Como gerar crianças seguras emocionalmente?

Como gerar crianças seguras emocionalmente?

Isabelle Ludovico da Silva*

11 de outubro de 2020 | 07h30

Isabelle Ludovico. FOTO: DIVULGAÇÃO

Muitas pessoas acreditam que as crianças estarão seguras se forem constantemente elogiadas. Trata-se de uma reação à educação das gerações anteriores que foi geralmente muito rígida. Educar era sinônimo de corrigir e exigir. Os pais eram especialistas em cobrar e dar bronca. Se o filho tirava oito na prova era criticado por não ter tirado dez. Todos os pais querem secretamente que seus filhos sejam extraordinários, que se destaquem por sua beleza, inteligência, etc. No entanto, esta exigência produziu o efeito inverso. O filho sentia que nunca iria conseguir preencher a expectativa dos pais e esta frustração o levava ao desânimo e à desistência.

Hoje, muitos pais querem fazer o contrário: tendem a superproteger os filhos e enaltecer exageradamente tudo o que fazem. A criança mimada se torna incapaz de lidar com dificuldades e com frustração. A verdade está sempre no equilibro. É importante elogiar mais que repreender, mas elogiar o esforço mais que o resultado. O foco exagerado no desempenho torna a criança insegura. Ela sente-se amada quando é acolhida nas suas falhas. Ela torna-se segura quando percebe que o afeto dos pais não depende de seus sucessos e não diminui com seus fracassos. É assim que Deus lida conosco. É Seu amor incondicional que nos capacita a reconhecer os nossos erros e enxergá-los como oportunidade de aprendizagem.

Mas o desempenho não é a fonte principal de segurança. A criança sente-se segura se estiver orbitando em volta de um núcleo sólido formado por pai e mãe. O casal é a base da família. O vínculo forte entre marido e mulher permite construir um ninho aconchegante para os filhos, e deixá-los livres de seguir o seu caminho. Quando o casal está desajustado, os filhos podem assumir o papel de manter os pais unidos, sabotando a sua própria infância. Eles podem assumir um papel parental, tentando suprir as carências afetivas dos pais. Eles também ficam dilacerados por um conflito de lealdade quando são solicitados a tomar partido de um contra o outro. É uma violência, pois eles precisam dos dois e não deveriam ter que escolher.

Vivemos numa sociedade que prioriza o ter e o fazer sobre o ser. Com isto, os pais tendem a priorizar sua carreira profissional e deixar os filhos aos cuidados de terceiros ou do tablet. A pandemia obrigou a passar mais tempo em família, mas com as exigências do trabalho e estudo via internet. Esta sobrecarga e as privações de encontros e passeios foram um teste. Algumas famílias conseguiram aproximar-se e descobrir o prazer da convivência enquanto outras ficaram tensionadas e os conflitos abafados ressurgiram com mais força.

Esta situação é oportunidade de rever as prioridades e resgatar o vínculo que gerou a família. Muita conversa para compartilhar emoções em vez de acusações, desenvolver tolerância e flexibilidade, priorizar tempo de qualidade, perceber a linguagem afetiva do outro e expressar este afeto são estratégias para renovar o amor. Amar não é uma emoção incontrolável como a paixão, é uma escolha, que se nutre de atitudes e ações intencionais. Podemos escolher abrir o coração para o outro e cultivar o amor. É mais fácil quando sabemos nos abastecer do amor incondicional de Deus, que nos perdoa e nos capacita a perdoar.

Somos corresponsáveis pela relação que construímos. Em vez de culpar o outro, precisamos identificar a nossa parte. Não podemos mudar o outro, mas quando mudamos, a relação muda. Os conflitos são normais. É importante que os filhos presenciem e aprendem a lidar com eles na base do diálogo e da reconciliação. Só podemos ensinar aquilo que vivemos. É a coerência entre o discurso e a prática que gera segurança nos filhos.

A família é um sistema dinâmico. Cada etapa traz novos desafios e requer novas estratégias e competências. Quanto mais sólido o ninho, o acolhimento, mais podemos voar, confiantes nas nossas próprias asas, só cabe a nós dar um impulso (amar), uma direção e soltar para que possam realizar a sua vocação.

*Isabelle Ludovico da Silva, psicóloga com especialização em Terapia Familiar Sistêmica e colaboradora no livro Formação Espiritual (Mundo Cristão)

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