Comércio de animais silvestres: risco para novas pandemias

Comércio de animais silvestres: risco para novas pandemias

João Almeida*

04 de novembro de 2020 | 11h35

João Almeida. FOTO: DIVULGAÇÃO

Você já parou para pensar em quão presentes os animais silvestres estão no nosso dia-a-dia? Da moda ao entretenimento e turismo, da gastronomia ao uso deles como animais de estimação, já cruzamos com muitos botos e cobras nessa vida. Milhares de animais silvestres são comercializados diariamente para uso humano, em uma indústria que movimenta algo entre 7 e 23 bilhões de dólares por ano. Ao criar uma arara como bicho de estimação, comprar uma bolsa de jacaré, tirar uma selfie com um bicho preguiça e nadar com botos cor de rosa no Amazonas, ou assistir a um show de golfinhos na Flórida, além de estimular uma atividade que é fonte de enorme sofrimento para os animais, você está abrindo a porta para novas pandemias.

Pode parecer inofensivo, mas situações como essas expõem os seres humanos ao risco de doenças totalmente evitáveis. Nos últimos 30 anos, 60% das novas doenças infecciosas foram transmitidas de animais – são zoonoses – e 70% destas tiveram sua origem em animais silvestres. Exemplos são: gripes, febre amarela e ebola. Vale lembrar que a Covid-19 teve início na interação de pessoas com animais em um mercado na cidade de Wuhan (China), possivelmente pelo consumo de carne de morcego e/ou pangolins.

Mas o problema não está no costume de um local ou na cultura de um povo – como a necessidade dos índios em comer tatu, por exemplo. O problema é quando esse costume, que muitas vezes tem a ver com necessidades, se torna uma indústria, com viés estritamente comercial e lucrativo. Quando os tatus, morcegos, pangolins e jacarés são criados ou caçados para serem servidos e consumidos em escala industrial.

Apesar de parecer um problema de resolução impossível, nem tudo está perdido. A proibição e controle do comércio global de animais silvestres, seja ele legal ou não, aliado à restrição da interação com humanos, é uma solução que dificulta o surgimento de novas pandemias no futuro – e restringe o sofrimento de milhões de animais todos os anos. O Brasil, pra surpresa de muitos, é bom exemplo e vanguarda quando o assunto é a exploração comercial de silvestres para fins de diversão de turistas: diferente dos Estados Unidos, aqui consideramos as ciências do bem-estar animal e da conservação da biodiversidade, e por isso é crime ambiental a prática de usar mamíferos aquáticos em cativeiro para que pessoas possam ficar próximas ou ter contato direto com estas espécies, por isso não temos shows de golfinhos ou de orcas.

Vale lembrar que o mundo todo precisa se unir em torno dessa causa que põe a vida humana em risco. Não adianta o Brasil proibir o comércio de animais silvestres e a Argentina permitir que o turista tire fotos com leões, ou o Japão permitir que lontras sejam vendidas como bichos de estimação, por exemplo. O mundo é conectado. A pandemia que estamos vivendo atualmente é uma prova que essa união entre países é fundamental para salvar a vida humana. Nações mais e menos desenvolvidas passaram a sentir os efeitos de uma doença que atravessou continentes e agora já soma mais de 1 milhão de mortes.

Este é um problema global, que só pode ser resolvido com uma solução global. É por isso que nós, a Proteção Animal Mundial, organização não-governamental que trabalha em prol do bem-estar animal, pedimos que os líderes do G-20 discutam e adotem o banimento do comércio de animais silvestres em sua próxima cúpula anual, a ser realizada de maneira virtual na Arábia Saudita, em 21 e 22 de novembro deste ano. O governo brasileiro, como membro do G-20, tem a oportunidade de levar essa proposta prática como solução para evitar futuras pandemias e graves crises econômicas no mundo todo.

Ainda temos tempo. Talvez não de reverter a atual situação, mas de nos prepararmos muito melhor para o amanhã e evitar a próxima pandemia. Se a única certeza nessa história é que o comércio de animais silvestres faz aumentar a possibilidade de sermos contaminados por doenças desconhecidas, que procuram silenciosamente por um novo hospedeiro, nos resta lutar para combater esse comércio.

*João Almeida, gerente de campanhas da ONG Proteção Animal Mundial

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