Combate às práticas nocivas: da lavoura às fake news

Combate às práticas nocivas: da lavoura às fake news

Jayme Neto*

06 de agosto de 2020 | 04h30

Jayme Neto. FOTO: DIVULGAÇÃO

“Vivemos esperando, dias melhores. Dias de paz, dias a mais. Dias que não deixaremos para trás.”

Permita-me começar esse texto com uma citação.

O início da canção “Dias Melhores”, da banda Jota Quest, composta por Rogério Flausino, reflete o sentimento de todos os brasileiros. Eu digo todos, porque não consigo conceber que esse não seja um desejo comum, diante do que estamos vivendo.

O brasileiro é um povo bom. Um povo alegre, honesto e que cativa o mundo pela simpatia e humanismo. Sempre fomos a vanguarda mundial no quesito paz. Sempre.

Mas, de uns anos pra cá, parece que esse personagem boa-praça brasileiro está camuflado. Nos permitimos semear sentimentos que não são os que estamos acostumados. Há quem diga que hoje devemos escolher lados… Sim, estamos polarizados. Além de polarizados, estamos intolerantes.

Não é concebível que, em um ano como 2020, num período onde a empatia e a solidariedade mundial está aflorada, nós, brasileiros, tenhamos que focar nossas energias para combater uma das maiores chagas da humanidade pós-moderna, que são as “fakenews”.

As “fakenews” são como a Jurema (planta nativa da caatinga do sertão nordestino): raízes robustas e o tronco cheio de espinhos. Desde cedo, aprendi que a Jurema é péssima para o pasto e que o gado não come. Aprendi também, com Luciano, vaqueiro da fazenda do meu avô – homem simples do sertão baiano – que para combater a Jurema tem que cortar pela raiz. Não adianta só podar. O mal deve ser cortado na raiz, literalmente.

Mas, não foi dessa forma que pensou o congresso nacional. Ao invés de cortar a raiz (quem cria, financia e/ou fomenta), o texto aprovado pune somente quem dissemina as notícias falsas, que tanto prejudicam as normas de boa convivência social do nosso país.

É bem verdade que nem todo o congresso pensa desta forma. É notório o excelente trabalho que a Deputada Federal Lídice da Mata (PSB-BA) vem fazendo à frente da relatoria da CPMI das Fakenews. É preciso uma investigação ampla e plena, além de rigor pra punir quem fomenta, financia e dissemina tais notícias.

Isso não é podar. Isso sim é cortar o mal pela raiz.

Recentemente, uma grande fakenews foi proliferada: é benéfica para o povo brasileiro a privatização das empresas de água. Me permito apropriar-me de uma fala do também Deputado Federal do PSB baiano, Marcelo Nilo: “A água é um bem essencial. Como podemos privatizar um bem essencial? O empresário vai querer investir em uma cidade que não vai gerar lucro? As cidades que não gerarem lucro não terão a devida assistência?”

Cabe a reflexão.

Nesse caso, é importante dedicar um tempo para refletirmos sobre os impactos das nossas atitudes, travestidas de altruísmo, mas com foco em benefício próprio, como se isso fosse a salvação da lavoura, para voltar ao assunto da Jurema.

Pensar em nós, brasileiros unidos, demandará que certos vícios sejam realmente vistos como ameaça ao nosso progresso. Não falo só como país, mas como povo mesmo. Como pessoas.

Voltando à canção que foi utilizada para iniciar o texto, “vivemos esperando o dia que seremos melhores. Melhores no amor, melhores na dor, melhores em tudo”.

Afinal, é possível sim, sair da polarização com um caminho bem traçado. É possível pensar em esquerda, sem necessariamente atingir a direita.

Gosto de me referir ao Deputado Alessandro Molon, que faz o que chamamos de uma “oposição propositiva”. Ao mesmo tempo que ele tece duras críticas ao Governo Federal, ele consegue propor medidas viáveis e soluções tangíveis, se tornando assim a cada dia a nova face da esquerda brasileira, onde ele mais se aproxima com a nova esquerda europeia.

Isso é pensar no outro, sem a intenção de derruba-lo. É deixar a vaidade de lado e convidar-nos uns aos outros para conversas que permeiam a paz. O diálogo e o debate, mais do que nunca, se fazem necessários para a sociedade que queremos pós-pandemia. Esse será o grande legado que o ano de 2020 terá nos deixado.

Dias melhores, pra sempre! É o que desejo, é o que espero.

*Jayme Neto, publicitário e empresário

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