Como curar um fanático

Como curar um fanático

José Renato Nalini*

03 de setembro de 2020 | 08h30

José Renato Nalini. FOTO: IARA MORSELLI/ESTADÃO

Este é o nome de um livro de Amós Oz, o famoso escritor nascido em Jerusalém e que propõe um compromisso para encerrar as cruentas desinteligências entre palestinos e israelenses. Mas o título é instigante para uma reflexão em torno ao fanatismo que prolifera em outros espaços.

O fanatismo é uma doença. Acomete aqueles que acreditam que o fim, qualquer que ele seja, justifica também a utilização de qualquer meio. É sugestivo examinar como é que os dicionaristas conceituam fanatismo: zelo religioso obsessivo, que pode levar a extremos de intolerância. O fanatismo pode anular a religião. Esta significa religar: não só a criatura com o Criador, mas as criaturas entre si. O fanático prefere matar aquele que crê em outro deus ou aquele que não crê. Isso é contra a espinha dorsal das Igrejas. Dilacera o mandamento basilar do cristianismo: ama o teu próximo como a ti mesmo.

Fanatismo é também facciosismo partidário, adesão cega a um sistema ou doutrina, dedicação excessiva a alguém ou algo. Esse algo pode ser um time de futebol. Em pleno século 21, continuamos a assistir a deploráveis espetáculos de assassinatos praticados por membros de uma torcida em relação a integrantes da torcida adversária.

O esporte não é uma atividade prazerosa, em regra suscetível de socializar, a fazer conviver, a trabalhar em equipe, a colaborar? Só o fanatismo pode convertê-lo no absurdo de um aparato mortífero.

Tão doente é o fanático, que ele chega a se considerar iluminado, alvo de inspiração ofertada por um espírito superior. O entusiasmo excessivo o priva de discernimento. Chega a romper laços afetivos sanguíneos e põe fim a amizades consolidadas. A exaltação é manifesto sintoma de uma devoção cega. Não é difícil que o fanático seja delirante. Nem é raro se torne furioso.

As causas do fanatismo são múltiplas. Um elemento comum é uma certa tendência psicótica. Alguém inseguro, que não confia em sua bússola interna, procura o refúgio de uma ideia-força a que possa aderir sem pensar. Liberado de qualquer pensamento depois dessa opção. Fortalece-se no vigor do movimento que lhe supre de segurança de que nunca foi provido. Fica dispensado de pensar por si. Passa a adotar, de forma automática e sem qualquer desvio, os mandamentos de sua opção.

Será que isso tem cura?

O romancista Amós Oz diz que sua infância em Jerusalém fez dele um especialista em fanatismo comparado. Identifica os portadores de um distúrbio mental e acredita que “o fanatismo é mais antigo que o islã, mais antigo que o cristianismo, mais antigo que o judaísmo, mais antigo que qualquer Estado ou qualquer governo, ou sistema político, mais antigo que qualquer ideologia ou crença no mundo. O fanatismo é, infelizmente, uma parte onipresente da natureza humana; um gene mau, se preferir”.

Raríssimos conseguem se curar da peste do fanatismo. Ainda não se descobriu vacina que imunize os espíritos fracos de se agarrarem a essa jangada tosca, da qual não conseguem sair, seja para uma embarcação mais potente, seja para atingir a terra firme.

Aquele que deixa a escuridão e se defronta com o sol da verdade – olha o mito da caverna de Platão – é acusado de traição. Para o fanático, diz Amós, “o traidor é aquele que muda, na visão daqueles que não conseguem mudar e não vão mudar e odeiam a mudança e não conseguem conceber transformações, exceto pelo fato de que eles querem sempre mudar você. Em outras palavras, aos olhos do fanático, é qualquer um que passa por uma mudança”.

Há quem vislumbre a possibilidade de mudar de barco, de reverter seu rumo. Porém ele se debate com a escolha difícil entre continuar fanático ou se tornar um traidor.

A alternativa, diz Amós, é mergulhar na literatura. Menciona Shakespeare, Gogol, Kafka, Faulkner. E o melhor remédio seria o humor. Ele nunca viu um fanático com senso de humor e também nunca assistiu uma pessoa bem humorada tornar-se fanática. A menos que também perdesse o senso de humor. Pois o fanatismo faz pessoas sarcásticas, irônicas, impiedosas e frias. Ao menos, é o que uma constatação empírica sugere. Os fanáticos na religião, na política e nos esportes são, acima de tudo, aquilo que o vulgo chama de “chatos”.

O gene do fanatismo está em todas as pessoas, potencialmente pronto a germinar. Mas existe uma esperança nessa parcial imunidade que resultaria de um determinado mergulho na literatura: é ler com voracidade e, o quanto possível, não perder a alegria de viver.

*José Renato Nalini é reitor da Uniregistral, docente da pós-graduação da Uninove e presidente da Academia Paulista de Letras – 2019-2020

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