Comandante da PM recebeu ‘ajuda financeira’ de mandante de assassinato para campanha eleitoral, diz PF

Comandante da PM recebeu ‘ajuda financeira’ de mandante de assassinato para campanha eleitoral, diz PF

Tenente-coronel Ricardo Rocha, a PM de Goiás, teria recebido de um dos mandantes do assassinato de dois jovens no município de Alvorada do Norte (GO) por meio de doações para campanha a deputado estadual

Fabio Serapião, de Brasília

11 de novembro de 2016 | 16h40

Levado coercitivamente para depor na segunda fase da operação Sexto Mandamento, o tenente-coronel Ricardo Rocha, da Polícia Militar de Goiás, teria recebido ajuda financeira de um do mandante do assassinato de dois jovens no município de Alvorada do Norte (GO) por meio de doações eleitorais. Rocha foi candidato a deputado estadual na eleição de 2010 e preso na primeira fase da operação, realizada em 2011. O oficial é suspeito de ser um dos líderes de um grupo de extermínio responsável por mais de 40 mortes no estado. Ele foi indiciado pela PF por homicídio e ocultação de cadáver.

Rocha assumiu o Comando de Policiamento da Capital (CPC), em Goiânia, em fevereiro deste ano. Um mês depois, o Ministério Público do Estado de Goiás (MP-GO) e Ministério Público Federal em Goiás (MPF-GO) tentaram destitui-lo do cargo, mas o vice-governador e secretário de Segurança Pública e Administração Penitenciária, José Eliton (PSDB), negou a saída do PM e afirmou ter “integral confiança no tenente-coronel Ricardo Rocha para exercer o Comando da Capital”.

“O certo é que havia um interesse da polícia em atender o anseio dos fazendeiros da região, o que se justificou durante as investigações, notadamente quando o Major Ricardo Rocha Batista foi candidato a Deputado Estadual, situação em que recebeu apoio financeiro dos fazendeiros para a sua campanha, em especial de Ari Ornelas”, expõe o ofício 0536/2011 anexado ao inquérito 290/2010 e dirigido ao juiz da vara criminal de Alvorada do Norte, onde os dois jovens desapareceram.

Na decisão da Justiça Federal de Formosa (GO), o juiz Eduardo Luiz Rocha Cubas autorizou busca e apreensão e condução coercitiva contra o fazendeiro Ari Múcio Ornelas.

De acordo com o delegado Milton Rodrigues Neves, da Unidade de Repressão a Crimes Contra a Pessoa, responsável pela investigação, o tenente-coronel Ricardo Rocha, à época, tinha relação muito próxima com policiais que foram presos e estava no local dos fatos no dia do desaparecimentos dos jovens. “Existe uma série de provas que indicam a participação dele na morte dos dois jovens”, afirmou o delegado.

O secretário de Segurança de Goiás José Eliton (PSDB) voltou a defender o tenente-coronel em coletiva realizada na manhã de hoje. Eliton criticou a atuação da Polícia Federal e afirmou que “investigado, não significa culpado e nem condenado. “O que não podemos aceitar é o vilipêndio da honra sem o devido processo legal”, completou Eliton. Sobre o atual o tenente-coronel Ricardo Rocha, o secretário afirmou que ele exerce de maneira altiva as suas atribuições em todos os comandos que passou. “Não há qualquer grupo de extermínio em Goiás”, disse.

Realizada pela superintendência da PF do Distrito federal, a segunda fase da 6º Mandamento contou com 140 policiais envolvidos com a ação, entre eles 24 policiais do Comando de Operações Táticas, para cumprir três mandados de prisão temporária, 19 mandados de busca e apreensão e 17 conduções coercitivas contra pessoas investigadas por suspeita de integrarem um grupo de extermínio atuante no estado de Goiás. As ações ocorrem nas cidades de Goiânia, Alvorada do Norte e Formosa e são parte da 2ª fase da operação 6º Mandamento – o nome é uma alusão ao mandamento bíblico “Não Matarás”.

São investigados no âmbito da operação duas mortes e dois desaparecimentos ocorridos em 2010 que, segundo a PF, podem estar relacionados com um grupo de extermínio. Motivado por Incidente de Deslocamento de Competência apresentado ao STJ, desde 2015 o inquérito instaurado pela PF para apurar o caso tramita na Justiça Federal de Formosa/GO.

A primeira fase ostensiva da operação ocorreu em 2011. À época, a PF descobriu que a organização criminosa tinha como principal atividade a prática habitual de homicídios com a simulação de que os crimes teriam sido praticados em confrontos com as vítimas. Há casos de execução de crianças, adolescentes e mulheres.

As investigações apontaram para homicídios que teriam sido praticados pela organização criminosa, inclusive durante o horário de serviço e com uso de viaturas da corporação. A organização criminosa especializou-se ainda na ocultação de cadáveres.

Dentre os investigados da primeira fase estavam o atual sub-comandante geral da Polícia Militar de Goiás, o ex-secretário de Segurança Pública e o ex-secretário da Fazenda de Goiás, os dois últimos na condição de suspeitos pela prática de tráfico de influência que resultaram nas promoções de patentes de integrantes da organização criminosa.

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