Como está sendo desenvolvida a CoronaVac, a vacina chinesa contra o coronavírus

Como está sendo desenvolvida a CoronaVac, a vacina chinesa contra o coronavírus

Denisar Palmito dos Santos*

12 de dezembro de 2020 | 06h00

Denisar Palmito dos Santos. FOTO: DIVULGAÇÃO

A pandemia causada pelo corona vírus (SARS-CoV-2 – severe acute respiratory syndrome coronavirus 2) provocou em nosso país, até o começo de outubro de 2020, mais de 170 mil mortes, além de quase cinco milhões de casos. Neste contexto, há muita ansiedade pela chamada cura ou prevenção da doença e as vacinas são a grande esperança para os próximos meses. No Brasil, há quatro vacinas na terceira e última fase de testes. São elas: a de Oxford, do Reino Unido; a da Sinovac, da China; a da Biontech e Pfizer, dos Estados Unidos e Alemanha; e a da Janssen, do grupo Johnson & Johnson, da Bélgica e Estados Unidos.

Neste contexto, a candidata chinesa é uma vacina com o SARS-CoV-2 inativado, com hidróxido de alumínio como adjuvante, em um ensaio randomizado, duplo-cego, controlado por placebo para avaliar a dose ideal, imunogenicidade e segurança da CoronaVac…Calma! Vamos aos poucos entender que é cada uma dessas palavras estranhas.

Inicialmente, vamos compreender como eles inativaram o vírus. O vírus SARS-CoV-2 foi cultivado em laboratório dentro de células específicas chamadas Vero (de rim de macaco verde da África). Nelas, os vírus se replicam, ou seja, aumentam a sua quantidade. Tudo isso foi realizado em um laboratório extremamente equipado para evitar a contaminação dos cientistas. Na imagem abaixo, você verá como os cientistas estavam protegidos, e nela, eles estão coletando os suplementos para que as células Vero pudessem se manter vivas no meio de cultura.

Vamos seguir com a nossa explicação. Depois que o vírus cresceu dentro dessas células ele foi coletado delas e inativado. Essa inativação foi realizada através de um reagente chamado betapropiolactona, sabe o que essa substância faz com o vírus? A chamada “inativação química”, ou seja, o vírus não vai mais causar infecção porque ele está inativo. Como essa substância usada para inativar é tóxica para os animais e seres humanos, é necessário que uma limpeza seja feita para retirá-la e fique somente o vírus, esse processo é chamado de purificação.

Agora nós já sabemos como o vírus foi obtido, inativado e purificado! Vamos para a próxima etapa? O material obtido a partir deste passo foi então adsorvido em hidróxido de alumínio e solubilizado em solução salina gerando o produto final. O hidróxido de alumínio presente em algumas vacinas, serve para aumentar a resposta de imunização e certas vacinas precisam dele para garantir a sua eficiência. Ou seja, ele fará com que as nossas células de defesa respondam ao vírus de forma mais efetiva.

Você já tomou vacinas com esses adjuvantes, são basicamente aquelas contra difteria, tétano, coqueluche e hepatites A e B, uma vez que, sozinhas, essas vacinas não eram suficientemente eficientes e os compostos de alumínio são adjuvantes comumente utilizados para esse reforço de ação, garantindo a eficiência. Já a solução salina é o meio onde esses materiais ficarão suspensos, por exemplo, quando você vai receber um medicamento na veia, ele é diluído na bolsa de soro fisiológico para ser aplicado, entende? É essa a função da solução salina nesta vacina, ser o meio, para facilitar a aplicação.

O próximo passo foi a determinação da dose da vacina, e eles estipularam as dosagens de 3 μg/0,5 mL e 6 μg /0,5mL. Em estudos científicos, nós sempre comparamos um grupo que recebe o tratamento com outro grupo que não recebe o tratamento, porque queremos ver se o novo produto realmente funciona. Assim, o grupo que não recebeu essa vacina, recebeu o tão famoso placebo, que basicamente era o hidróxido de alumínio na solução salina sem o vírus. A administração, seja da vacina para o grupo tratado ou do placebo para o grupo não tratado, foi intramuscular. Você já recebeu alguma vacina desta forma, no seu braço ou no bumbum.

