Como driblar os impactos da pandemia na alfabetização das crianças em 2022

Como driblar os impactos da pandemia na alfabetização das crianças em 2022

Márcia Regina Fonseca*

13 de novembro de 2021 | 06h30

FOTO: FREEPIK IMAGES

Os brasileiros vivem um mix de alívio e emoção com o avanço da vacina. Com a expectativa de ter 100% da população vacinada ainda nos primeiros meses de 2022, a tendência é que as escolas e faculdades voltem à normalidade com as aulas totalmente presenciais diariamente logo no primeiro bimestre.

Diante desta perspectiva, um sentimento de preocupação também paira sobre os pais em relação aos seus filhos, mais especificamente os pequenos que ingressaram ou ingressariam no ensino básico em 2020/2021, mas devido suas condições sociais, a pandemia impossibilitou esse importante processo. O motivo se deu por conta do acesso precário à internet e a baixa qualidade do ensino, acarretando dificuldades no processo de alfabetização e aprendizado.

Toda essa atmosfera é pauta de diversas discussões entre pais, professores, diretores e Estado, a fim de encontrar soluções para poder reverter esse quadro. Dados divulgados em abril deste ano, pela UNICEF e Cenpec Educação, apontaram que a faixa etária correspondente ao ensino fundamental 1 foi a mais afetada pela exclusão escolar durante a pandemia. A pesquisa mostra que das mais de 5 milhões de crianças e adolescentes que estavam sem acesso à educação no Brasil em novembro de 2020, cerca de 40% tinham entre 6 e 10 anos de idade. Enquanto os pequenos entre 5 e 10 anos ingressos no ensino fundamental 1 remotamente, foram um grupo particularmente sensível às dificuldades do ensino à distância na pandemia.

Sabemos que houve um prejuízo grandioso na alfabetização dessas crianças, principalmente nos processos de escrita, leitura e habilidades motoras. Além de prejuízos psicossociais como dificuldades de interagir e socializar-se ou de praticar atividades ligadas a coordenação motoro a psicomotricidade.

Ao longo dos anos, as crianças utilizam o movimento e a linguagem corporal para interagir e explorar o mundo. Nesse contexto, aprendem por meio das suas vivências, ou seja, experiências. Sendo assim, as ações físicas vão muito além apenas de comportamentos musculares. Essas ações, sinapses neurais estão intimamente ligadas ao desenvolvimento cerebral. Por isso, as crianças devem ser estimuladas a brincar e praticar atividades fora do contexto da escola, com suas famílias. Verificamos que o processo da aprendizagem, da alfabetização e da escrita acontece nas primeiras vivências, dentro de casa.

No contexto de pandemia, vivenciado por muitas crianças, elas ficaram com prejuízos psicopedagógicos, ligados diretamente ao processo da escrita e ao desenvolvimento da leitura. Este se tornou um grande desafio para professores e para a própria família, e para driblar esses impactos, uma união entre esses dois grupos é de grande valia para evoluirmos.

Essa força tarefa se dá desde a reorganização na rotina dos pequenos, conversas diárias para interagir, aconselhar e tirar dúvidas sobre a atual realidade, além de promover situações prazerosas que venham despertar interesse da criança em querer aprender. Enquanto família somos a principal escola para o estímulo e interesse à leitura e aos estudos, onde temos o papel de protagonistas durante toda  aprendizagem deles, assim como na escola. Por exemplo, as habilidades de coordenação motora fina, noção de lateralidade, equilíbrio e a aquisição da aprendizagem como um todo são desenvolvidas neste contexto.

Em algumas situações de orientação psicopedagógica com a família, procuro despertar que o papel da família é de provocar a aprendizagem de uma forma prazerosa e simples. A família precisa acompanhar e participar deste contexto de retomada oferecendo leituras, brincadeiras e vivências de aprendizagem.

As famílias devem entender que esta ação de explorar a criança e todos os seus sentidos é uma ação educativa integrada e fundamentada na comunicação, na linguagem e nos movimentos naturais conscientes e espontâneos da criança. Esta participação da família com a escola tem como finalidade normalizar e aperfeiçoar a conduta global do ser humano utilizando as ações cognitivas, afetivas, e de apoio às experiências sensório-motoras.

Segundo Jean Piaget, “A primeira linguagem que a criança compreende é a linguagem do corpo, a linguagem da ação”. É com base em vários pensadores, que professores e pais devem oferecer, provocar e proporcionar a aquisição desta aprendizagem através de suas vivências no cotidiano.

Em minha abordagem com meus alunos acredito e compartilho, que o conhecimento a acomodação da aprendizagem é provocado e permeado pela afetividade (emoções). Segundo Henri Wallon, (1879-1962) teórico e psicólogo que compreende a psicogenética, cujo, a criança possui características e é permeado por seus aspectos sociais, afetivos, intelectuais e biológicos.

O educador ou a família, ao transferir, provocar o conhecimento, deve ter em mente a faixa etária da criança, de acordo com a maturidade de cada uma. E para que haja o interesse, precisamos criar vínculo com este indivíduo, como se criássemos uma ponte de conexão a tal conhecimento e a sua apropriação. Se tratando da educação infantil, berçário e Fundamental 1, devemos estimular e oferecer diversos contextos de conhecimento agregado por aulas lúdicas, jogos, brincadeiras, leituras e vivências com vários ambientes que despertem e favoreçam o aprender e o reaprender.

Para os pais e educadores envolvidos neste processo, devemos estar prontos para os desafios a serem permeados em novo olhar pós pandemia, para a educação. E um novo significado para o processo de alfabetização e letramento dessas crianças. Nós educadores, precisamos entender que cada aluno é único, mas que todos são passíveis de desenvolver a aquisição e acomodação da aprendizagem, estar dispostos a provocar a curiosidade e formar cidadãos críticos, autônomos e questionadores.

A família tem um papel de primeira escola na vida deste indivíduo e deixará referências para o desenvolver, e se interessar pelo aprender pela vida toda. A escola e a família devem trabalhar juntas e alinhadas proporcionando o aprender, reaprender e principalmente o brincar. Nossas crianças precisam ser assistidas presencialmente pelos pais e educadores.

Algumas dicas de como estimular a aprendizagem:

● Brincar de descobrir as letras dos objetos da sala ou cozinha. Enfatizando as letras iniciais e a formação silábica e pré-silábica;
● Trabalhar a noção de quantidade, com a elaboração de uma receita com a família;
● A viagem de férias ou percurso até a escola a noção de matemática e linguagem;
● Brincar de amarelinha, com a exploração de números e letras do alfabeto. Oferecer jogos e quebra cabeças;
● Brincar de esconde – esconde ou oferecer livros de adivinhas pertinentes a faixa etária de cada criança;
● Proporcionar ambiente favorável e estabelecer rotinas de estudo e horários com o sono;
● Trabalhar a entonação de voz na leitura com as crianças. Dando ênfase a situações da história narrada;
● Oferecer diversidade de materiais para escrita, como: carvão, giz, tinta, lápis e outros materiais com diferentes texturas;
● Brincar de ditado lúdico com as letras ou palavras

*Márcia Regina Fonseca, orientadora e psicopedagoga do Colégio Objetivo DF

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