Conar arquiva processo contra rede de lojas por ‘Se sua mãe ficar sem presente, a culpa não é da Marisa’

Conar arquiva processo contra rede de lojas por ‘Se sua mãe ficar sem presente, a culpa não é da Marisa’

A ação no Conselho de Ética do colegiado de autorregulação de propaganda era embasada nas reclamações de 18 consumidores, que viram na peça desrespeito à ex-primeira-dama, Marisa Letícia, falecida em fevereiro

Luiz Vassallo e Fausto Macedo

05 Agosto 2017 | 13h54

O Conselho Nacional de Autorregulamentação Publicitária arquivou, no dia 26 de julho, processo contra a rede de lojas de roupas femininas Marisa pela propaganda divulgada às vésperas do Dia das Mães que ironizava as declarações do ex-presidente Luiz Lula Inácio Lula da Silva, ao juiz federal Sérgio Moro, no âmbito de processo em que respondia por propinas de R$ 3,7 milhões da OAS, sobre o suposto interesse da ex-primeira-dama Marisa Letícia, falecida em fevereiro deste ano, na aquisição do tríplex no condomínio Solaris – imóvel pivô da condenação do petista a 9 anos e 6 meses de prisão na Lava Jato por ser considerado pelo magistrado como parte de vantagens indevidas oferecidas ao petista pela construtora. O processo contra a rede de lojas de departamento era embasado nas reclamações de 18 consumidores.

A rede publicou, no dia 12 de maio, dois dias depois das declarações de Lula a Moro, e um dia antes do Dia das Mães, a propaganda, via redes sociais, com os dizeres: ‘Se sua mãe ficar sem presente, a culpa não é da Marisa’.

Segundo o Conar, 18 consumidores enviaram e-mails classificando a propaganda como ‘desrespeitosa’ ‘ao remeter à D. Marisa Letícia, esposa recentemente falecida do ex-presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva’.

Foto: Reprodução / Facebook

De acordo com o colegiado, ‘os consumidores se referem, além do gosto duvidoso, ao desrespeito e uso de trocadilho de conotação política, em alusão ao então recente depoimento prestado em Juízo pelo ex-presidente da República, o que infringiria os valores sociais e princípios no Código Brasileiro de Autorregulamentação Publicitária’.

Os advogados Marcelo Domingues Pereira e Carlos Augusto Faletti, que defendem a rede de lojas de departamento, sustentaram que o ‘texto não traz nada de desrespeitoso a quem quer que seja, não acentua diferenciações sociais decorrentes de maior ou menor poder aquisitivo, encontra-se em consonância com os objetivos do desenvolvimento econômico e está calcado na cultura nacional’.

Nos autos, os defensores ainda argumentaram que ‘o anúncio em questão também não visava responsabilizar os filhos que eventualmente deixaram de presentear, mas sim reforçar laços de empatia com a mãe’.

Lula. FOTO: ANDRE DUSEK/ESTADAO

O relator do caso no CONAR, Jorge Tarquini, considerou que ‘querer desvincular totalmente a publicidade da Lojas Marisa do momento político atual é subestimar tanto a criatividade dos que a produziram quanto a inteligência do público’, mas, por outro lado, entendeu que o material ‘de forma alguma denigre a imagem ou a intimidade da personagem Dona Marisa Letícia’.

O relator ainda ressaltou que ‘é sabido que a publicidade de oportunidade sempre fez parte do repertório nacional, não poupando celebridades, esportistas e políticos’.

“Todas essas campanhas, e tantas outras, fazem parte da tradição da publicidade brasileira, que atenta a temas pontuais, criou em sua história incontáveis campanhas de oportunidade em que se busca, claramente, alavancar a mensagem ao apoiar-se em fatos de repercussão – inclusive fatos políticos. E julgar se são de bom gosto ou não não cabe a este fórum, por tratar-se de análise individual”, avaliou.

O voto foi acompanhado por unanimidade pelos outros integrantes do Conselho de Ética do CONAR.