Comportamento do IPCA e sua relação com a inflação

Marcos Antonio de Andrade*

29 de outubro de 2020 | 14h00

O Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), que tem por objetivo apresentar indicadores da inflação oficial no mercado brasileiro, acompanha a variação da cesta de produtos e serviços para famílias com renda de 1 a 40 salário-mínimo em diversas regiões metropolitanas brasileiras.

Na mais recente pesquisa divulgada na terceira semana de outubro de 2020, esse indicador apresentou aumento significativo em segmentos importantes como alimentação e bebidas, segundo o IBGE.

O registro desses aumentos preocupa, e muito, porque ambos representam aproximadamente um quarto do orçamento das famílias brasileiras. Os produtos que mais contribuíram para essa aceleração foram: carnes (+4,83%), que registrou aumento pelo quinto mês consecutivo, óleo de soja (+22,34%), arroz (+18,48%), tomate (+14,25%) e leite longa vida (+ 4,26%).

Apesar da importância e peso significativo desses aumentos, a preocupação no momento é identificar quais as razões que motivam esses registros, classificados como desproporcionais, devido a situação atual de mercado. Isto porque, os indicadores de demanda da economia sinalizam cenário de recessão e não de aceleração da economia para o exercício de 2020.

Neste momento, acreditamos que é importante observar com mais propriedade determinados movimentos que estão acontecendo no comportamento de consumo das famílias brasileiras. Não é absurdo considerar que o aumento desproporcional de preços, principalmente nos alimentos e bebidas, possa ser classificado como sazonal, ou seja, movimentos temporais como prazo determinado de duração.

Para reforçar essa teoria seguem dois exemplos:

– Preocupação com uma eventual escassez de determinados produtos, faz com que haja uma procura acentuada por alimentos e bebidas;

– Auxílio emergencial, disponibilizado pelo governo, possibilita manutenção de consumo e até mesmo realização de estoque de alimentos devido ao futuro incerto.

Essas duas variáveis podem justificar parte das distorções registradas nos aumentos dos preços, principalmente alimentos e bebidas. Isto porque, até o momento, os indicadores da economia brasileira não apresentam sinais efetivos de recuperação, além de proporcionar incertezas em relação ao mercado de trabalho e alternativas de geração de renda para as famílias brasileiras.

No entanto, essa alta desproporcional mesmo que classificada como sazonal, representa efetiva preocupação com os indicadores que sinalizam aumento de inflação. Isto porque, o que menos se deseja no cenário atual é um descontrole inflacionário, que deve acarretar aumento desproporcional na taxa de juros e efetivo cenário de incertezas quanto ao futuro do mercado brasileiro.

A volta de um cenário inflacionário compromete de forma significativa a retomada da atividade econômica, retorno dos investimentos e com isso, a possibilidade de geração de novos empregos e renda.

*Marcos Antônio de Andrade é professor na Universidade Presbiteriana Mackenzie na área de Ciências Sociais Aplicadas nos cursos de Administração e Comércio Internacional.

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