Combinar vacinas é urgente e nos levará mais rapidamente à imunidade coletiva

Combinar vacinas é urgente e nos levará mais rapidamente à imunidade coletiva

Para evitar atrasos na vacinação e frear avanço da variante delta, segunda dose de vacina da Pfizer deveria ser autorizada para quem recebeu a primeira dose de AstraZeneca

Luiza Amorim, Marco Brancher, João Abreu e Álvaro Rossi*

16 de julho de 2021 | 10h55

Luiza Amorim, Marco Brancher, João Abreu e Álvaro Rossi. FOTOS: ARQUIVO PESSOAL

Estudos clínicos internacionais começam a confirmar a eficácia e segurança da aplicação de tipos diferentes de vacinas contra a COVID-19. Conduzidos na Espanha e no Reino Unido, esses estudos indicam que a aplicação heteróloga de vacinas da AstraZeneca e da Pfizer, ou seja, a aplicação da segunda dose da vacina da Pfizer após a aplicação da primeira dose da vacina da AstraZeneca, seria responsável por produzir uma resposta imunológica superior àquela observada com duas doses da AstraZeneca.

Em razão de sua eficácia e segurança, países como Portugal, Chile, Alemanha, França e Dinamarca, para citar alguns, já recomendam a combinação das vacinas da AstraZeneca e Pfizer, ambas comprovadamente eficazes contra a variante delta.

No Brasil, a Anvisa ainda não recomenda a mistura de vacinas. No entanto, estudo inédito desenvolvido pela ImpulsoGov, disponível no site da organização, aponta que a autorização desta medida rapidamente pode evitar atrasos na vacinação no país, haja vista a perspectiva de oferta de vacinas para os próximos meses.

De acordo com dados do Ministério da Saúde,  mais de 180 milhões de doses da Pfizer devem ser disponibilizadas para o Programa Nacional de Imunizações (PNI) até dezembro deste ano, com uma média de 33 milhões de doses recebidas mensalmente a partir de agosto. Já para as doses da AstraZeneca, a previsão é de que sejam entregues 96 milhões de doses ao PNI até dezembro, ou seja, metade das doses de Pfizer previstas para o mesmo período. Vale ressaltar que, até o momento, 34,7 milhões de pessoas foram vacinadas com a primeira dose da vacina de AstraZeneca e ainda não receberam a segunda dose.

Mantendo o ritmo atual de vacinação da AstraZeneca (1,7 milhões de doses por semana), e considerando a demanda por segunda dose, até o final de setembro precisaríamos de cerca de 55 milhões de doses no total. No entanto, devemos ter apenas 38,2 milhões de doses desta vacina neste período. Assim, uma possível solução seria o uso de doses da Pfizer como segunda dose da AstraZeneca, para essas 16,8 milhões de pessoas remanescentes.

A eficácia da vacinação contra COVID-19 é inquestionável, com aproximadamente mais de 100 mil vidas salvas até agora no Brasil. Mas é preciso manter o ritmo e não perder a janela de imunização para se conseguir a almejada imunidade coletiva, o que não será possível se houver escassez de vacinas para a segunda dose de milhões de brasileiros. Assim, é urgente que o Brasil se una a outros países e, à luz das evidências já existentes, autorize a aplicação de segunda dose da Pfizer em pessoas que tomaram a primeira dose de AstraZeneca imediatamente.

O município do Rio de Janeiro já iniciou a aplicação da segunda dose de Pfizer em grávidas e puérperas que tomaram a primeira dose de AstraZeneca. A estratégia visa a permitir a aceleração da imunização em grupos de maior risco e traz maior flexibilidade no calendário, facilitando uma eventual diminuição no tempo entre a primeira e a segunda dose.

A tão sonhada imunização coletiva está mais próxima que nunca, mas ela requer que o país esteja atento à vanguarda das evidências científicas e faça uso da vacinação heteróloga já.

*Luiza Amorim, gerente da ImpulsoGov e consultora da Escola de Saúde Pública da Johns Hopkins University

*Marco Brancher, mestrando na Harvard Kennedy School

*João Abreu, diretor executivo da ImpulsoGov

*Álvaro Rossi, consultor de Saúde do Município do Rio de Janeiro e mestrando na Universidade de Oxford

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