Como separar o cancelamento aplicado nos realities de uma eventual destruição de reputação e de carreira aqui fora?

Como separar o cancelamento aplicado nos realities de uma eventual destruição de reputação e de carreira aqui fora?

Bruno Maia*

05 de março de 2021 | 07h30

Bruno Maia. FOTO: ARQUIVO PESSOAL

Com a saída de Nego Di, Karol Conká, e agora Lumena do BBB, uma reflexão toma conta da horda de fãs do reality show nas redes sociais: como separar o “cancelamento” aplicado a esses personagens dentro do jogo, de uma eventual destruição de reputação e de carreira aqui fora? Estabelecer limites e pactos sociais, culturais e comportamentais entre os cancelamentos digitais e a própria realidade em si, é algo que precisaremos tratar nos próximos anos e também passa pelo botão “Compartilhar”.

O botão de compartilhar estará no centro das discussões sobre mudanças nas redes sociais nos próximos anos. Ele é o fogo e gasolina em incêndios de alta magnitudes provocados pela disseminação de paixões exacerbadas, fake news e cancelamentos. Em todos eles, a necessidade de elaborar a própria opinião é substituída pela curadoria rasa de links que valem a pena ser passado adiante. E ao contrário da opinião, compartilhar um link, em última instância, exime o intermediário de responsabilidade.

Em um artigo recente, Pedro Doria chamou atenção de como o ato de “cancelar” alguém sinaliza o fim da nossa capacidade de debatermos e usou como exemplo o que temos visto na “casa mais vigiada do país”. No texto, Doria fala muito bem sobre como a lógica de tribalismo dos algoritmos nos leva a um universo que valoriza a discórdia e que cristaliza identidades. Isso combinado com a nossa necessidade individual de sermos aceitos e amados em likes, cria essa espécie “paredão” diário ao qual nos submetemos a cada post que fazemos.

Algumas medidas já começaram a ser testadas, como a advertência do Twitter ao usuário que compartilha um link antes de abri-lo. É o início, mas ainda há de avançar. O WhatsApp colheu efeitos importantes ao restringir a capacidade de compartilhamentos automáticos de qualquer postagem. O usuário tem uma quantidade bastante limitada de pessoas para quem pode repassar determinado conteúdo e precisa repetir a ação inúmeras vezes se quiser realmente disseminar algo.

Outra frente importante é a ocultação da quantidade de likes em posts, como testou o Instagram. A maneira como essa métrica é capaz de devastar reputações a auto-estimas de pessoas em situações distintas, vem escancarando a necessidade de que se definam responsabilidades maiores sobre o uso. No esporte, tivemos em fevereiro a morte do jogador uruguaio Morro Garcia, vítima de perseguições diversas nas redes, e que combinadas à depressão, o fez sucumbir. Este se soma a outros casos como a da jogadora de vôlei sul-coreana Yo-Min Goo, que se vitimou em julho do ano passado, após receber mais de 15 mil ofensas pela internet por conta de atuações abaixo da expectativa que seu talento criava.

O extremismo das campanhas de ódio direcionadas à Karol Conká, a promoção de uma campanha que buscasse chegar o mais próximo do 100% de votos em sua eliminação, revelou a fronteira difícil de ser conciliada entre o virtual e o real. O jogo acaba, a vida segue. Quem bate esquece, quem apanha, não. Tudo isso altamente potencializado pela velocidade dos compartilhamentos, retweets e reposts.

A questão, afinal, passa pela definição da responsabilidade do ato de compartilhar em rede. Plataformas se esquivam, uma vez que o conteúdo é gerado e compartilhado por usuários – elas argumentam que apenas oferecem a funcionalidade. Na outra ponta, o usuário não é capaz de ter alcance sem a plataforma. O cancelamento de Donald Trump no Twitter e a retirada do aplicativo Parler das lojas de Google, Amazon e Apple, reduzindo sensivelmente seu alcance, mostraram que o caminho passa tanto pela responsabilização individual como das plataformas.

Ainda são tímidos, mas relevantes, os posts que propõem uma conciliação e que o cancelamento de Konká, Nego Di e Lumena se restrinja ao jogo televisivo, sem criar ruínas na vida da artista. Ainda é cedo para se acreditar que terá efeito suficiente para tal, mas é um início de uma consciência social, pós ressaca moral de tantos cancelamentos, que precisa começar a ser percebido e valorizado. O caminho da regulamentação de responsabilidades envolvendo as plataformas sociais ainda é longo, mas o amadurecimento do nosso uso social é urgente.

*Bruno Maia, especialista em inovação e novos negócios na indústria do esporte e entretenimento, é sócio da 14, agência de conteúdo estratégico, e lançou em 2020 o livro e o curso Inovação é o Novo Marketing. Site: https://brunomaia.cc/

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