Como melhorar nosso país sem ouvir os jovens?

Como melhorar nosso país sem ouvir os jovens?

Mara Gabrilli*

16 de julho de 2018 | 06h00

Mara Gabrilli. FOTO: ANDRÉ DUSEK/ESTADÃO

Lendo um e-mail no avião, fui impactada profundamente pela gratidão de um jovem que conheci dez anos atrás. O trecho abaixo se refere a uma carta escrita por ele.

“Provavelmente não irá se recordar de mim, muito menos de minha história. Alguns anos atrás, aos 15 anos, participei do concurso “Parlamento Jovem”, em São Paulo, no qual tive a honra de conhecê-la através do meu projeto de lei, o qual estipulava a obrigatoriedade de haver um intérprete de libras em locais públicos com grande circulação de pessoas.

Gostaria de poder, antes de mais nada, agradecê-la por ter dado ouvidos ao projeto e, hoje, aos 25 anos, 10 anos após o concurso do Parlamento Jovem, no qual tive o projeto de lei escolhido por você, poder agradece-la por tudo que me fez enxergar e por todas as portas que você possibilitou serem abertas.

(…)

Gostaria de fazer um imenso pedido a você… Diga a todos os jovens que conseguir atingir, que nunca, nunca, nenhum deles deixe de acreditar. Não importa o que aconteça ou o que digam a eles, que no fundo, ou melhor, que lá na frente, cada suor deles valerá a pena.”

Essa carta foi escrita por Jonas Rosa, um jovem que teve sua vida transformada após ter concluído seu trabalho de ensino médio. Ele elaborou um projeto de lei pensando naqueles que quase nunca são ouvidos, os surdos.

Hoje, depois de dez anos, trabalhando em uma multinacional, com a experiência de ter vivido fora do país, aprendido outros idiomas e vivências, ele resolveu dividir seu progresso nesta carta que mostra o quão nossa democracia precisa e deve investir em quem tem o poder de transformar a sociedade.

Jonas é mais um jovem brasileiro que precisava de apenas uma oportunidade. Ele perdeu a mãe cedo, cabulava as aulas da tarde para trabalhar. Sua história é o retrato de um Brasil repleto de potencial, mas que muitas vezes é ignorado.

Em 2014, nas últimas eleições presidenciáveis no nosso país, o Instituto Data Popular realizou uma pesquisa bem interessante com 3.500 jovens e que exemplifica em números o que estou dizendo.

Entre os jovens entrevistados, 50% afirmaram estar indecisos ou dispostos a anular o voto. Mas a maioria (63%) disseram sonhar com uma mudança para o país, pois acreditam que não estamos no rumo certo. Por outro lado, 59% disseram que o país estaria melhor se não houvesse partidos políticos.

Ou seja, o jovem brasileiro, que corresponde a quase 30% do eleitorado nacional, quer mudança, mas não busca essa mudança na urna. E não busca muitas vezes porque não acredita em partido algum. Nossos jovens não se sentem representados.

Será que esses brasileiros, que começam a vida agora e precisam tanto de exemplos, não acreditam na nossa democracia ou é a nossa democracia que não os credita a confiança que deveria? O Brasil está de fato ouvindo os jovens?

A impressão que tenho é que vivemos em uma democracia analógica com jovens se rebelando, bem distantes, no mundo digital. Sozinhos, propagando suas insatisfações sem o apoio de quem deveria fazê-lo.

Estamos falando de brasileiros que têm opinião, poder de influenciar a família, a comunidade. São pessoas que já têm poder de consumo e tiveram mais acesso à educação que seus pais e, por isso, uma tendência maior a ocupar o mercado de trabalho com cargos de liderança. E tá aí Jonas para provar isso.

O Brasil tem hoje uma geração com o poder de transformar – de criar novas formas de gerar progresso sem destruir, de movimentar a economia, de produzir tecnologias renováveis, de produzir cada vez mais de forma sustentável e de fazer o Brasil que a gente quer de verdade – bem além do que propaga uma grande campanha na TV. Contudo, para que isso aconteça precisamos ouvir outros Jonas espalhados pelo Brasil.

Quanto ao meu grato e jovem remetente, deixo aqui um recado.

Obrigada por dignificar nosso trabalho e mostrar que estamos no caminho certo. Ouvir os jovens vislumbrando políticas públicas é uma das maiores ferramentas para amenizar as desigualdades sociais e conquistar de fato o Brasil do futuro.

*Mara Gabrilli, deputada federal (PSDB-SP), publicitária, psicóloga, foi secretária da Pessoa com Deficiência da capital paulista e vereadora por São Paulo. Em 1997, após sofrer um acidente de carro que a deixou tetraplégica, fundou uma ONG para apoiar o paradesporto, fomentar pesquisas cientificas e promover a inclusão social em comunidades carentes

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