Comitiva levou 4 horas para entregar chaves de malas de vice da Guiné Equatorial, relata auditor

Comitiva levou 4 horas para entregar chaves de malas de vice da Guiné Equatorial, relata auditor

Em depoimento à Polícia Federal, Alessandro Grisi Pessoa relatou que teste em relógios de luxo deram 'positivo para presença de diamantes'

Fausto Macedo e Julia Affonso

16 de setembro de 2018 | 12h00

O auditor fiscal da Receita Alessandro Grisi Pessoa afirmou em depoimento à Polícia Federal que a comitiva do vice-presidente da Guiné Equatorial, Teodoro Nguema Obiang, levou 4 horas para entregar as chaves de duas malas no Aeroporto de Viracopos, em Campinas. Nos pertences, foram encontrados US$ 16 milhões em dinheiro e relógios cravejados de diamantes.

O secretário da Embaixada da Guiné Equatorial, Leminio Akuben MBA Mikue, afirmou em depoimento à Polícia Federal que o vice chegou ao Brasil para ‘tratamento médico e posteriormente seguiria para Singapura em missão oficial’. Leminio Akuben MBA Mikue afirmou que os US$ 16 milhões estavam relacionados à missão oficial.

A comitiva foi abordada na sexta-feira, 14, às 9h35. A aeronave Jumbo 77 em que estava o vice da Guiné Equatorial desembarcou na cidade com 11 passageiros. Obiang foi recepcionado e, por causa das prerrogativas do cargo, não foi inspecionado, mas sua equipe passou pelo crivo da Receita Federal.

No depoimento, o auditor relatou que foi ‘até a aeronave para proceder à inspeção de controle aduaneiro’. No Jumbo 77, afirmou, ‘foram encontradas duas armas de fogo, as quais foram lacradas no corre da aeronave para que não desembarcassem no País posteriormente, haja vista que não haviam sido declaradas’.

“Enquanto isso, foi chamado ao Portão E8, onde é feito o embarque de tripulantes e passageiros de voos domésticos executivos; que no local foi informado por colegas da Receita Federal que a comitiva do vice-presidente havia passado pela fiscalização aduaneira no Portão T11 sem submeter à inspeção indireta (raios-X), duas malas”, contou o auditor.

“Naquele portão, foram advertidos por servidores da Receita de que não poderiam ingressar no País com tais bagagens sem submetê-las à inspeção; que, não obstante, os integrantes da comitiva que carregavam as malas não obedeceram à ordem de parada e se deslocaram diretamente até o portão de embarque E8; que no portão E8 o vice presidente foi dispensado da inspeção, sendo encaminhado a sua aeronave através de uma porta lateral.”

Alessandro Grisi Pessoa disse à PF que ‘os integrantes da comitiva não foram dispensados da inspeção’, mas ‘forçaram passagem por aquela porta, na tentativa de embarcar na aeronave, sem obedecer aos trâmites aduaneiros’. Segundo o auditor, após orientação, na presença de um representante Ministério das Relações Exteriores, de um representante do consulado de Guiné Equatorial e de um vigilante do aeroporto, ‘a comitiva retornou ao local de inspeção do portão E8’.

“Esclareceu a eles que as duas malas deveriam ser inspecionadas; que os dois indivíduos que carregavam as malas, bem como outros integrantes da comitiva asseveraram que se tratava de malas com pertences pessoais do vice-presidente e por isso negava-se a submetê-la à inspeção; que esclareceu a eles que a imunidade, para fins tributários e fiscais, abrange apenas malas diplomáticas e a bagagem de funcionários consulares, sendo independente da imunidade para outros fins a que eventualmente faça jus o vice-presidente”, narrou Alessandro Grisi Pessoa.

“Além disso, ressaltou que na presença de fundada suspeita, nenhuma isenção fiscal prevaleceria.”

O auditor relatou que uma das malas ‘chamava muita atenção por aparentar ser muito pesada, pelo esforço que aquele que a carregava estava fazendo’. Alessandro Grisi Pessoa contou que as tratativas no portão E8 duraram cerca de 1h30.

“Diante disso, considerando que aquele é um portão utilizado para o embarque, com grande circulação naquele horário, solicitou que todos retornassem ao desembarque internacional, onde permaneceriam em local mais reservado; que após cerca de quatro horas de tratativas, concordaram que as malas fossem abertas; que diante disso, foi juntamente com o policial federal Alex e o representante do consulado até a van estacionada no pátio, onde se encontrava o vice-presidente”, afirmou.

“O vice-presidente de Guiné Equatorial entregou as chaves das malas ao representante do consulado daquele país; que retornaram ao desembarque internacional onde, em uma área reservada, procedeu-se a abertura das malas; que o momento da abertura das malas foi registrado em áudio e vídeo.”

De acordo com o auditor, dentro de uma mala ‘foram encontradas cédulas de dólar e real, cujo montante verificou-se ser de cerca de US$ 1,4 milhão e aproximadamente R$ 50 mil’

“Considerando a legislação fiscal vigente, foram liberados e entregues ao proprietário R$ 10 mil; que o restante dos valores será submetido a procedimento fiscal de apreensão e posterior aplicação da pena de perdimento; que na segunda mala foram encontrados aproximadamente vinte relógios, todos cravejados com pedras preciosas, os quais posteriormente foram avaliados em cerca de US$ 15 milhões; que a Receita possui equipamentos para teste de diamante, o qual apontou positivo para as pedras contidas nos relógios”, declarou.

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