Comportamentos compulsórios: uma análise sobre o rompimento de padrões estruturais

Comportamentos compulsórios: uma análise sobre o rompimento de padrões estruturais

Mayara Martins*

01 de agosto de 2021 | 10h00

Mayara Martins. FOTO: ARQUIVO PESSOAL

Controle de corpos femininos, política social de dominação e machismo estrutural. Algumas das ferramentas que fundamentaram a implementação dos comportamentos compulsórios na sociedade. Antes de mergulharmos no assunto, entretanto, é preciso esclarecer que o conceito de “compulsório”, analisado sob uma perspectiva social, e com enfoque no que diz respeito às relações humanas, refere-se a comportamentos nos quais o indivíduo foi condicionado a uma determinada escolha, sem que haja um processo prévio de conscientização.

Na prática, o termo compulsório pode aplicar-se a: maternidade, sexualidade, modelo de relação, entre outros. O resultado de uma maternidade compulsória, por exemplo? O encontro inevitável com o vazio constante trazido pelo “maternar por obrigação”. O resultado da monogamia compulsória? Desonestidade interna e externa, combinada com uma profunda opressão de impulsos, visando o cumprimento de requisitos básicos do único modelo de relação validado socialmente: a monogamia tradicional.

O compulsório na prática: as consequências da romantização do “maternar”

O que você entende por “maternidade” enquanto escolha? O maternar está alinhado com os seus objetivos de vida? A vida que você ama permite a existência e o desenvolvimento saudável de uma criança? Você compreende, em tese, o compromisso de orientar a formação intelectual e emocional de um indivíduo ainda incapaz e exaustão que esse processo gera? Se você é mulher, não me espanta que nunca tenham lhe feito nenhuma dessas perguntas. A figura feminina é socialmente construída para gerar, não para analisar se quer ou não gerar.

A maternidade é apresentada a mulher como o destino certo da vida. O único caminho no qual ela conhecerá o amor verdadeiro. O resultado deste processo de romantização? A construção de um ideal no qual a vida feminina ganhará um “sentido mágico” após parir. De fato, em muitos casos isso pode acontecer, mas, e quando não acontece? Quem acolhe essas mulheres que estão fadadas a exercer o maternar por obrigação por terem sido vítimas de um sistema compulsório e opressor? Os julgamentos estão por toda a parte, enquanto, as iniciativas de apoio e acolhimento, não.

O compulsório na prática: a validação única do sistema monogâmico e a banalização dos demais

Você já estudou sobre monogamia? Já questionou a presença de sentimentos como: insegurança, posse e apego na sua relação? Já ouviu, com a mente e o coração aberto as variáveis da relação livre? É importante entender que a monogamia, quando feita como escolha consciente e ressignificada, não é uma vilã e muito menos está errada. No entanto, é inegável que a falta de conhecimento e processamento interno sobre outras formas de se relacionar, aprisiona diariamente casais no “looping” do comportamento compulsório.

Relações livres sim. Estas são vistas e apontadas pela maior parte da sociedade como vilãs. “Desculpa para trair”. “Coisa de quem não ama”. “Modernidade demais para mim”. Alguns dos dizeres populares mais comuns acerca do tema. Agora, será que alguma das pessoas que aponta o dedo para esse modelo já dedicou algum tempo ao estudo e debate sobre o assunto? Engana-se quem acredita que relações livres não possuem regras. Elas possuem muitas vezes até mais do que as monogâmicas. A diferença? A meu ver, a liberdade de sentir, experimentar e, principalmente, verbalizar vontades para o seu companheiro (a), sem culpa ou medo da recriminação. Esse acolhimento de vontades que são constantemente oprimidas até “desaparecem instantaneamente”, no sistema monogâmico, é o que classifica as relações como “livres” e não necessariamente “abertas”.

A grosso modo, o comportamento compulsório reprime o genuíno. Anula a individualidade dos seres em prol da validação de um único sistema estrutural que agrupe todos os indivíduos. O agrupamento anula a individualidade humana. A anulação da individualidade, configura padrões. A configuração de padrões facilita a manipulação. E a  manipulação exerce a alienação, que resulta no controle de massa.

*Mayara Martins é jornalista e escritora. Graduou-se em jornalismo pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, em 2017, e é autora do livro Não Somos Silêncio, que retrata casos de violência física, verbal e sexual contra a mulher

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