Como o foco influenciou a corrida espacial de Bezos vs Branson

Como o foco influenciou a corrida espacial de Bezos vs Branson

Fernando Taliberti*

25 de julho de 2021 | 07h30

Fernando Taliberti. FOTO: DIVULGAÇÃO

Nos últimos dias, testemunhamos as voltinhas, tanto do britânico Richard Branson quanto do americano Jeff Bezos, no espaço. Branson decolou antes em uma disputa que representa a nova era na corrida espacial, que não se dá mais entre países como na Guerra Fria, mas sim entre bilionários nascidos em países diferentes. Ele fundou em 2004 a Virgin Galactic, uma divisão espacial que faz parte do seu conglomerado de mais de quarenta empresas. Bezos, o fundador da Amazon, fundou também a Blue Origin, que o levou ao espaço esta semana, no ano 2000; Além dos dois, compõem esta disputa também Elon Musk, CEO da Tesla, nascido na África do Sul e que fundou a SpaceX em 2002, que também comanda.

Bezos, que deixou o comando da Amazon no início deste mês, anunciou poucos dias depois que iria ao espaço em 20 de julho, mas Branson correu na sua frente, fez seu vôo espacial com sucesso no dia 11 e foi parabenizado por Bezos e pela Blue Origin. Mas dois dias antes desse importante passo para o mercado de turismo espacial, a Blue Origin postou no Twitter uma comparação entre seu veículo espacial e o da concorrente, onde classificava este último de “avião de grande altitude” e ainda questionava se o limite de 80 km do nível do mar a que chegaria deveria ser considerada “espaço”, alegando que para 96% do mundo o espaço começa a 100 km.

Tecnicalidades à parte, os dois bilionários definiram metas um pouco diferentes. Bezos criou uma companhia que tem como objetivo viabilizar a “presença humana duradoura no espaço”. Ele está, como sempre, olhando por meio de uma perspectiva épica e a longo prazo, ainda que menos ousada, se comparada à de Elon Musk, que mira viabilizar a vida em Marte.

Em um caminho marcado por objetivos ambiciosos, a SpaceX e a Blue Origin disputaram contratos com a NASA e realizaram missões que foram importantes marcos para o desenvolvimento de suas tecnologias, como o lançamento de satélites e, no caso da SpaceX, inclusive de astronautas. Nada disso era a finalidade da Virgin Galactic, que chegou a criar uma empresa à parte para explorar oportunidades “laterais” como a de colocar satélites em órbita.

Branson queria ser o precursor do turismo espacial. Ele, com seu invejável talento para marketing, está vendendo uma experiência que, para gerações anteriores, ainda era improvável. Ao mirar mais baixo que os colegas, o lendário founder do grupo Virgin acabou atingindo o objetivo não só um pouco antes, mas também de forma radicalmente mais simples. Já é tradição para Branson arriscar sua integridade física para promover suas empresas. Para Bezos este foi um movimento para realizar um sonho de infância, que aparentemente o levou a se afastar da liderança da Amazon para evitar que este risco comprometesse sua empresa tão valiosa. Já Musk parece mais focado em sua visão para salvar a humanidade da extinção que em qualquer estratégia de marketing ou em realizar algum sonho pessoal de ir ao espaço.

A escala espacial torna difícil olhar qualquer uma dessas companhias como uma startup, mas está claro que a Virgin se comportou de forma mais leve e ágil, assim como sua nave. É verdade que ela foi a que chegou mais rápido da fundação até o seu objetivo, e mesmo assim já se passaram 17 anos. De acordo com as declarações públicas, a companhia teve um gasto anual de cerca de um quinto do que foi gasto anualmente na Blue Origin. Além disso, o britânico definiu como meta ter mais de um voo diário para levar turistas para explorar os limites do espaço.

Com esse orçamento, a companhia realmente desenvolveu um “avião de grande altitude”, ao invés de um foguete como o da Blue Origin, e isso é o ideal para a sua estratégia. Com uma solução mais enxuta para levar pessoas a conhecer o espaço, poderá cobrar um preço menor e assim aumentar o público visitante nos próximos anos. Talvez a Virgin possa ir bem mais longe que isso, mas ela está muito próxima de atingir seu objetivo final. A Virgin alega já ter vendido 600 passagens para pessoas de 60 países, com um ticket médio de US$ 250 mil. Para viabilizar a vida sustentável no espaço é preciso outro nível de ambição. E também de propulsão.

Os feitos dos três bilionários nesta corrida são admiráveis e inspiradores, em especial em se considerando que são iniciativas de suas empresas privadas. Cada um teve resultados diretamente relacionados com o seu respectivo foco. Bezos realizou seu sonho, mas está criando uma empresa que vai além do turismo espacial. Branson tem maior chance de viabilizar no curto prazo o turismo espacial, objetivo mais simples que tomou menos tempo e dinheiro. Entender como o foco e perseverança levou à trajetória de cada um deles é uma lição para empresas de qualquer tamanho e mercado de atuação.

*Fernando Taliberti é fundador, mentor e investidor de startups, escritor e palestrante com foco em modelos de trabalho inteligentes, intraempreendedorismo, cultura de inovação e digital. Formado em Engenharia de Produção pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), possui especialização em Product Growth Marketing pela Tera e mestrado em e-business e Tecnologias para Gestão pela Politecnico di Torino, Itália

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