Como se chega à decadência?

Como se chega à decadência?

José Renato Nalini*

30 de junho de 2020 | 08h00

José Renato Nalini. FOTO: HELVIO ROMERO/ESTADÃO

Claude Lévy-Strauss permaneceu cinco anos no Brasil, entre 1935 e 1940. Fugia do nazismo e fez aqui pesquisas que resultaram no livro “Tristes Trópicos”. Consta que ao voltar para visita breve, em 1985, teria dito: “O Brasil chegou ao declínio sem ter passado pelo ápice!”.

Isso explicaria o ostracismo a que foi condenado pela intelectualidade e pela mídia espontânea, pois nunca mereceu aqui a reverência conquistada nos países civilizados.

O que diria ele hoje deste País?

Continuamos em busca de um projeto nacional. Se esse projeto for atribuição do governo, a expectativa é nenhuma. Simplesmente, não há um projeto consistente que consiga reverter a compreensível desesperança de um povo frustrado.

Dizia-se que a corrupção acabara. Lamentavelmente, verifica-se que a criminalidade continua desenvolta. Agora servindo-se da tragédia em que o Brasil mergulhou, tentando equiparar-se com os Estados Unidos em número de contaminados e óbitos, existem aqueles que procuram ganhar com a ilicitude, não se importando com o sacrifício de outras vidas inocentes.

A chaga exposta da maior enfermidade nacional é a educação de baixa qualidade. A escola não conseguiu assimilar a profunda mutação estrutural do mundo, provocada pela Quarta Revolução Industrial. Continua a acreditar em aulas prelecionais de transmissão de conhecimento requentado, desatualizado, quando crianças e jovens conseguem acessar online tudo aquilo que ainda não chegou à cogitação dos responsáveis pela escola pública.

Educação deveria ser o Grande Projeto Nacional. Sem ele, sem o envolvimento de toda a sociedade, sem a chamada do empresariado para a formação técnica indisponível no mercado, cada vez mais exigente e sofisticado, o que pode acontecer é o processo de decadência.

Decadência não é novidade na história humana. Sempre existiu. Os grandes impérios decaíram. O tema da decadência é inesgotável, observa Octavio Paz no livro Sóror Juana Inés de la Cruz – As armadilhas da fé. Sinteticamente, assinala: “Basta dizer que o signo inequívoco de todas as decadências é a perda de um projeto nacional. A classe dirigente logo percebe que o projeto elaborado por seus pais e avós perdeu vigência, mas não pode conceber outro”.

O projeto brasileiro para a educação não pode estar exclusivamente vinculado ao governo. A educação é algo muito sério para ser tratado pelo governo, cuja meta é a eleição ou, o que é muito pior, a reeleição.

Educação para valer é um processo permanente, que envolva a escola convencional e o aprimoramento informal, em todas as idades e em todos os espaços. Educação em casa, educação na Igreja, educação no trabalho, educação nas ruas, bairros, clubes, Igrejas. E até educação na escola. Sem vetar iniciativas da sociedade, sem a burocracia estatal, sem a volúpia das avaliações, que só conseguem apurar a falência do ensino.

Educação que ensine a votar, a proteger o ambiente, a reconhecer que o patrimônio natural é a vantagem que poderia nos distinguir e nos ajudar a recuperar as décadas perdidas.

É urgente o repensar da Democracia Representativa, cuja falência é manifesta em todo o planeta. Tudo recomenda a adoção da Democracia Participativa, promessa ainda descumprida, constante de uma Constituição Cidadã que vai completar trinta e dois anos logo mais.

Sem isso, o colapso da classe dirigente, ao menos aos olhos dos excluídos, dos que eram até há pouco invisíveis, será inevitável. Pode demorar, porque no Brasil tudo chega com atraso. Mas chega.

Algo promissor e que pode manter acesa a frágil chama da confiança em dias melhores, é aquilo que acontece também nos Estados Unidos. A despeito das medidas impulsivas e nem sempre sensatas da Presidência, a Suprema Corte é quem coíbe excessos e cumpre o seu papel de falar por último. E o protagonismo de governadores, mostrando ao Brasil que Federação consiste em assegurar plena autonomia às unidades regionais, já que o território continental não admite homogeneidade, nem poder central que desconsidere as peculiaridades locais.

Essas duas circunstâncias permitem o discreto otimismo de se esperar fase mais propícia a se poder afirmar que Claude-Lévy Strauss exagerou no seu diagnóstico. Sem isso, o livro a seguir seria “Tristíssimos e irrecuperáveis trópicos”.

*José Renato Nalini, reitor da Uniregistral, docente da pós-graduação da Uninove e presidente da Academia Paulista de Letras – 2019-2020

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