Como mitigar os efeitos da era das mudanças climáticas

Como mitigar os efeitos da era das mudanças climáticas

Carlos Bocuhy*

06 de julho de 2021 | 05h30

Carlos Bocuhy. Foto: Divulgação

Um relatório com 4.000 páginas do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC), que será divulgado oficialmente apenas em 2022, traz informações preocupantes sobre o destino do meio ambiente e do planeta. Robusto em dados e pesquisas, o relatório revela que as perspectivas mais otimistas do Acordo de Paris, assinado por quase duas centenas de países, foram frustradas. O atingimento da máxima temperatura média para o planeta em 1,5 grau celsius, como meta para 2100, caiu por terra e poderá ser atingida antes de 2050. Sem ações mais efetivas, para 2100 se desenha o desconfortável e insustentável prognóstico de 3 graus.

As consequências globais previstas por cientistas voltados às mudanças climáticas, como James Hansen, físico e climatologista da Nasa, não são mais um cenário para as futuras gerações. Quem nasce hoje, antes de completar 30 anos poderá enfrentar o cenário adverso e constante de falta de regularidade nas chuvas, escassez de água, ondas letais de calor, a destruição da vida nos mares e a elevação dos oceanos.

Assim, não basta apenas estimular alternativas energéticas limpas, mas proceder ao enfrentamento e banimento das emissões de gases efeito estufa. Isso significa que a sociedade brasileira e demais países devem se voltar fortemente à proibição dos combustíveis fósseis, além de proceder ao imediato mapeamento de suas vulnerabilidades em busca dos caminhos de adaptação e mitigação frente aos efeitos adversos trazidos pelas mudanças climáticas.

As sociedades, em essência, podem ser bastante proativas em processos de transição, desde que sejam esclarecidas e provocadas. O filósofo Immanuel Kant identificava uma sociedade global de características comuns, que possui a razão e os anseios de justiça na perspectiva de um meio ambiente saudável. Mas ao abordar a concepção estrutural de governos, um fenômeno contrário se evidencia: ao olhar só para o próprio umbigo, o nacionalismo exacerba a soberania, retirando seu caráter cooperativo. Assim, há um risco enorme de que os ególatras leviatãs nacionais coloquem obstáculos para a resolução de problemas comuns. Essa visão anti-humanista foi visível na gestão de Donald Trump e é evidente na gestão de Jair Bolsonaro.

Enquanto a Floresta Amazônica, uma verdadeira antessala do Gênesis arde em milhares de focos de incêndio e bate recordes desde o mês de junho, sem verba suficiente para a fiscalização do Ibama e do ICMbio, o presidente Jair Bolsonaro alardeia que poderá destinar R$ 2 bilhões para mudar o sistema eleitoral para voto impresso. Ao mesmo tempo, o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), sem recursos financeiros disponíveis para pagar a conta de luz a partir de agosto, anuncia que o supercomputador Tupã poderá ser desligado.

Tupã é a sentinela avançada que faz a leitura climática e das queimadas, gera dados e orienta todo o processo de transportes marítimos e aeroviários, incluindo as previsões que poderão orientar estrategicamente a gestão da própria crise hídrica que o Sudeste brasileiro atravessa.

O relatório do IPCC aponta que “as mudanças climáticas irão remodelar fundamentalmente a vida na Terra nas próximas décadas mesmo se a humanidade conseguir conter as emissões de gases estufa que esquentam o planeta”. O painel de climatologistas afirma a “extinção de espécies, disseminação maior de doenças, calor insustentável à vida, colapso dos ecossistemas, cidades ameaçadas pelo aumento do nível do mar”, causados por “impactos climáticos devastadores que estão se acelerando e devem se tornar dolorosamente reais”. E conclui: “As escolhas que as sociedades fazem hoje irão determinar se nossa espécie conseguirá prosperar ou apenas sobreviver ao longo do século 21”.

