Como a pandemia afetou as relações entre os países

Como a pandemia afetou as relações entre os países

Cássio Faeddo*

25 de janeiro de 2021 | 11h00

Cássio Faeddo. FOTO: DIVULGAÇÃO

É importante, inicialmente, analisar como se encontrava o ambiente global nas relações internacionais um pouco antes da pandemia.

Certos compromissos internacionais firmados pelos EUA foram abandonados no mandato do presidente Trump, e de certa forma, em prejuízo de acordos internacionais, como o de Paris, por exemplo. Concessões de Trump à indústria poluente nos EUA demonstraram-se bem-sucedidas no que se refere ao crescimento econômico e empregos.

Até o início da pandemia o governo Trump era havido como virtualmente reeleito. A taxa de desemprego era de 3,5% no final de 2019; em dezembro de 2020, já com a pandemia e milhares de mortes, a taxa projetava-se entre 6,8% e 6,9%, ou seja, praticamente o dobro.

Já a China, em 2019, alcançava um PIB de 6,1%, e, em 2020, como um dos poucos países com crescimento de 2,3%, o pior em 44 anos.

A Europa estava às voltas com a saída do Reino Unido da União Europeia e lidava com questões relacionadas à extrema direita, refugiados, imigração e manutenção do status quo europeu dentro de padrões europeus de qualidade de vida.

Havia, ainda, a preocupação europeia com questões ambientais, estando Greta Thumberg em forte evidência em 2019, representando a preocupação de uma nova geração.

As transformações provocadas pela pandemia Estados nacionais estão ainda em curso. Todavia, a pandemia não é a única razão destas transformações; aliás, possivelmente, funcionou mais como agente acelerador destas transformações.

A busca pela vacina e o início da vacinação, descortinou o abismo intelectual, econômico e científico que separam os países entre desenvolvidos e subdesenvolvidos. Cremos que esse é um ponto importante.

Problemas globais relacionados à globalização, ultraliberalismo, questões identitárias e extremismo religioso já existiam.

Ilustramos: o conflito entre a identidade do norte americano médio, branco, cristão contra os outros (incluímos pretos, latinos, LGBTQ+ etc) já existia e está distante de uma solução, aliás, o conflito ganhou apenas maior visibilidade.

Devemos salientar que um dos cânones do direito norte-americano é o direito de propriedade, sendo este um dos princípios da república que vem desde a colonização. Logo, estamos nos referindo a propriedade material, imaterial e da cultura defendida pelo homem branco desde a conquista da terra. Não é tarefa fácil mudar costumes e princípios, mas é fácil alterar a lei, que, necessariamente, nem sempre é cumprida. Lembramos que falamos de um ambiente de precedentes, e estes são rígidos na forma.

Aí está uma das razões que fazem dos EUA um país em conflito, mesmo com Biden, que certamente atrapalhará um melhor posicionamento externo, especialmente em relação a China, uma vez que esta caminha a passos largos para liderança global.

A China, sob a vara do regime de partido único, ampliará sua teia comercial global, em especial na Eurásia e África, pulverizando um mais com outros parceiros sua dependência por commodities, sendo certo que a pandemia fragilizou os demais países. Por isso, possivelmente despertou-se uma reflexão sobre processos industriais globais e a dependência em face da China. Porém, ainda por um longo tempo, os países que se relacionam comercialmente com a China estarão dependentes dela.

Programas de desenvolvimento científico e tecnológico, bem como militar, estarão cada vez na pauta chinesa, evitando o risco de ameaças e derrotas como reveses sofridos em face do poder militar inglês nos séculos passados, em especial pela fraqueza da marinha chinesa. A China deverá reforçar suas posições visando garantir seus negócios e interesses. Não se tratará, como não se tratava, de alcançar posições de domínio militar fora de sua zona de interesse, mas de domínio econômico.

O conflito com a Inglaterra foi de fundo comercial; a China fez concessões à época, e não deve estar disposta a sofrer com a repetição de erro histórico. A China não se preocupava historicamente em agir muito além de sua vizinha no que se refere ao poderio militar.

Por seu turno, não cremos em um conflito entre EUA e China, mas uma acomodação realista nos moldes de suportarem-se mutuamente.

O Brasil teve pequena amostra decorrente de sua política externa desvairada nos episódios da importação de insumos para a vacina com Índia e China.  Há necessidade de retomada do equilíbrio e das tradições diplomáticas para futuro breve.

A dependência e pobreza do terceiro mundo se acentuará, com a possibilidade de um maior recrudescimento da intolerância religiosa e étnica. Muito possivelmente, os EUA concorrerão com o Brasil mais fortemente por venda de soja para a China, além de proteger seu mercado.

Países pobres com base em economia agrária e de commodities tendem a aprofundar sua dependência destes ativos nas relações entre os países. Isto porque o dinheiro escasso no momento imediato ao coronavírus fará com que os países façam primeiramente a gestão econômica e administrem seus próprios problemas. Isso não afasta investimentos fugazes em face de maior liquidez no mercado e juros pouco atraentes no mundo financeiro, mas não a ponto de impulsionar significativamente a economia de países pobres.

A pandemia reforçou também o modelo “teia de aranha” de poder, e muitas vozes não estatais defendem pautas diversas, afetando as decisões dos Estados de forma multilateral. O mundo tem e terá o poder mais dividido, porém a pauta da soberania e importância do Estado na pandemia aplacou muito o ânimo de Estado mínimo.

Considere-se que a ascensão de Reagan, Thatcher e Khomeini, embora com vieses diferentes no final da década de 70 do século passado, e, logo depois, a queda do muro de Berlim, “perestroika” soviética, dentre outros aspectos, foram duros golpes para os jovens terceiro mundistas que se uniam em prol de valores identitários socialistas e comunistas.

Esses valores foram solapados pelo neoliberalismo e, consequentemente, pela desesperança de uma sonhada igualdade idealizada pelo socialismo, mas que na prática não ocorreu. Esse é um dos muitos fatores que conduziram jovens para movimentos radicais de cunho racista ou religioso; a desesperança com os valores proporcionados pela política neoliberal.

Ainda, sob uma leitura mais realista, cremos em criação de mecanismos de acomodação dessas pautas de oportunidades e de igualdade, bem como ambiental, visando prorrogação do status quo nos pós pandemia.

Todavia, trata-se de uma visão otimista, tendo em vista as imprevisíveis consequências da ampliação da miséria, combustível para a violência e extremismo.

*Cássio Faeddo, advogado. Mestre em Direito. MBA Relações Internacionais – FGV/SP

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