Como a saúde bucal impactou na saúde mental dos indivíduos atingidos pelo rompimento da Barragem do Fundão

Como a saúde bucal impactou na saúde mental dos indivíduos atingidos pelo rompimento da Barragem do Fundão

Paula Mendes*

06 de dezembro de 2020 | 10h15

Paula Mendes. FOTO: ARQUIVO PESSOAL

Uma série de desastres de alto perfil aconteceram na última década, o que gerou um aumento na preocupação e conscientização da mídia e comunidades. Têm-se que, nos últimos dez anos, mais de 2,6 bilhões de pessoas se tornaram vítimas de desastres naturais entre inundações, furacões, ciclones, terremotos e tsunamis, que aconteceram, de formas distintas, em todos os sete continentes.

Os desastres tecnológicos tornaram-se predominantes no século XXI e produzem as evidências científicas sugerem uma sobreposição multidirecional entre saúde bucal, mental e geral podendo causar consequências negativas imediatas e a longo prazo. Acontece que os sobreviventes desses desastres podem ficar com a saúde vulnerável, uma vez que são submetidos a uma mudança súbita na realidade vivida, o que inclui infraestruturas sociais, políticas, econômicas e físicas.

De acordo com o Instituto Brasileiro do meio ambiente (IBAMA) e várias instituições internacionais, um dos desastres mais significativos do século XXI e o maior desastre ambiental do Brasil e que pode estar associado, por exemplo, às consequências negativas na saúde bucal e mental, aconteceu no dia 5 de novembro de 2015 na cidade de Mariana, Brasil. Por volta das 16h, a barragem de Fundão da mineradora Samarco, se rompeu, provocando o vazamento de 62 milhões de metros cúbicos de lama de rejeitos de minério, matando 19 pessoas (entre moradores e funcionários da empresa), destruindo centenas de imóveis e deixando inúmeras famílias desabrigadas.

O vazamento, considerado o maior de todos os tempos em volume de material despejado por barragens de rejeitos de mineração, provocou também a poluição do Rio Doce e danos ambientais que se estenderam aos estados do Espírito Santo e da Bahia (NEVES et al., 2018). Conforme apresentado em boletim da Defesa Civil de Minas Gerais, 35 municípios foram afetados pelo desastre tecnológico. Destes, um município decretou Estado de Calamidade Pública (ECP), dois decretaram Situação de Emergência (SE) e 32 receberam Decreto Estadual de Situação de Emergência. No subdistrito de Bento Rodrigues, além da grande quantidade de pessoas que perderam suas casas e outros bens materiais, os sobreviventes enfrentaram dificuldades relativas à falta de água, alojamento e incertezas jurídicas.

Dois anos depois do desastre de Mariana, foi realizado um estudo transversal com o objetivo investigar a prevalência de dor nos dentes e os fatores associados em sobreviventes de desastres. Os atingidos ainda continuavam em moradias temporárias e a percepção de coesão da comunidade permaneceu interrompida. As medidas legais e políticas tomadas para reparar os danos não foram eficientes para realocar os sujeitos em suas comunidades e restaurar os vínculos sociais rompidos.

A pesquisa consistiu em um questionário desenvolvido pelo Núcleo de Pesquisa em Vulnerabilidades e Saúde da UFMG, com questões envolvendo saúde mental e saúde bucal. Todos os indivíduos atingidos ou diretamente expostos ao desastre que se encaixassem nos critérios de inclusão foram convidados a participar do estudo, um total de 225 atingidos. Para avaliação dos participantes utilizamos instrumentos divididos em constructos individuais, relacionados ao evento, saúde mental, saúde bucal. Os dados coletados foram transmitidos via internet para um banco de dados instalado em um servidor que armazenou as informações e analisados por meio do software SPSS®.

O estudo incluiu 225 adultos, com a média de idade variando entre 18 a 90 anos. Dos sujeitos avaliados, 82,2% relataram presença de uma doença clínica atual, 28,9% tiveram o diagnóstico de transtorno depressivo maior, 32% foi encontrado o diagnóstico de transtorno de ansiedade generalizada. Além disso o transtorno de estresse pós traumático foi constatado em 12% desses indivíduos e o transtorno do uso de substâncias em 8%.

Em resumo, encontramos que os atingidos do desastre de Mariana apresentavam uma prevalência elevada de dor nos dentes quando comparados aos dados da população geral brasileira, e esse sintoma bucal se associava com a satisfação dentária, transtorno de ansiedade generalizada e suporte social.

É importante destacar três aspectos a partir de nosso dados: 1- sobreviventes de desastres podem sofrer impactos a médio e longo prazo na saúde bucal, 2- indivíduos atingidos por estressores em massa como desastres podem apresentar um associação entre saúde bucal e saúde mental, 3- políticas públicas orientadas a saúde de indivíduos após desastre devem incluir avaliação de saúde bucal a médio e longo prazos. Faz-se válido ressaltar que psiquiatras e dentistas devem conhecer essa sobreposição de sintomas e associação entre saúde bucal e saúde mental para assistência integral a essa população.

Estudos longitudinais são necessários para auxiliar na avaliação de políticas públicas em situações emergenciais de desastres e devem incluir avaliação da saúde bucal. Tais estudos também podem nos ajudar a esclarecer as associações observadas em nossos dados oriundos de um estudo transversal.

*Paula Mendes, professora do curso de odontologia do UniBH

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