulinos, para minha alegria).

Todos estavam unidos por um único objetivo: mostrar uma insatisfação incontida com o atual governo federal, e com o seu representante máximo, o presidente da República. Como decorrência, externou-se também o veemente desejo de tê-lo fora do poder.

Não houve manifestações de violência e nem se fez apologia da violência para tirá-lo do poder. Mostrou-se apenas e tão somente um ardente sentimento de mudança, consistente na sua retirada do Planalto.

Pouco importa o meio de sua substituição. Declaração do seu impedimento ou a sua renúncia.  A ausência de aptidão política e administrativa de um lado e a falta absoluta de equilíbrio emocional e psicológico de outro, demonstrados durante os dois anos e meio de desgoverno, dão respaldo a esse objetivo.

Acrescente-se uma outra sua particularidade, que denota uma cruel desumanidade : ele é absolutamente insensível à morte. Como decorrência natural, pode-se afirmar o seu desapreço pela vida alheia. Quem não se comove com a morte não preza a vida.

Alguém disse que “não deixam o presidente governar”. Quem não deixa? Não há um brasileiro, um sequer, que não gostaria de ter o país, ao menos governado.  Com erros e com acertos, mas governado, orientado, posto nos trilhos, na tentativa do encaminhamento das várias questões que nos afligem. A frustração é que nada é planejado, nada é realizado, nada é sequer almejado. Presenciamos, apenas, o discurso tosco de uma retórica intolerante e odienta e a instigação ao confronto social e institucional.

Hoje se sabe que o presidente não governa nem a si, então como se pretender que ele governe uma Nação?

É irremediável, imutável o seu modo de agir e de ser. É “imexível”, inalterável a sua inércia. Ele não mais nos espanta e nem se tem esperança de melhoras.

Mas, e quem o apoia? Muitos se arrependeram. Aplausos para esses. Apelos veementes para os que persistem na cegueira. A esses, eu recomendo que leiam Saramago, pois sempre há como ver e enxergar.

Quero fazer um apelo aos meus colegas advogados, aos poucos advogados que ainda não assumiram a realidade. Peço que apenas imaginem a possibilidade do Brasil, além desse ano e meio faltante, não resistir a mais quatro anos. Quatro anos que serão caóticos, com riscos reais de sucumbirmos como Nação e sociedade livres.

Por fim, quero cumprimentar a todos os advogados e advogadas que estiveram na última manifestação. O faço nas pessoas de dois deles, Alberto Zacarias Toron e Marco Aurélio Carvalho. Conclamo a todos os advogados para que formemos um bloco monolítico de resistência tal como já fizemos em várias oportunidades na história pátria, como porta vozes dos anseios e das aspirações da sociedade brasileira, de construir um país melhor.

*Antonio Cláudio Mariz de Oliveira, advogado

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