Como resgatar uma juventude que pode mudar o mundo

Como resgatar uma juventude que pode mudar o mundo

Eugenio Paschoal*

09 de maio de 2021 | 07h30

Eugenio Paschoal. FOTO: DIVULGAÇÃO

Uma geração de jovens duplamente desestruturada está emergindo em uma época de oportunidades perdidas, prestes a enfrentar graves desafios em termos de formação acadêmica, perspectivas econômicas e saúde mental. É esse um dos principais alertas da edição de 2021 do Relatório de Riscos Globais, publicado pelo Fórum Econômico Mundial com o apoio da MMC. Os resultados da pesquisa indicam negligência da comunidade global em relação ao risco do “desencanto da juventude”, que se tornará uma ameaça crítica para o mundo no curto prazo. A constatação é grave, e exige ação imediata.

Em 2009, o Brasil ganhava destaque na revista The Economist com sua “decolagem”. A capa trazia o Cristo Redentor travestido de foguete, símbolo de um rumo promissor na economia. Os números eram empolgantes: depois de atravessar sem grandes turbulências a crise global de 2008, o Brasil apresentaria em 2010 um crescimento de 7,5%.

Mas, em 2013, o fôlego da resistência da economia local, alimentada principalmente pela então recente democratização do consumo, não resistiu ao descompasso financeiro global, e o país caiu em uma recessão profunda. O PIB brasileiro estacionou em um crescimento anual de 2%, e os jovens sentiram na pele os efeitos de uma economia em desaceleração. Os que se preparavam para entrar no mercado de trabalho não conseguiram o espaço das gerações anteriores; muitos ficaram à deriva, outros subempregados, e alguns investiram nos próprios negócios em busca de alternativas.

O cenário parece pessimista, mas tem um lado positivo: a atitude dos jovens mudou drasticamente. O comportamento das últimas duas gerações não mostra exatamente uma revolta em relação às dificuldades, mas a percepção da necessidade de construção de um mundo com bases diferentes. Surgiram grandes movimentos, como a reivindicação de reformas administrativas, a fundação de grupos independentes e pluripartidários (a exemplo da Bancada Ativista), e associações de indivíduos que buscam um mundo melhor por meio de ações de cuidados com o meio ambiente.

São jovens que se dedicam a uma alternativa ao mundo capitalista, que se tornou dependente não mais da produção efetiva de riquezas, mas da geração de dinheiro pura e simplesmente em função do valor que o capital gera em cima do próprio capital – mecanismo de cuja engrenagem a juventude se vê excluída. É claro que há exceções, que se refletem nas bem-sucedidas e brilhantes startups que surgiram na última década. Mas, como toda exceção, é um movimento restrito a uma minoria, formada por indivíduos com acesso privilegiado à educação e à renda.

Não bastassem os desafios que já permeavam a trajetória das novas gerações, a pandemia do coronavírus chega em 2020 para enterrar de vez qualquer esperança de adequação à dinâmica do mundo dos negócios. O desemprego entre os jovens brasileiros de 18 a 24 anos ficou em 31,4% no 3º trimestre de 2020 – a maior taxa da série histórica iniciada em 2012. A crise hoje atinge duas gerações: a de 30 e poucos anos, que já se encontrava à deriva depois da última recessão, e a que se aproxima dos 20, sedenta pela independência da vida adulta. A mentalidade engessada do mercado corporativo não ajuda a equilibrar os danos: com a enorme abundância de mão de obra disponível, os grandes empregadores fisgam apenas os mais bem qualificados, fazendo com que, mais do que nunca, larguem na frente os privilegiados. O resultado é um distanciamento ainda maior no gap social, como aponta de forma assertiva o Relatório de Riscos Globais.

É nosso dever, como sociedade, lutar pela inclusão da juventude no mercado e pelo aumento de oportunidades destinadas a pessoas que, apesar de não qualificadas (no sentido tradicional da palavra), são extremamente preparadas, criativas e dispostas a fazer a transformação de que precisamos para prosperar nas próximas décadas. Viremos nossos olhares aos que têm conhecimentos diferentes dos nossos, e que podem ajudar as companhias a crescerem de maneira a enfrentar o futuro.

A nova geração não está perdida. Ela está alinhada a um tipo de consumidor que se multiplica no mundo, extremamente exigente quanto aos cuidados com o meio ambiente, à representatividade feminina e à valorização da diversidade. O jovem de 2021 quer trabalhar em uma empresa ESG, que ofereça transparência nas operações de impacto nos três principais eixos da sustentabilidade – o Meio Ambiente, o Social e a Governança.

São jovens que abdicam de grandes ambições para lutar por uma vida mais saudável e equilibrada para todos, com uma força de trabalho sustentável, do ponto de vista humanitário e racional. É nossa chance de abraçar uma cultura totalmente diferente da instalada no modelo tradicional do mundo corporativo, com o poder de causar uma revolução no mercado e, consequentemente, na forma como encaramos o mundo.

*Eugenio Paschoal, presidente & CEO da Marsh Brasil

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