Como sua empresa pode realizar ações efetivas para manter o cuidado com a saúde mental dos funcionários?

Como sua empresa pode realizar ações efetivas para manter o cuidado com a saúde mental dos funcionários?

Thaylan Toth*

24 de janeiro de 2021 | 06h45

Thaylan Toth. FOTO: DIVULGAÇÃO

Somos seres sociais e justamente por isso não podemos falar de saúde mental sem pensar nas pessoas que estão ao nosso redor e nas nossas redes de apoio: trabalho, comunidade, família, amigos. Esses círculos sociais têm que estar em harmonia e equilíbrio para que seja possível manter o bem-estar mental na vida pessoal e profissional – e muitas empresas já têm entendido isso.

Hoje, quando o assunto são temas de interesse coletivo (saúde, educação, assistência social), a tendência é que os trabalhadores esperem mais ações concretas das organizações. Pensando nisso, as empresas podem atuar tanto interna quanto externamente na saúde mental de seus funcionários e das pessoas com que eles se relacionam.

A preocupação com o bem-estar dos funcionários deve ser pensada em um nível individual e coletivo, dessa maneira ela se torna mais estratégica. Algumas formas de se fazer isso são acompanhando o engajamento, motivos de turnover e o indicador de e-NPS, que mede o nível de satisfação com a empresa.

A iniciativa mais utilizada normalmente – e de menor custo para as companhias – são as campanhas de conscientização. Alertar para os sintomas dos transtornos de ansiedade e de depressão, falar sobre burnout (estado de estresse crônico que leva à exaustão física e emocional), elaborar cartilhas de orientação e divulgar canais de ajuda são ações que podem fazer uma diferença enorme, especialmente entre os profissionais da geração X.

Outras possíveis medidas são a promoção de convênios com psicólogos e psiquiatras e o investimento em ações de educação para a saúde mental. É cada vez mais comum vermos redes paralelas de profissionais da área se formando para atender à crescente demanda dentro das empresas. Além disso, existem professores de psicologia que trabalham com técnicas de psicoeducação e são especializados em ensinar as pessoas a identificarem seus principais pontos de conforto e sofrimento, e assim conseguirem perceber quando há algum desequilíbrio em suas emoções e pensamentos, aprender a manejar melhor seus sintomas e procurar ajuda quando necessário.

Mas é preciso ressaltar que certas insatisfações não estão relacionadas a benefícios, mas sim a estrutura de trabalho, como as jornadas, o local, a rotina e, é claro, a qualidade das relações no ambiente de trabalho. Adotar práticas como home office e incorporar flexibilidade de horário exige relações de confiança e diálogo entre as equipes e lideranças, que, além de lidar com casos de pessoas que passam por algum tipo de sofrimento ou transtorno mental, têm um papel importante em ouvir e criar relações saudáveis com seu time, tornando o ambiente de trabalho mais saudável.

É essencial que o líder transmita confiança para os seus funcionários. Quando uma pessoa está insegura e desconfiada, ela entra em constante estado de alerta e de estresse e, por isso, fica ansiosa.

Nesse contexto, o líder deve ser exemplo de acolhimento e de combate à psicofobia (discriminação contra pessoas com algum tipo de transtorno mental), demonstrando apoio às pessoas que estejam lidando com transtornos mentais, em especial nos momentos iniciais de diagnóstico, quando o indivíduo está sensibilizado e, muitas vezes, com dificuldades em aceitar a própria condição.

A partir do exemplo dado pela liderança, um ambiente de trabalho saudável entre o time é construído a partir de duas atitudes: empatia e diálogo. É importante incentivar as pessoas a abrir espaço para as outras exporem suas inseguranças e desconfortos e lembrar que a competitividade interna pode ser saudável quando existe clareza de que os rivais de verdade estão fora da organização, e não dentro.

Um bom método para garantir que os funcionários estejam confortáveis em seu ambiente de trabalho é garantir que eles de fato tenham fit cultural com a organização, ou seja, os valores pessoais e os organizacionais precisam ser compatíveis para que a saúde mental se mantenha. Trabalhar em uma empresa onde os valores não combinam com os seus cria um fenômeno chamado dissonância cognitiva, que nada mais é quando as suas ações no trabalho, inclusive tomada de decisões, não estão de acordo com aquilo que você de fato acredita. Isso cria um conflito interno que pode ter diversos efeitos a longo prazo, especialmente na autoestima.

Durante a permanência do funcionário na organização existem outras ações que podem ser tomadas para garantir o empoderamento psicológico. A tolerância ao erro e à falha é fundamental para aliviar a pressão de ser 100% produtivo. Não existe 100% de produtividade. É natural, é físico, todo processo envolve perda de energia e o trabalho não é diferente.

Faz sentido reforçar aos funcionários que está tudo bem haver esse redirecionamento de energia – vale mais ainda fornecer ferramentas para lidar com esse redirecionamento de forma eficaz: incentivar hobbies, trabalhos voluntários e descanso, oferecer day off para que possam ter tempo para cuidar de sua saúde, se dedicar à família e a si mesmo, entre outras.

A Inteligência Artificial também pode ser uma importante aliada para identificar problemas de saúde mental no ambiente de trabalho. O que está mais próximo de nos fornecer essa visão é o indicador de engajamento e clima organizacional. De maneira geral, podemos dizer que é um indicador coletivo da companhia. Uma empresa com alto engajamento é uma empresa onde as pessoas vêem valor, propósito e equilíbrio em suas vidas profissionais, e esses são três pilares fundamentais para o bem-estar mental. É um sistema retroalimentado: um funcionário, apesar de por vezes enfrentar dificuldades em sua vida privada, deve ter o sentimento que pode contar com o apoio da rede profissional para conseguir ter tempo para cuidar de seus conflitos pessoais.

Por fim, mas não menos importante, é preciso ter um olhar atento sobre a diversidade dentro do ambiente de trabalho. Abrir as portas para a diversidade significa, principalmente, abrir espaço para o sentimento de pertencimento. Sentir-se parte do ambiente onde se encontra e perceber-se como pessoa respeitada em suas individualidades, pensamentos e preferências é fundamental para que as tendências naturais do ser humano possam ser seguidas com fluidez. Neste pilar, a empatia, o diálogo, o fit cultural, os benefícios, a tecnologia e o relacionamento saudável com a liderança – temas abordados neste artigo – também são fundamentais para que se construa uma organização orientada à promoção da saúde mental.

*Thaylan Toth é CEO e fundador da Mindsight

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