Como grandes empresas inovam na crise

Como grandes empresas inovam na crise

Rafael Gonçalves de Albuquerque*

07 de maio de 2020 | 04h30

Rafael Gonçalves de Albuquerque. FOTO: ARQUIVO PESSOAL

Um time pesquisando inovação dentro da empresa, pode ser uma saída para buscar soluções em meio às crises? Sim, porém, outras formas podem ser tão ou mais eficientes quanto esta. É o caso do Corporate Venture Capital, que já explicaremos.

Nos últimos anos o ingresso de empresas não financeiras no mercado de capital de risco, reforçaram este segmento chamado de Corporate Venture Capital (ou “CVC”).

Contextualizando, o Corporate Venture é uma estratégia de investimentos que grandes empresas adotam para comprar pequenas – às vezes não tão pequenas – empresas inovadoras, startups ou adquirir inovação de alguma forma externa. O fato de ser uma busca externa diferencia, simplificadamente, o conceito de Corporate Venture, do conceito de Pesquisa e Desenvolvimento (“P&D”) para inovar.

As grandes e médias empresas, as quais chamaremos aqui de “empresas-mães”, criam divisões, com time específico, orçamento e outros componentes ligados às empresas para fazer investimentos sistemáticos em participações minoritárias em startups inovadoras ou até mesmo aquisições totais destas empresas.

O “CVC” tornou-se uma forma comum de investimento corporativo adotado por centenas de empresas e emergiu como uma importante fonte de capital empresarial. A natureza da CVC como investimento corporativo a distingue do modelo tradicional de “Venture Capital” (“VC”) que busca retorno financeiro puro. Uma empresa que deseja maximizar o valor para o acionista se concentra não apenas no retorno financeiro, mas também no valor estratégico que os investimentos com CVC podem agregar à empresa-mãe.

Exemplos conhecidos de empresas que usam a estratégia, são:

– Apple: A empresa americana de tecnologia, com estimados 267,7 bilhões de dólares de receita anual, investiu, de 2019 para cá, em 12 empresas diversas, sendo um exemplo de aquisição deste ano de 2020 a “Xnora.AI”, empresa de inteligência artificial e Internet das Coisas (IoT);

– Google LLC: Com estimados 160,7 bilhões de dólares de receita anual, a empresa investiu, de 2019 para cá, em 11 empresas diversas, sendo alguns exemplos de aquisições a Californiana “FitBit”, em novembro de 2019, por 2,6 bilhões de dólares e a irlandesa “Pointy”, em janeiro de 2020, por 163 milhões de dólares.

No Brasil, empresas como Magazine Luiza, TOTVS, Embraer, Bradesco, BRF, Algar, Raízen, Vale, Votorantim, dentre outras, têm programas estruturados para o fomento de startups que tenham sinergia com os modelos de negócio ou desafios das empresas.

Naturalmente, surge a pergunta: qual é o papel estratégico dos fundos de CVC nos esforços de inovação das empresas estabelecidas?

Empiricamente, trazemos duas visões diferentes: Por um lado, as empresas podem fazer investimentos no CVC com a intenção de “corrigir os pontos fracos”, ou seja, os CVCs são usados ​​por empresas com inovação interna deteriorada para se expor a novas tecnologias e recuperar sua vantagem competitiva de inovação. As empresas, neste caso, dedicam recursos à aquisição de conhecimento externo usando a estratégia de CVC para aprender com as startups, adquirindo práticas e informações que fortalecem a inovação interna, criando um legado de ativos e capital intelectual para a empresa-mãe.

Por outro lado, as empresas podem também fazer investimentos via CVC para “desenvolver pontos fortes”, ou seja, as principais empresas de tecnologia usam suas informações vantajosas para identificar promessas de startups inovadoras e essas novas tecnologias complementam a inovação interna, fortalecendo seu poder de mercado. Algumas pesquisas mostram que empresas que têm Pesquisa e Desenvolvimento interno mais fortes estão mais dispostas a expandir seus limites porque são melhores em colher sinergias de inovação.

Os ingressos de empresa neste cenário de CVC por vezes são causalmente motivados por deteriorações da inovação, ou a chamada Obsolescência do Conhecimento, que faz as empresas-mãe iniciarem o processo de CVC estrategicamente com a intenção de corrigir deficiências.

Sem “covidizar” o tema, o fato é que crises, de forma geral, aceleram essa decisão de grandes empresas na busca de soluções inovadoras para manter a performance ou por sobrevivência.

Outra questão pode vir à tona: “Como minha pequena empresa de tecnologia pode buscar estes recursos das grandes empresas?”

Uma visão não tão clássica para estudos das teses de investimento das empresas que adotam o CVC, argumenta que é provável que os principais investimentos são feitos em empresas que inovam nas classes tecnológicas enfraquecidas das empresas-mãe. Para extrair essa informação, as pequenas empresas que buscam esse capital das grandes corporações, podem, por exemplo, fazer uma comparação detalhada entre os portfólios de patentes das empresas-mãe e das soluções que a startup pode oferecer para gerar valor ao investimento. Os investimentos são mais prováveis de ocorrer para startups que podem oferecer mais conhecimentos complementares de inovação em áreas onde a empresa-mãe está atrasada ou obsoleta.

Outro aspecto importante a ser considerado por quem busca capital de CVC, é que estes “fundos” das grandes empresas não são limitados pela vida útil típica que pode ser observada em um fundo de Venture Capital tradicional, usualmente de 10 a 12 anos.

Os fundos de CVC parecem ter divisões temporárias com ciclos de vida mais curtos e não uniformes. A duração média do ciclo de vida do CVC é de cerca de quatro anos, porém, não há uniformidade neste dado.

O tempo de vida de um fundo de CVC está intimamente relacionado à dinâmica de inovação da empresa-mãe e à capacidade de recuperação desta empresa em relação às fraquezas internas da inovação. O poder de permanência e a decisão de rescisão não são explicados nem pelas ofertas públicas iniciais (IPO) nem pelas métricas de saída de aquisição que são usadas para julgar os fundos de Venture Capital tradicionais, orientados por retorno financeiro ou por mudanças na governança.

Sob o prisma de riscos, vários ângulos podem ser analisados, porém, de forma geral, as empresas precisam se preparar para a chamada Integração Pós-Aquisição (“Post-Merger Integration” ou “PMI”). Isto porque cultura empresarial, valores e diretrizes de negócio podem gerar um risco abissal para empresa-mãe e empresa investida. Problemas de confidencialidade de informações, concorrência, aliciamento e até mesmo o estrangulamento ou limitação mortal da startup investida, são alguns poucos exemplos.

Assim, uma abordagem de tópicos de post-merger integration na fase de design jurídico e societário das operações, são primordiais para o sucesso da relação de investimento da grande empresa em pequenas empresas de tecnologia.

Por fim, pode-se afirmar que os fundos de Corporate Venture Capital (CVC”) como divisões corporativas estratégicas de grandes empresas, podem ser essenciais, se corretamente utilizados, para ​​responderem a choques negativos de inovação, corrigir suas fraquezas e recuperar performance, bem como, no apoio às pequenas empresas que mais sofrem para a retomada em épocas turbulentas.

*Rafael Gonçalves de Albuquerque é sócio da M.A. Capital Family Office e advogado sócio do FCM Law

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