Compreender e ser compreendido

Compreender e ser compreendido

Marie Bendelac Ururahy*

13 de junho de 2021 | 08h00

Marie Bendelac Ururahy. FOTO: DIVULGAÇÃO

No mundo moderno, as formas de se comunicar e de interpretar informações precisam ser repensadas urgentemente. Existem diferentes maneiras de falar, de agir e de escrever – e todas se distinguem por serem ou não conscientes e respeitosas. A busca pelo entendimento é cada vez mais difícil em uma sociedade regida por condutas agressivas, que muitas vezes separam amigos, parentes e colegas de trabalho. Empatia é palavra-chave para conviver em ambientes mais harmoniosos.

Neste cenário, ganha importância a Comunicação Não-Violenta (CNV), uma ponte que une as pessoas através da cultura do diálogo e da escuta empática. Ensinada em mais de 120 países, a CNV trata de relembrar os caminhos que nos conectam com a vida. No Brasil e no mundo, vem revolucionando as formas de relacionamento e desperta atenção cada vez maior, tanto em relação à utilidade individual quanto nos ambientes corporativos e institucionais, como escolas, empresas e repartições públicas. Ou seja, para a sociedade como um todo.

A CNV pode ser especialmente útil na prevenção e no combate aos casos de assédio e abusos contra as mulheres. Mesmo com os avanços conquistados nos últimos anos, a mulher é ainda hoje o principal alvo de assédio em ambientes de trabalho. Seja qual for o porte da empresa, o machismo continua muito enraizado nos espaços corporativos, levando a abusos os mais diversos. No entanto, condutas impróprias no ambiente de trabalho deixaram de ser um caso restrito às discussões internas. Hoje denúncias de funcionárias contra colegas e superiores, por conta de assédio e práticas abusivas, ganham repercussão em escala global.

A prisão do médico gaúcho Victor Sorrentino, acusado de assédio sexual no Egito por ridicularizar uma vendedora com palavras ofensivas, trouxe à luz um dado alarmante. Segundo a Organização Internacional do Trabalho (OIT), 52% das mulheres já sofreram assédio sexual, moral ou psicológico no trabalho. Casos como esse são quase diários no Brasil. A maioria termina sem ao menos um pedido de desculpas do agressor.  Muitos homens veem esse tipo de assédio como uma brincadeirinha, algo inofensivo no ambiente de trabalho. Não é. A prisão do médico serve de alerta. É preciso uma mudança de cultura que traga uma conscientização sobre atitudes impróprias e abusivas.

A CNV faz toda a diferença na prevenção e na solução desse tipo de situação. Ela auxilia as pessoas a sair do modo automático, ter comportamentos e atitudes mais conscientes, para lidar com o outro, com o diferente e com as diferenças de forma respeitosa. É crucial para trazer níveis de consciência a quem pratica o assédio – seja intencional ou não – e colocar fim a esta prática. Ao mesmo tempo, ajuda as vítimas a colocar limites e sair desta situação através de uma comunicação assertiva. Sem agressão nem submissão.

Desenvolvida a partir dos anos 1960 pelo psicólogo americano Marshall Rosenberg, a CNV ensina a lidar com a complexidade e com a diversidade humana. É um fator essencial para resolver conflitos de forma construtiva e ter relacionamentos harmoniosos. Ela ajuda a fortalecer o diálogo e aprimorar as relações pessoais e profissionais.

Na gigante de tecnologia Microsoft, um dos primeiros atos de Satya Nadella depois de se tornar CEO, em 2014, foi pedir aos executivos da empresa que lessem o livro “Comunicação Não-Violenta”, de Marshall Rosenberg. O gesto sinalizou uma mudança de rumos no comando da empresa. Durante décadas, a Microsoft era dominada pelo espírito beligerante de seus executivos, que se envolviam em brigas de poder e disputas corporativas. Nadella interrompeu este ciclo.

