Compliance: fumaça, mortes e homicídios culposos nas estradas

Compliance: fumaça, mortes e homicídios culposos nas estradas

Daniel Schnaider*

07 de agosto de 2020 | 05h45

Daniel Schnaider. Foto: Divulgação

Em casos como o que aconteceu na madrugada desta terça-feira, na BR-277, na região Metropolitana de Curitiba, em que um motorista de uma carreta se envolveu em um trágico acidente com 8 mortes e cerca de 26 feridos, prevenção e compliance se tornam mais densos que a própria fumaça da estrada. Com tantos pormenores, para quem olha de fora fica difícil encontrar o culpado. No entanto, se você trabalha em um setor de compliance e não dispõe da tecnologia a seu favor bem-vindo ao seu maior pesadelo.

Afinal, o motorista estava ou não embriagado, corria demais ou a culpa foi das queimadas ilegais ao redor das vias? Veja, se o fogo e a fumaça têm se tornado algo comum nas estradas do Paraná, as autoridades deveriam comunicar um novo limite de velocidade reduzida quando não há visibilidade. Assim deveriam ter feito as frotas. Este acidente não foi fatalidade, não foi falta de sorte. Isso é resultado de um erro sistêmico do Estado, do Município, da empresa e do motorista – que pagará pela conta junto à família das 8 vítimas.

E se você trabalha em um setor de compliance, e tem a tecnologia a seu favor, com certeza sabe que acidentes podem ser prevenidos em situações como essa. Se existe um setor que já lidava com a necessidade de monitoramento a distância mesmo antes da pandemia, e que vai muito bem obrigado, é o setor de logística. Uma área que, em essência, tem seus colaboradores na ponta trabalhando não só a distância, como também em constante deslocamento. E se a confiança faz sim parte desta receita de sucesso, o ingrediente especial é, sem dúvidas, a tecnologia. Por meio da chamada IoT (internet das coisas), uma solução que combina serviços de geolocalização com câmeras, sensores e outros dispositivos conectados ao veículo, é possível mensurar uma gama de informações em tempo real que irão garantir a conformidade às normas da empresa, tais como segurança!

As câmeras em especial fazem um excelente trabalho no monitoramento dos condutores. Enquanto um dispositivo fica acoplado virado em direção à pista, para trazer análises do comportamento do veículo, outra câmera está virada para o motorista, de modo a assegurar que ele mantenha uma postura profissional e mais proativa diante dos riscos – ou seja, naquela BR-277 a velocidade correta não era 80km/h e sim 40km/h. Essas câmeras são dotadas de uma inteligência artificial capaz de reconhecer padrões não desejados como ultrapassagem em faixa contínua, direção com celular, sem cinto, falta de respeito ao pedestre e até mesmo distância do veículo da frente.  Quando a infração é cometida, o responsável de compliance recebe a informação precisa do colaborador com o que de fato ocorreu. É uma estratégia muito interessante e mais acessível que permite registrar somente o que é necessário.

 

Por outro lado, se o acidente da madrugada de terça-feira tivesse sido causado por fadiga do motorista – a falta de atenção é uma das maiores causas de colisões nas estradas brasileiras, o gestor da frota teria sido avisado por meio da tecnologia e assim teria a oportunidade de trocar o condutor ou remanejar a carga horária de trabalho. As câmeras permitem ao gestor da frota monitorar suas cargas em dois aspectos: o da lei e o humano. É possível classificar os motoristas em pontuações de risco conforme o número de infrações de trânsito cometidas, por exemplo. Com esse tipo de informações em mãos, as medidas educativas, reciclagens, premiações e até mesmo demissões podem ser feitas de modo a haver sempre um time eficiente à disposição. Por outro aspecto, é possível verificar se o motorista fuma ao volante, se está desatento, se cochila e até mesmo se carrega outros passageiros sem autorização. Ou seja, as câmeras funcionam como ferramentas eficazes também para verificar se os colaboradores estão mantendo uma postura adequada enquanto estão na estrada.

Essa atenção especial ao comportamento dos motoristas deve ser dada pelo time de compliance pois, na maioria das vezes, os motoristas estão dirigindo um veículo que carrega a sua marca. Existem empresas que já descobriram, por exemplo, que os motoristas dirigiam completamente nus. Imaginem a impressão que isso pode causar nas pessoas que avistam o caminhão passar. Outro ponto interessante é que o time de compliance consegue demonstrar a preocupação e o investimento com a segurança dos motoristas, patrimônio da empresa e dos clientes. A média no aumento de pessoas que passam adotar comportamentos mais prudentes no trânsito com adoção das câmeras é de mais que 400%. Ou seja, se na sua frota, havia 20 bons motoristas, após implantar a tecnologia, você passa a ter 80. Em resumo, é muito menos dor de cabeça e uma forma de reeducar o colaborador como motorista e cidadão.

Isso tudo deve ser tratado de uma forma muito natural, profissional e ética. Quando as frotas passarem a usar as câmeras de compliance, os números por si só passam a mostrar que o monitoramento constante, uma gestão eficiente e a preocupação com a segurança dos colaboradores e das cargas resultam em uma saúde financeira melhor e, principalmente, em vidas sendo salvas. Afinal, eu diria que a tecnologia tem o poder de mudar a maneira como as pessoas pensam na conformidade: elas não agem mais corretamente só porque têm medo de serem pegas, mas sim porque passam a agregar valor às vidas delas. Todos nós queremos voltar sãos e salvos para as nossas famílias. E absolutamente ninguém quer carregar a culpa de 8 perdas.

*Daniel Schnaider é CEO da Pointer by Powerfleet Brasil, jornalista, autor e economista pela universidade Haptuha de Israel 

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