Como a pandemia aproximou as empresas de seus colaboradores

Como a pandemia aproximou as empresas de seus colaboradores

Ricardo Ramos*

25 de agosto de 2020 | 03h00

Ricardo Ramos. FOTO: DIVULGAÇÃO

Com o afastamento social, o fechamento temporário de algumas empresas e a carga de trabalho transferida para dentro de casa, colaboradores e empresas tiveram que ajustar sua relação. Indicadores de performance medidos de forma isolada já não são mais suficientes para se chegar aos objetivos corporativos trimestrais ou anuais.

A preocupação em como cada colaborador está se adaptando para garantir sua performance agora é fundamental, e quando me refiro a “cada colaborador” é exatamente isso: as pessoas em suas casas possuem facilidades e dificuldades únicas e que precisam se adaptar à entrada das atividades no seu ambiente doméstico. Como tudo na vida, isso traz aspectos negativos e positivos.

Pais que só viam seus filhos acordados por apenas uma ou duas horas por dia, e famílias que apenas se reuniam aos finais de semana, agora têm o sabor do convívio diário. Cada membro dessa família agora faz parte do ambiente de trabalho e não é incomum assistirmos crianças entrando em reuniões virtuais, gatos passando em frente às câmeras e internet caindo de tempos em tempos ao longo de cada “webmeeting”.

O ambiente de trabalho foi forçadamente flexibilizado… está mais acolhedor, mais humano, mas isso não quer dizer menos estressante, pois estamos assistindo a um volume de reuniões e agendas tomadas como nunca antes… aquela conversa de corredor ou almoço em que colocávamos o papo em dia com nossos colegas de trabalho, agora virou uma reunião virtual e a maioria das pessoas ainda está atropelada por essa condição.

Diante dessa nova ordem, empresas de todos os portes investiram em estruturas e tecnologias de comunicação para buscar acolher e ao mesmo tempo se aproximar dos colaboradores, apesar do distanciamento social e do trabalho remoto. Sistemas de reunião virtual foram adquiridos, cadeiras, mesas e computadores enviados para a casa dos funcionários, as comunicações entre diretores e a mais baixa hierarquia operacional se multiplicaram e a saúde das pessoas foi monitorada de perto como nunca aconteceu antes.

A área de recursos humanos ganhou protagonismo, com isso os colaboradores ganharam protagonismo, e isso aconteceu por necessidade de manter as empresas viáveis e saudáveis. Sim, saudáveis, pois se o maior ativo das empresas são as pessoas, seus colaboradores precisam estar saudáveis!

Com o envelhecimento da população, as doenças crônicas não transmissíveis (como Diabetes, Hipertensão, DPOC e Depressão) vão progressivamente aumentando sua relevância e impacto social, e raros são os programas de saúde que de fato desaceleram essas doenças, que além de crônicas, são progressivas.

A condição de saúde dos colaboradores tem impacto direto na performance das empresas, de maneira sutil aparentemente, mas quando medimos o absenteísmo, o presenteísmo e os custos com benefício saúde, veremos números milionários que precisam de acompanhamento contínuo.

A nova situação da pandemia forçou empresas e colaboradores a se aproximarem por uma questão de sobrevivência natural… os colaboradores bastante abertos a se adaptarem à nova realidade profissional para manter a empresa viva e seus respectivos empregos, enquanto que a empresa se aproximou das pessoas para garantir sua sanidade e consequente performance, numa verdadeira simbiose provocada pela natureza (um vírus, o Covid-19).

Há mais de 20 anos, defendo o protagonismo de cada indivíduo na condução de sua saúde. Até então, eu tinha a nítida impressão de que a saúde das pessoas era preocupação de todos e de ninguém ao mesmo tempo. Por mais que o estado e a empresa garantam acesso à saúde, tanto a prevenção de doenças quanto a promoção de saúde sempre ficaram relegados a segundo plano. Por outro lado, eu percebia em muitas oportunidades que o indivíduo “terceirizava” o cuidado de sua saúde para um médico, um hospital ou mesmo a empresa em que trabalhava.

Chegou a hora de virarmos esse jogo. Chegou a hora de cada um de nós assumir seu papel no cuidado com sua saúde e aproveitarmos essa brecha cultural em que cada um de nós já é responsável pela sua máscara e seu álcool gel como medida sanitária básica, e extrapolar essa conduta para os outros (e mais antigos) cuidados com a saúde, como a alimentação, o sedentarismo e a saúde mental.

A mudança na forma de comunicação entre empresa e colaborador abriu uma oportunidade sem precedentes de fomentarmos a nova cultura do auto-cuidado e a cultura da prevenção em que o usuário está sempre no centro dos cuidados assistências, o que pode abrir um portal de possibilidades para melhorarmos o modelo assistencial, deixando ele mais acolhedor, mais ambulatorial e menos hospitalocêntrico.

Nesse momento, em que começamos a vislumbrar um retorno à normalidade em alguns meses, seja pela queda na curva de infectados, seja pela possibilidade de vacinação em massa, precisamos buscar oportunidades nos efeitos colaterais dessa pandemia mundial e acredito que a atenção primária, a prevenção e o protagonismo do indivíduo no cuidado da sua saúde podem sair fortalecidos desse período tão sombrio da história humana.

*Ricardo Ramos, presidente da Aliança para a Saúde Populacional (Asap) e VP da Funcional Health Tech

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