Comer, rezar, amar… E ler!

Comer, rezar, amar… E ler!

Bernardo Pasqualette e Rafaela Machado*

09 de maio de 2021 | 09h00

Bernardo Pasqualette e Rafaela Machado. FOTOS: ARQUIVO PESSOAL

O que dá sentido às nossas vidas? No filme Comer, rezar, amar a protagonista Elizabeth – Julia Roberts em atuação soberba – peregrina pela Ásia e Europa até encontrar um sentido maior para a sua existência. Contudo, nessa jornada em busca do autoconhecimento, acabou por faltar um  elemento fundamental para a conexão plena da personagem com o seu eu interior: a leitura.

Pode-se desfrutar de todos os prazeres da vida, mas a conexão mais íntima com nós mesmos advém de um hábito simples, adquirido geralmente ao final da primeira infância – ler. Simples assim. Atividade individual por natureza, ler é um exercício para a mente, mas, também, faz bem para a alma. E muito.

Em meio à dificuldade econômica gerada pela pandemia, ressurge no Brasil a discussão sobre a tributação dos livros. Em um momento de negação da ciência, nada poderia refletir tão bem o atraso em que nos encontramos. Mais do que isso: em um contexto de vacinação lenta, onde é necessário  estimular as pessoas que mantenham o isolamento social, nunca foi tão necessário incentivar o hábito  da leitura.

Parece, no entanto, que as nossas autoridades não pensam dessa forma. Ao afirmar que as famílias de baixa renda têm pouco (ou nenhum) acesso à leitura porque “estão mais preocupados em sobreviver”, o ministro Paulo Guedes verbaliza o atraso, mas, ao mesmo tempo, acerta – com extrema precisão – na origem do problema.

O verbo sobreviver denota a ideia daquele que permanece vivo, apesar de alguma adversidade. Um exemplo trivial dá a exata dimensão de seu significado: “fulano sobreviveu a um grave acidente”. É  assim que o ministro encara a população mais vulnerável, como sobreviventes. Por esse raciocínio,  não lhes faz falta a leitura – eles têm necessidades mais prementes.

Assim, nossa sociedade lhes permite sobreviver, mas, por outro lado, nega a essa parcela da população que viva dignamente. Passam a ter uma sobrevida e não a desfrutar de todas as possibilidades que a vida pode oferecer. Essa é a faceta mais cruel da pobreza material, aquela que impede o ser humano de explorar ao máximo suas potencialidades. No entanto, a pobreza material não é o maior infortúnio que pode se abater sobre a vida de uma pessoa. Há flagelos infinitamente piores. A pior de todas as mazelas, sem dúvidas, é a pobreza de espírito. Que o nosso ministro da Economia nunca se esqueça disso.

Na linha do “andar de cima”, seguiu a Receita Federal. Pareciam gado, mas eram tecnocratas mesmo. Em um documento intitulado “perguntas e respostas”, o órgão perenizou a sua forma de ver o mundo a sua volta: “De acordo com dados da Pesquisa de Orçamentos Familiares de 2019, famílias com renda de até dois salários mínimos não consomem livros não-didáticos e a maior parte desses livros é  consumida pelas famílias com renda superior a dez salários mínimos”.

Se é assim hoje, que seja para todo sempre. Pelo menos, é esse o conceito que se extrai com pouco esforço interpretativo da assertiva acima. Livro é para os ricos. Pobre não lê. Afinal, as famílias de baixa renda estão mais preocupadas em sobreviver.

O atraso quer fazer crer que a leitura é supérflua. Não é. Ler é um hábito fundamental para a autorreflexão, estimula o raciocínio lógico e, principalmente, é a base para a maior parte das  tividades intelectuais que um ser humano pode desenvolver. Mais importante do que tudo isso, no entanto, é que ler estimula a pensar – de forma crítica, assertiva e livre.

Talvez seja exatamente isso que tanto amedronte os adversários da leitura. Quem pensa, é livre para viver, e não fica “preso” somente a sobreviver. Seja como for, em um mundo cada vez mais virtual, nunca uma hastag se fez tão necessária: #impostonolivronão. Que assim seja. E que possamos cada vez mais comer, rezar, amar e fazer tudo aquilo que melhor nos convier.

Principalmente ler.

*Bernardo Pasqualette é escritor e leitor preferencial da Editora Record; Rafaella Machado é editora executiva do Grupo Editorial Record. Ambos são  apaixonados por livros

Notícias relacionadas

Tudo o que sabemos sobre:

Artigolivro

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.