Como queimar bibliotecas

Como queimar bibliotecas

José Renato Nalini*

28 de janeiro de 2021 | 12h00

José Renato Nalini. FOTO: WERTHER SANTANA/ESTADÃO

Destruir bibliotecas é um esporte recorrente na história da humanidade. O inconsciente coletivo armazenou em seus escaninhos a trágica eliminação da Biblioteca da Alexandria, frequentada por Arquimedes e Euclides, mas poucos sabem que a biblioteca de Nínive teria sido a primeira, pois já existia no século sétimo antes de Cristo.

A leitura do livro “Burning the books – A History of the Deliberate Destruction of Knowledge” (ou Queimando os livros – uma História da Destruição Deliberada do Conhecimento), escrita por Richard Oveden, editora Harvard University Press, é um sedutor exercício de reflexão.

O que justifica o ódio ao saber?

Muitos já tentaram traduzir o que leva os homens a eliminar o testemunho da pesquisa, da meditação e do estudo. Um estudioso do tema é o venezuelano Fernando Báez, que publicou o livro “Uma História Universal da Destruição de Livros – da Antiga Suméria ao Iraque Moderno” , publicado pela Ediouro.

Quem não se lembra de “Fahrenheit 451”, de Ray Bradbury, livro e filme que relata a odisseia de Guy Montag, o bombeiro encarregado de queimar livros?

Esse passatempo adquire múltiplas formas e persiste como índice das oscilações civilizatórias no curso percorrido pela Humanidade neste planeta.

Afeiçoados aos grandes acontecimentos, deixamos de observar a inclemente luta movida contra o livro em outras dimensões.

Assisti ao desfazimento de bibliotecas valiosas, fruto de sacrifício pessoal de seus organizadores. Seres superiores, devotados ao pensamento puro, não hesitam em se privar de confortos materiais para destinar seus parcos recursos à aquisição de livros.

Com devotada fidelidade à obra consubstanciada em objeto físico, o livro, levam décadas a formar um acervo cultivado com carinho e respeito. Eis senão quando, o acúmulo de milhares de volumes começa a incomodar os demais ocupantes do imóvel. O idoso passa a ser um fardo e sua coleção de livros é um inconveniente a quem precisa de espaço para outras finalidades.

Aceita-se a aparentemente generosa oferta de instituições que preservarão o patrimônio amealhado durante uma vida e nem sempre o compromisso é honrado. Seja porque parte do conjunto seja de temas desinteressantes para a entidade, seja porque muitos dos livros sejam considerados “desatualizados”, o destino é a pulverização daquilo que se fez sob uma ordem, uma diretriz e um planejamento.

É uma morte perpetrada gradualmente, mas não menos indolor.

O que dizer, então, das bibliotecas deixadas por colecionadores que falecem e não conseguiram, ou não quiseram, cuidar da destinação de seu capital literário?

Houve um tempo em que livros bem encadernados eram adquiridos por Universidades que estavam prestes a receber visita dos credenciadores. Vendia-se por metro linear. Um aparato para comprovar um apreço ao saber falacioso, para não dizer hipócrita.

Outros agregados de obras são encaminhadas aos “sebos”, onde alguns interessados podem se apropriar de joias raras, até com primorosas dedicatórias dos autores.

Assisti, entristecido, à dissolução de uma biblioteca exemplar. Meu amigo era fanático por alguns temas e adquiria tudo o que se publicasse a respeito de sua predileção. Ao falecer, promoveu-se um desses eventos “família vende” e vi a pressa e o descuido com que ávidos pesquisadores de objetos rentáveis tratavam os livros. Rápida folhada e arremesso ao chão. Sem respeitar algumas fotos ou recortes de jornais pacientemente entranhados pelo falecido leitor. Pedaços de seus sentimentos, de suas elucubrações. Tudo perdido no afã de converter em alguns reais a história de uma existência voltada ao contínuo aprimoramento em certas áreas.

O amor ao livro é missão da qual parece ter negligenciado boa parte da família, a primeira escola. Tive também o dissabor de verificar que o kit escolar entregue a alguns alunos por ocasião do início das aulas, era imediatamente lançado ao recipiente reservado ao lixo. Adolescentes desdenhavam a oferta, paga com dinheiro de toda a população, sob argumento de que dispensavam “kit-favela”.

Por isso é que, no mundo micro, o desamor ao livro continua vigente e explica, em boa parte, porque o Brasil não pode ser comparado a nações em que a leitura é prazeroso exercício diuturno, não enfadonha obrigação escolar.

É o espírito ainda predominante na nação que também queima sua multissecular vegetação. Cada árvore eliminada na última enorme floresta tropical amazônica equivale à destruição de uma biblioteca gratuitamente ofertada pela natureza. Sem refil, sem a mínima possibilidade de cálculo do que se perdeu, definitivamente, com essa morte.

*José Renato Nalini é reitor da Uniregistral, docente da pós-graduação da Uninove e presidente da Academia Paulista de Letras – 2021-2022

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