Mas, essa aplicação foi em humanos?? Não, não pode! é proibido usarmos seres humanos logo no começo de um estudo experimental deste tipo. Por isso, foram usados camundongos, ratos e macacos! Eu sei, eu também tenho pena dos bichinhos, mas é por um bem maior e, infelizmente, não há outra alternativa. Mas a utilização de animais em pesquisa é uma outra discussão, para outro texto.

Nos macacos, dois grupos com quatro animais receberam três doses iguais da vacina, com intervalos de sete dias, e é claro, os grupos não tratados receberam o placebo. Depois da terceira dose, os pesquisadores infectaram os dois grupos vacinados com o SARS-CoV-2, para verificarem como eles iriam responder à infecção. De acordo com texto presente no site do Instituto Butantan, nos macacos infectados houve proteção contra o desenvolvimento da COVID-19, essa proteção gerada foi através da produção de anticorpos que neutralizam o vírus, e anticorpos que se ligam à proteínas do coronavírus, em níveis similares àqueles medidos em humanos infectados, além da indução de células importantes para a defesa imunológica.

E quando será a aplicação em humanos, agora que foi verificado que em macacos, ratos e camundongos a vacina foi efetiva? Já está ocorrendo desde Julho, é a chamada fase 3, onde humanos são testados. De acordo com o site Agência Brasil, em estudo feito na China com 50.027 voluntários chineses, foi observado 5,36% das pessoas vacinadas apresentaram efeitos colaterais, todos sem gravidade: dor no local da aplicação (caso constatado em 3,08% dos voluntários), fadiga (1,53%) e febre leve (0,21%). Efeitos um pouco mais graves foram observados em 0,03% dos voluntários, tais como perda de apetite, dor de cabeça, fadiga e febre.

Agora, vamos entender as duas últimas palavras estranhas citadas acima: randomizado e duplo-cego. Na ciência, um ensaio clínico randomizado é um tipo de estudo em que se parte da causa em direção ao efeito, ou seja, a vacina será aplicada e veremos se ela funciona. Os participantes são divididos, aleatoriamente, em dois grupos: o grupo tratado, que receberá a vacina e o grupo dos controles, que receberá o placedo. Essa alocação aleatória tem como principal finalidade tornar os dois grupos semelhantes entre si, e além do mais, é importante para que o pesquisador não influencie no resultado colocando um grupo muito diferente do outro. Por exemplo, se ficassem somente idosos em um grupo e pessoas mais jovens no outro, você acharia isso justo? Por isso que essa divisão tem que ser aleatória.

Por fim, o duplo-cego ocorre quando a pessoa que participa não sabe se está recebendo a vacina ou o placebo, e mais! O próprio pesquisador também não sabe! Por isso se chama duplo-cego. Somente no final, após a coleta dos resultados de todos os participantes, é que o pesquisador e os participantes vão saber quem recebeu e quem não recebeu a vacina. Mas por quê aplica-se o duplo cego? Esses ensaios são empregadas sempre que o resultado de um experimento pode depender da vontade do experimentador. Normalmente, essa metodologia é fundamental para sabermos se um determinado tratamento (ou vacina) tem realmente efeito terapêutico ou não. Logo, o resultado não é influenciado nem pelo pesquisador, nem pelo paciente.

No Brasil, um total de 9 mil, já receberam a primeira dose da vacina chinesa, alguns já receberam até mesmo a segunda dose. Todos esses voluntários são profissionais de saúde. Mas em humanos, terá os mesmos resultados que nos animais? Essas são cenas dos próximos capítulos que estão agendadas para o mês de janeiro! Pode ficar traquilo/tranquila que iremos escrever um texto, “parte 2”, quando esses resultados forem divulgados!

*Denisar Palmito dos Santos, professor do Centro Universitário UniFG, farmacêutico, mestre e doutor em Ciências Fisiológicas pela Universidade Federal da Bahia

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