O foco no espírito colaborativo, apoiado em conceitos da CNV, abriu caminho para um novo cenário. A empresa transformou não apenas sua estratégia de negócios, mas também a cultura interna, com base em valores como confiança e empatia. A mudança de postura criou mais de U$ 250 bilhões de dólares em valor de mercado para a Microsoft. Ao completar seis anos no comando da empresa, o retorno total gerado para os acionistas passou de US$ 1 trilhão. O exemplo da Microsoft mostra como a mudança de cultura faz a diferença nas empresas.

Desenvolver a capacidade de influenciar, mas sem manipular. O modo autoritário de gerenciar pessoas está com os dias contados. Ele não tem a menor chance de promover engajamento. Hoje, até 75% da força de trabalho reside nas novas gerações, formadas em sua maioria por millenials. Esses jovens são movidos pela força do propósito, precisam ver sentido no que fazem. Querem espaço para que suas ideias sejam ouvidas e aproveitadas. Cultivam ideais de autonomia e propósito. Caso contrário, não permanecem nas empresas.

As empresas já perceberam o seu potencial. Na década de 1960, Rosenberg trabalhava como orientador educacional em escolas e universidades dos Estados Unidos que aboliram a segregação racial. Em meio às tensões geradas do período, ele conduzia um processo de transição pacífica, por meio de arbitragem e treinamento em técnicas comunicativas.

Ao mesmo tempo em que abre caminho para o entendimento, a CNV ajuda a vítima a impor limites. Nas palavras de Rosenberg, “ela começa por assumir que somos todos compassivos por natureza e que estratégias violentas – se verbais ou físicas – são aprendidas, ensinadas e apoiadas pela cultura dominante”. Ou seja, em um ambiente que estimule a competitividade, a dominação e a agressividade, tendemos a nos comportar violentamente. Em ambientes acolhedores e cooperativos, as pessoas tendem a agir com generosidade e respeito.

A emoção que leva uma pessoa a gritar, geralmente é a raiva. Pode ser também o desespero. Por trás de um grito, de uma explosão, há necessidades frustradas, não atendidas. Seja de respeito, consideração, igualdade, justiça, honestidade, autonomia, liberdade, sustento ou segurança. São valores que importam muito e podem deixar qualquer um engatilhado.

Segundo Marshall Rosenberg,, “a violência é a expressão trágica de necessidades não atendidas”. As pessoas gritam porque não sabem mais como se fazer ouvir, compreender e respeitar. Existem também pessoas que gritam como forma de dominar, intimidar, ter a última palavra e obter o que querem. Nesse caso, trata-se de uma “briga de poder” e de uma forma de manipulação. Espera-se que o outro fique calado e submisso.

Ter a consciência desses dois aspectos ajuda a desarmar conflitos e evita diversas formas de manipulação. Quando o outro está gritando de frustração, raiva ou desespero, é preciso tentar compreendê-lo e enxergar quais necessidades não estão atendidas, através da empatia e de perguntas abertas e genuínas. Isso costuma desarmar qualquer pessoa.

Ao perceber que o outro está gritando como forma de dominação e manipulação, é preciso impor respeito e não hesitar em subir o tom de voz se necessário, sem ofender a pessoa. Evitar julgamentos, críticas, acusações, comparações e outros padrões de comunicação que alimentam a violência e não ajudam a resolver os conflitos. CNV não tem a ver com submissão nem passividade. Muito pelo contrário.

Aplicar os conceitos da CNV nas nossas relações ajuda a ter diálogos construtivos, desarmar ou resolver conflitos sem se anular. Aprendemos a nos expressar de maneira consciente, clara, objetiva e assertiva – ou seja, nem submissa, nem agressiva. Esses conceitos são fundamentais para compreender nossos interlocutores, ser compreendido e ter relacionamentos pessoais e profissionais saudáveis e duradouros.

Esse é o caminho para facilitar relações, melhorar o ambiente de trabalho e incentivar a construção de ideias e negócios. Ao fim do processo, ganham a saúde, o emocional e o capital.

*Marie Bendelac Ururahy é especialista em CNV e empatia, criadora do Método Conecta

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