Como lidar com o luto no ambiente escolar

Como lidar com o luto no ambiente escolar

Tatiana Pimenta*

09 de abril de 2021 | 14h50

Tatiana Pimenta. FOTO: DIVULGAÇÃO

A pandemia de COVID-19 sem dúvidas deixará sequelas físicas e psicológicas. Já é possível sentir algumas das modificações causadas por esse período de isolamento social, óbitos, medo e incerteza.

Logo nos primeiros meses de 2020, um estudo da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UEFJ) identificou um aumento de 90% nos casos de depressão. Naquela época, as razões para a infelicidade generalizada eram, sobretudo, as mudanças drásticas (como quarentena e fechamento de empresas e escolas) que a sociedade estava sofrendo.

A partir de então, o número de óbitos no país começou a aumentar e, nos últimos meses, vem quebrando recordes e ultrapassando estatísticas de outros países. Sendo assim, também é preciso destacar o luto como um dos principais fatores do sofrimento psicológico e emocional durante a pandemia.

O processo de luto durante a pandemia de COVID-19

Com o aumento expressivo no número de óbitos provocados pela COVID-19 no início de 2021, a quantia de pessoas em luto também cresceu. As mais de 300 mil vítimas deixaram filhos, pais, cônjuges, parentes, amigos e colegas de trabalho.

O processo de luto é constituído por fases, segundo a psiquiatra suíço-americana Elisabeth Kübler-Ross, uma das pioneiras nos estudos acerca da morte. As pessoas caminham por elas em seu próprio ritmo, dependendo da relação que tinham com o indivíduo que partiu e outros fatores, como personalidade e inteligência emocional.

O apoio psicológico abranda esse processo doloroso, especialmente para as crianças. As crianças e os adolescentes não possuem a mesma capacidade de administrar emoções que os adultos por estarem em fase de desenvolvimento.

Para os menores, o processo de luto é sempre mais confuso.

Como as crianças não possuem um entendimento concreto do que é a morte, têm dificuldade para processar a perda de um ente querido. Já os adolescentes conseguem compreender a situação como ela é. Entretanto, apresentam problemas em desapegar de sentimentos negativos.

Ainda não há um levantamento acerca da quantidade de crianças e adolescentes que perderam pais ou familiares durante a pandemia de COVID-19 no Brasil. Mas, é possível afirmar, pelos dados já disponíveis, que milhares de crianças crescerão sem pais ou familiares próximos.

Apoio psicológico no ambiente escolar

Como crianças e adolescentes passam grande parte de seu tempo na escola ou envolvidos com questões relacionadas à ela, é importante que tenham contato com psicólogos neste ambiente.

No contexto escolar, esses profissionais possuem o papel de acolher os indivíduos inseridos no ecossistema das instituições de ensino. Ou seja, alunos, educadores, outros colaboradores, pais e demais familiares.

Certos fatores já são desafios de longa data no ambiente escolar, como o bullying, as dificuldades de aprendizagem e a pressão sobre alunos e professores. Com a pandemia e o período chamado de pós-pandemia, o qual não sabemos ainda quando iniciará, o luto, o medo, a depressão e a ansiedade passarão a fazer parte desta lista.

Sendo assim, é imprescindível que o apoio psicológico chegue aos alunos e aos colaboradores que perderam familiares, amigos e colegas em decorrência da COVID-19.

Apoio psicológico para alunos

Primeiramente, é preciso levar em consideração que os alunos retornarão às aulas com pouco entusiasmo e falta de costume. Logo, é preciso passar por um processo de readaptação. Simultaneamente, muitos voltarão no processo de luto e abalados com as perdas na família.

O psicólogo escolar precisa se basear nesses (e outros) fatores para determinar a melhor abordagem para a realização de intervenções psicológicas. Essas, por sua vez, constituem ações desenvolvidas em conjunto com outras áreas da escola, visando o bem-estar dos alunos e das famílias também em luto, como aulas especiais, palestras e reuniões.

Iniciativas e atividades pedagógicas envolvendo saúde mental e esclarecimentos sobre questões relacionadas à morte, especialmente para as crianças, podem ajudar os alunos a se cuidarem. A linguagem deve ser, em sua maioria, lúdica para não impactar negativamente os alunos.

Como se trata de uma vivência inédita para a maioria, esforços antes impensados podem ser requisitados. Por exemplo, modificações no projeto pedagógico podem ser necessárias para tornar a retomada da aprendizagem menos extenuante. Assim, os alunos em luto não se sobrecarregariam.

O apoio psicológico deve ser de longo prazo e contar com a participação dos pais ou responsáveis. Em outras palavras, deve envolver toda a família restante. O apoio da escola também pode alcançar os adultos que cuidam dos alunos.

É preciso ter um mindset de comunidade em razão do momento em que estamos vivendo e nos que ainda viveremos. Ao ajudar o coletivo, as instituições de ensino encontrarão mais facilidade para se readequar na nova realidade.

Apoio psicológico para colaboradores

Os projetos terapêuticos também devem favorecer os colaboradores que compõem o ecossistema escolar. Os professores, em particular, são uma classe de profissionais propícia ao desenvolvimento de transtornos mentais e esgotamento profissional. No contexto da pandemia e do pós-pandemia, a atenção com a saúde mental deles deve ser redobrada.

O psicólogo pode convidá-los para participar de ações de saúde mental desenvolvidas para os alunos (os professores já acabam acompanhando essas iniciativas normalmente), bem como oferecer apoio psicológico diferenciado. O diálogo e as expressões de desconforto devem ser encorajados constantemente.

Grupos de apoio, sessões de terapia em grupo e palestras sobre temas relevantes (como lidar com o luto, como cuidar da saúde mental, como voltar à rotina após a pandemia) estimulam a criação de uma cultura de acolhimento e de diálogo.

Afinal, não é saudável engarrafar sentimentos nem emoções intensas! Essa postura, em conjunto com a realidade da retomada do trabalho, pode resultar no Burnout.

Estimular a empatia entre colaboradores de diferentes hierarquias também seria benéfico. Esta poderá ser uma oportunidade para estimular a boa convivência e o desenvolvimento de habilidades socioemocionais, como a inteligência emocional, por meio de workshops e reuniões. O investimento em apoio psicológico será necessário para dar continuidade a demandas cotidianas e, ainda, às necessidades que surgirem do período de retomada total das atividades escolares pelo Brasil.

*Tatiana Pimenta, CEO da Vittude

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