Como é definida a remuneração de um alto executivo

Ronald Bozza*

24 de fevereiro de 2021 | 08h55

O noticiário deste início de semana teve como destaque a remuneração paga pela Petrobras ao seu ex-presidente Roberto Castello Branco. Polêmica à parte, para poder opinar sem cometer injustiças é preciso compreender como o alto escalão de uma grande corporação de capital aberto é remunerado.

Administrar uma empresa de atuação internacional, com dezenas ou centenas de milhares de empregados e relações com os ambientes macroeconômicos dos mais diferentes países é uma tarefa complexa. Poucos executivos são capazes de assumir tal responsabilidade. Por essa razão, presidentes e diretores dessas empresas recebem salários e bonificações, considerados de alto valor, mas que condizem com o desafio assumido. É até uma forma de convencê-los a atuar pela companhia.

A ideia de que o próprio executivo tem poder para definir seu próprio salário é errada. Companhias abertas do porte da Petrobras contam com um Conselho de Administração, que é o responsável por definir o tipo de remuneração e os benefícios que os altos executivos irão receber. Além disso as Assembleias Gerais também são responsáveis por aprovar e anuir tais políticas salariais. Globalmente, essas grandes corporações costumam adotar quatro tipos de remuneração, que são aplicadas conforme a política da empresa.

A primeira, comum a todas, é o salário base (SB). Todo profissional recebe um salário fixo dentro de uma empresa, cujo valor corresponde ao cargo assumido. Há um segundo tipo de remuneração chamado de total cash ou total em dinheiro (TD) que é todo o pacote que ele recebe em dinheiro. Inclui, além do salário, participação nos lucros e resultados, incentivos de curto prazo, que é um bônus, gratificações, prêmios, entre outros.

O terceiro tipo é chamado de RT1 (remuneração total 1), que adiciona, além do que ele recebe em dinheiro (SB + TD), todos os benefícios que um executivo desse porte possa receber. Estão nesta lista a oferta de um carro corporativo, um motorista particular, talvez um segurança. Nesse nível, em algumas corporações é oferecido um segundo carro, para a esposa e uso da família. E, em muitos casos, com motorista. O executivo conta também com previdência privada, plano médico de alto nível e internacional, check up em hospitais de 1ª linha, seguro de vida. Considera-se ainda a possibilidade de o executivo receber ajuda moradia (house allowence) caso ele não resida na cidade onde está a sede da empresa. Enfim, uma série de benefícios e regalias que entram como remuneração indireta (despesa operacional), sem incorporar os encargos sociais ou verbas rescisórias.

A última remuneração é o RT2 (remuneração total 2), que nada mais é que um incentivo de longo prazo que o executivo realiza passado determinados períodos (vesting). Esta forma de remuneração tem por objetivo a atração e retenção de executivos de alto escalão. Ela engloba tudo o que foi citado anteriormente mais ações (ex.: Stock Options, Phantom Stock, Performance Share, Bônus Diferido, Restricited Options, entre outros modelos) da companhia para que o executivo possa realizar lucro com o papel de acordo com o modelo ofertado pela organização. Como foi dito no início, tudo isso determinado pelo Conselho de Administração que se apoia em informações precisas de mercado, buscando conhecer as melhores práticas tanto no Brasil quanto no exterior.

Em suma, é assim que as grandes empresas globais administram a remuneração de seus principais executivos. Na Petrobras não é diferente. Os valores de remuneração do ex-presidente da empresa divulgados pela imprensa talvez choquem as pessoas por estarem muito acima dos ganhos salariais da maioria dos brasileiros. Mas no universo dos altos executivos, os valores citados estão em linha com o mercado em termos de números de salários para remuneração variável, porém relativamente abaixo em termos de salário base do que praticam algumas das maiores corporações mundiais.

*Ronald Bozza é sócio da BR Rating

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