Comportamento das bolsas recomenda otimismo cauteloso

Comportamento das bolsas recomenda otimismo cauteloso

José Pena*

16 de junho de 2020 | 09h00

José Pena. FOTO: DIVULGAÇÃO

Primeiro foi a OCDE (Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico), que na quarta-feira (10) divulgou novas projeções para o PIB global deste e do próximo ano com dois cenários de probabilidade similar: com e sem nova(s) onda(s) de infecção da covid-19 no restante deste ano, a partir da retomada da mobilidade social e econômica das últimas semanas. No primeiro caso, a queda esperada para 2020 seria de 6%, enquanto que no segundo cenário, a contração alcançaria 7,6%. Para 2021, o organismo internacional projeta uma retomada de 5,2% no cenário base, que seria de modestos 2,8% na hipótese de novos ciclos de infecção. A OCDE deu pesos iguais aos dois cenários menos por ter efetivamente uma expectativa elevada de ocorrência de novas ondas de contágio, e mais pelo reconhecimento de que ainda pouco se sabe sobre o novo coronavírus.

Apenas poucas horas depois, o Fed (Federal Reserve System), o banco central dos EUA, manteve sua taxa básica de juros zerada (decisão largamente esperada), sinalizando que esse patamar deve vigorar até pelo menos o final de 2022. O que chamou a atenção dos mercados, porém, foi o fato de que seu presidente, Jerome Powell, se mostrou pouco impressionado com os números mais recentes do mercado de trabalho norte-americano. Vale lembrar que na semana anterior, ao contrário da expectativa de demissão de 7,5 MM de pessoas, os dados de maio mostraram a criação de 2,5 MM de novas vagas. Tal postura gerou entre os agentes de mercado a percepção de que o Fed está menos otimista que o próprio mercado quanto ao processo de retomada da atividade econômica.

Por fim, o surgimento nos últimos dias, de alguns sinais de reaceleração no número de novos casos da covid-19 e de internações em alguns importantes estados dos EUA, notadamente Texas e Flórida, despertou o temor de uma segunda onda de contágio no país como um todo.

Embora seja prematuro afirmar que estes últimos dados denotam uma tendência sustentável, o fato é que depois da expressiva alta das últimas várias semanas, houve um forte e rápido movimento de correção dos preços dos principais ativos financeiros globais, com destaque para as bolsas, que apenas nesta quinta-feira (11), exibiram perdas em torno de 6%. Esse movimento certamente pegou muitos investidores de surpresa, especialmente aqueles que entraram na onda apenas mais recentemente.

Essa queda não indica necessariamente o fim do movimento de recuperação dos ativos financeiros ou tampouco sugere que a retomada da economia global esteja ameaçada. Mas serve como um importante alerta de que o grau de incerteza que cerca esta pandemia recomenda bastante cautela com o futuro.

Domesticamente, o destaque desta última semana ficou com a divulgação do IPCA de maio, que mostrou uma deflação de 0,38%, ligeiramente menor que a queda de 0,46% estimada por nós. Os núcleos da inflação, porém, seguem mostrando valores muito abaixo do centro da meta de inflação, reflexo de uma enorme ociosidade que acaba contendo inclusive um repasse maior da desvalorização cambial para o conjunto de preços de bens e serviços que compõem o IPCA. E é em meio a esse quadro desinflacionário e às incertezas que cercam o processo de retomada da atividade global e doméstica (neste caso, ainda enfrentando uma curva de novos casos que teima em não desacelerar) que o Copom decide nesta próxima quarta-feira (17) a nova taxa Selic. Esperamos um novo corte de 0,75pp, o que traria a taxa básica para 2,25%.

*José Pena é economista-chefe da Porto Seguro Investimentos

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