Como o acesso à tecnologia tornou-se tão essencial em meio à pandemia

Como o acesso à tecnologia tornou-se tão essencial em meio à pandemia

Wagner Mendonça*

09 de setembro de 2020 | 04h00

Wagner Mendonça. FOTO: DIVULGAÇÃO

A tecnologia é uma grande aliada do ser humano há anos. Nos dias de hoje, em especial, ela tem sido nossa principal e, para alguns, a única ferramenta de comunicação, trabalho, entretenimento e educação. A pandemia do coronavírus acelerou a implementação de um processo chamado Transformação Digital em milhares de empresas e companhias tradicionais no mundo todo. A vida social tomou um rumo diferente: os shows que antes eram lotados de fãs foram trocados pelos “likes” e “lives” nas redes sociais, e acabaram indo para dentro da casa das pessoas. O hábito de ir até bares e restaurantes foi trocado pelos happy hours em conferência de vídeo. Estudantes que nunca tinham feito uma aula a distância foram obrigados a aderir ao ensino online.

Agora imagine para quem não tem esse acesso à tecnologia. Observo a inclusão digital em países como o Brasil e vejo como ainda existe um gap muito grande neste sentido, mesmo considerando o poder de engajamento e interação no comportamento dos brasileiros – que são altamente conectados e dominam o uso das redes sociais.

Dados do IBGE mostram que 46 milhões de brasileiros (uma a cada quatro pessoas) não possui acesso à internet, segundo pesquisa apresentada em abril deste ano. O Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM) foi adiado, com a prova que aconteceria em novembro programada para ser aplicada apenas em 2021 e de forma mista, com avaliações presenciais e online, já que boa parte dos inscritos não possuem conectividade ou tecnologia para poder estudar. Já um estudo apresentado pela Unesco revelou que estudantes do mundo todo estão sendo afetados pela pandemia do coronavírus, e 826 milhões não possuem um computador em casa. Com isso, milhares de estudantes brasileiros que dependem da prova do ENEM como uma chance de fazer faculdade, não possuem acesso à tecnologia nem mesmo para estudar – e isso se evidencia ainda mais agora, época em que as escolas seguem fechadas devido às medidas de distanciamento social. Isso mostra a fragilidade de não tratar a inclusão digital como uma prioridade, seja por parte de organizações públicas ou de empresas que facilitem a compra de aparelhos eletrônicos para as classes de menor poder aquisitivo.

Outra questão exposta pelo contexto da pandemia da COVID-19 – e que conversa diretamente com os modelos de fintech que utilizam dados de uso de celular para concessão de crédito bancário – é a de milhares de brasileiros que acessam a internet através apenas de smartphones. O último estudo TIC Domicílios (veja abaixo), divulgado em 2019, indicou um crescimento da conexão apenas através de dispositivos móveis de 20%, em 2014, para 56%, em 2018. Mas ele também mostrou que em locais mais isolados, como áreas rurais, a porcentagem de acesso somente pelo celular é de 77%, enquanto nas regiões urbanas o número é de 54%. Sobre as classes sociais, a discrepância é ainda maior. Enquanto as classes A e B possuem o computador e o celular para se conectarem, a maior parte das classes C, D e E utilizam apenas o smartphone como meio de acessar a rede. Na classe C, cerca de 61% possuem apenas o aparelho móvel e, nas classes DE, 85% dependem do celular.

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Uma opção que promove a democratização do acesso ao mercado financeiro e, consequentemente, facilita o acesso à tecnologia por parte das classes com menor poder aquisitivo são as fintechs – ou projetos que disponibilizam tecnologias capazes de substituir modelos tradicionais. Um exemplo são as fintechs que utilizam os dados de uso de celulares para melhor analisar o comportamento do usuário e, a partir disso, oferecer avaliações mais contextualizadas e aprofundadas para concessões de crédito. Outro exemplo são fintechs que, através da incorporação de tecnologias disruptivas, permitem que um bem, como o smartphone, seja dado como garantia em uma operação financeira. Essas empresas vão se tornar cada vez mais importantes para garantir maior igualdade em termos de informação, conhecimento e oportunidade para a população.

Fintechs, tecnologias e inovação possibilitam uma disrupção nos modelos de acesso ao crédito e, consequentemente, contribuem com a batalha contra a desigualdade tecnológica – algo urgente em épocas de crise como a que vivemos hoje. Pensar na população desfavorecida é uma forma de promover o desenvolvimento social e econômico, já que uma pessoa que possui um computador ou mesmo um celular consegue agora ter condições mínimas para trabalhar, estudar e interagir com os outros, podendo adaptar-se  ao chamado “novo normal” no mundo pós-coronavírus. Não é mais apenas um privilégio, é um direito.

*Wagner Mendonça é diretor de desenvolvimento de negócios da PayJoy, fintech sediada nos Estados Unidos, com foco em financiamento inteligente para desbancarizados

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