Se restava alguma margem de manobra para os “negacionistas” climáticos, muitos dos quais são remunerados pela indústria de combustíveis fósseis, essa possibilidade se esgotou. Também está esgotada, do ponto de vista científico e legal, qualquer possibilidade de alterar a matriz energética brasileira para termelétricas movidas a “gás natural”. O gás é de origem fóssil e quando queimado gera dióxido de carbono (CO²) além de grandes quantidades de óxidos de nitrogênio (NOx) e outros precursores de ozônio (O³), um poluente secundário que já satura as regiões mais antropizadas do Brasil, atacando a retina e provocando problemas no sistema respiratório.

Outra falácia, a “recuperação energética” dos resíduos sólidos, também acabará desmantelada. Foi criada para justificar a venda de máquinas incineradoras que transformam resíduos urbanos não perigosos em cinzas tóxicas, na razão de 30% de seu volume. É incrível como ainda se tenta justificar, por meio da semântica, tecnologias poluidoras que vêm sendo banidas, por exemplo, pela Comunidade
Europeia.

Os blefes dos defensores dos combustíveis fósseis e das tecnologias poluidoras não podem mais encontrar eco nos órgãos licenciadores, que devem implementar os dispositivos da Lei da Política Nacional do Meio Ambiente (Lei 6.938/1981), associada à Lei 12.187/2009, que instituiu a Política Nacional sobre Mudança do Clima (PNMC). Da mesma forma, é no mínimo uma imperdoável omissão que governos estaduais e municipais ainda continuem a discursar em favor de termelétricas a “gás natural” e de incineradores de resíduos urbanos.

Segundo a agência de notícias France Press, que teve acesso aos relatórios do IPCC, uma reação mais imediata para evitar o início das mudanças climáticas já não é mais possível. O atual índice de aquecimento de 1,1 grau celsius significa que já adentramos no desequilíbrio climático e que todo o esforço da humanidade deverá ser voltado para evitar o agravamento da situação. A população humana envenena a atmosfera do planeta com 162 milhões de toneladas de gases efeito estufa por dia. É preciso romper com essa lógica fóssil. Além de estimular uma matriz energética limpa, é preciso combater frontalmente e de forma determinada os combustíveis fósseis.

É preciso coragem institucional dos governos para dizer não às corporações que lucram diariamente colocando em risco a humanidade. Na semana passada, o mercado financeiro aplaudia a Organização dos Países Produtores de Petróleo (Opep), que anunciava a possibilidade de ampliação na produção de mais 700 mil barris por dia em função da retomada econômica pós-Covid-19.

Estamos iniciando uma nova era. Se o Antropoceno teve início no final do século passado, adentramos agora a era de suas consequências. A era das mudanças climáticas pode perdurar por séculos. Estudar as medidas de mitigação é um ponto essencial neste processo, especialmente para corrigir as vulnerabilidades mais estruturais.

Por exemplo, a proteção da água, a partir da compreensão do ecossistema Amazônia com seus rios voadores, que abastecem o continente com a regularidade de sua umidade. Entre tantos outros aspectos vulneráveis, será preciso mergulhar fundo nos desafios de manter os mananciais, especialmente os metropolitanos.

O relatório afirma que, globalmente, com o acréscimo de 1,5 grau, 350 milhões de pessoas no planeta terão seu suprimento de água ameaçado e que “os níveis atuais de adaptação serão inadequados para responder aos riscos climáticos futuros”.

Temos uma longa lista de prioridades, dirigida às vulnerabilidades ambientais e sociais, que são uma característica marcante de nosso país. Há uma ligação explícita entre a riqueza tropical-equatorial da biodiversidade brasileira, assim como dos contornos sociais de sua diversidade humana, com relação à vulnerabilidade trazida pelas mudanças climáticas.

Acorda Brasil, pois já se faz tarde — e é preciso correr contra o prejuízo.

*Carlos Bocuhy é presidente do Instituto Brasileiro de Proteção Ambiental (Proam)

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