Como é no micro é no macro: Dia da Terra 2021

Como é no micro é no macro: Dia da Terra 2021

Duda Alcantara*

23 de abril de 2021 | 16h55

Duda Alcantara. FOTO: DIVULGAÇÃO

Apesar de Elon Musk querer ocupar Marte (e justamente hoje terem descoberto oxigênio por lá) eu quero te contar uma coisa bem óbvia: Não Existe Planeta B.

Warren Buffet, um dos maiores bilionários do mundo, trouxe em seu documentário, Como ser Warren Buffett (2017), uma simples e genial comparação, questiona como seria se alguém te desse um carro e dissesse que esse é o único carro que você pode ter pelo resto da sua vida, como você cuidaria desse carro? Com muito cuidado e a maior dedicação possível?

Pois é, isso na verdade aconteceu e se chama corpo humano, você terá um só pelo resto da vida… Mesmo assim, como nós o tratamos?

O mesmo acontece com a Terra. Não sei se alguém te falou mas, lá vai o óbvio novamente, a Terra é a nossa maior morada.

Se continuarmos desmatando as florestas, o solo, rios e ar serão cada vez mais empobrecidos. Se produzirmos mais e mais CO2 acelerando o aquecimento, doenças transmitidas por insetos por exemplo irão aumentar exponencialmente. Sabemos que a própria pandemia é reflexo da intervenção do homem no reino animal. Se não cuidarmos dos nossos resíduos adequadamente, com a velha máxima de reduzir, reutilizar e reciclar, estaremos vivendo num mundo como o Wall E da Pixar em algumas décadas. Se asfaltarmos tudo teremos problemas de drenagem de chuva e alagamento.

Somos os animais que pior cuidamos de nós mesmos, eu pelo menos nunca ouvi falar de outro mamífero que morreu de gordura no coração ou excesso de açúcar e diabetes – fãs do Discovery Channel me corrijam se estiver errada – mas para além dos seres humanos os únicos seres vivos que sofrem pela falta de autocuidado são os que vivem sob os cuidados dos seres humanos, como animais de estimação. Somos também os animais que deixam as piores pegadas na Terra… como isso faz você se sentir?

Todas essas (e muitas outras) coisas estão conectadas. Como é no micro, é no macro. Você, seu condomínio, sua rua, sua cidade, o mundo. Salvar a Terra é algo grande demais, mas você pode fazer mais impacto do que imagina. Suas escolhas diárias, o que você consome de alimentos e informações, contribuem de forma sistêmica para o todo. Para qual todo você quer contribuir?

Vejo cada dia mais movimentos empresariais, como Sistema B, ESG Environment Social Governance e Negócios Sociais, questionarem seus impactos no mundo. Lucro é uma régua muito limitada, uma conta entre o retorno positivo e os gastos e taxas que este exigiu, mas onde entra a conta das externalidades? Aquilo que é custo mas envolve terceiros e não os envolvidos na transação, como por exemplos a poluição do ar e da água, o desmatamento, a saúde dos seres humanos e do planeta. Não existe mais falarmos de resultados de uma empresa sem realizar um balanço sistêmico que considere o impacto. Empresas que valorizam o impacto positivo e contribuem para o planeta e a vida dos seres vivos definitivamente não estão no mesmo patamar das empresas que fazem o oposto – e nem deveriam ser tratadas como tal.

Daniel Lubetzky, bem sucedido empresário norte americano que busca desenvolver seus negócios sob uma visão de sustentabilidade, foi questionado se são os exigentes clientes que fazem com que ele busque aprimorar cada vez mais a veia social da empresa e ele respondeu que não, claro os clientes ajudam, mas o que fará cada dia mais as empresas trabalharem dessa forma serão os funcionários. Valorizamos cada dia mais a união entre trabalho e propósito. A revista Época Negócios trouxe esse mês 100 pessoas que estão inovando na questão climática no mundo todo e 80% das biografias tem algo como “… para mim não fazia sentido então sai e fui empreender…”. Já somos mais de uma geração que se importa genuinamente com a sustentabilidade e equilíbrio das nossas ações, a regeneração já começou. Buscamos novas práticas para um futuro diferente. Para um futuro para todos.

É preciso chamar atenção que os efeitos colaterais do desequilíbrio da Terra afetam esse “todos” de maneira bem diferente, primeiro e com mais intensidade os mais pobres e vulneráveis. Aqueles que não têm moradia adequada sentem o efeito das mudanças climáticas, doenças, falta de segurança alimentar e muitos outros problemas, aqueles que menos contribuem para o consumo desenfreado e menos se beneficiam dos lucros de destruidoras multinacionais são os que primeiro sofrem com tudo isso. Olha o tamanho da injustiça que estamos causando.

Hoje o aviso de fim do mundo toca em agosto, é no oitavo mês do ano que está a marca do dia que consumimos todos os recursos que a Terra é capaz de regenerar em um ano, ou seja, vivemos 1/3 do ano no negativo. Isso acontece porque nós (poucos de nós) estamos consumindo o planeta mais rápido do que ele consegue se recuperar.

Acordos internacionais como o Protocolo de Kyoto, Acordo de Paris e até o ambicioso (e necessário) anúncio do presidente nos Estados Unidos Joe Biden na Cúpula do Clima de reduzir 50% da emissão de gases, são muito importantes, mas vejo que o principal acordo que precisa ser feito é o nosso com a nossa consciência. Precisamos de uma mudança cultural. Como indivíduos somos mais responsáveis pela transformação do que imaginamos, e certamente mais responsáveis pelo impacto do que gostaríamos.

Como você vive a sua vida? Se todos vivessem da mesma forma, como seria?

Se você não tem ideia por onde começar a responder essa pergunta, faça a sua Pegada Ecológica, veja quantos planetas seriam necessários no mundo se todos vivessem como você e reveja seu modo de vida pois lembre-se de que Não Existe Planeta B.

*Duda Alcantara é arquiteta urbanista, líder Global Shaper e mobilizadora do Amazon Investor Coalition

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