Com privatização dos Correios, quem ganha é o consumidor

Com privatização dos Correios, quem ganha é o consumidor

Ricardo Hoerde*

17 de setembro de 2019 | 08h00

Ricardo Hoerde, CEO da Diálogo Logística. Foto: Assessoria de Imprensa / Divulgação

Os Correios voltaram ao centro do debate ao fazer parte da lista de empresas estatais que o governo de Jair Bolsonaro pretende privatizar. A privatização dos Correios tem maior percentual de aceitação dos brasileiros entre as empresas públicas, afirma a pesquisa VEJA/FSB, que diz que 48% da população apoia a medida. De modo geral a privatização irá trazer benefícios e o saldo será positivo, principalmente aos consumidores, mas o assunto é espinhoso e complexo.

Os Correios são a maior empresa pública do Brasil, emprega mais de 100 mil pessoas e está presente em todos os municípios do país. Ou seja, faz parte do dia a dia da população brasileira. A empresa tem monopólio do serviço postal , mas a entrega de encomendas é a principal fonte de receita da estatal, motivada principalmente pelo crescimento do e-commerce. Porém, neste segmento a companhia enfrenta concorrência de peso do setor privado.

A quarta edição da pesquisa Logística no E-commerce Brasileiro, realizada pela Associação Brasileira de Comércio Eletrônico (ABComm) e pela ComSchool, aponta que o número de e-commerces que usam transportadora privada passou de 35% para 58% nos últimos seis anos.

Em contrapartida, o uso dos Correios caiu de 82% para 61% no mesmo período. Além disso, a pesquisa mostra que só 22% das lojas virtuais avaliam o serviço dos Correios como bom e apenas 1%, como excelente. Segundo elas, os maiores problemas da estatal são preços abusivos (64%) e atraso nas entregas (59,7%).

Com a privatização dos Correios, todo esse cenário deve sofrer uma reviravolta. Primeiramente, porque a maior empresa pública do país irá passar por um forte processo de melhorias e qualificação, chegando a uma entrega mais ágil e precisa para voltar a dar lucro e lutar pela reconquista do mercado perdido.

Com a retomada dessa gigante, todo o setor de logística brasileiro,cuja infraestrutura está sucateada, vai ganhar relevância e será foco de investimentos. Outro ponto é que, com a privatização e quebra de monopólio, a expectativa é aumentar a concorrência entre as empresas de logística. Afinal, o upgrade dos Correios vai exigir ainda mais dos operadores privados, que terão de apostar em tecnologia e avanços dos serviços para fazer frente a esse grande player. Neste cenário de disputa por mercado, o cliente terá entregas mais rápidas e muitas vezes com menor custo.

Outro ponto é que, atualmente, os Correios não colocam na ponta do lápis os custos para fazer entregas tão frequentes em todos os municípios brasileiros.

Com a privatização, deve haver a calendarização das entregas para reduzir custos e com isso serão envios menos frequentes e em dias pré-determinados. Assim irão otimizar as rotas deficitárias, o que pode gerar oportunidades para as empresas de logística regionais, que podem fazer parcerias com os Correios para suprir as entregas em determinada região ou até mesmo conquistar mais mercados diante das oportunidades que irão surgir. Essa utilização de transportadoras regionais inclusive já é realidade para o e-commerce brasileiro.

A pesquisa Logística no E-commerce Brasileiro mostra que 41,5% das lojas virtuais brasileiras usam transportadoras diferentes dependendo da região.

Com um serviço de mais qualidade dos Correios e das demais empresas privadas, o varejo e a população brasileira serão beneficiados. Atualmente não é necessário ir para grandes centros para estar dentro de um shopping, com diversas opções de lojas. Com a internet, isso é possível com um clique.

Mas o avanço do e-commerce brasileiro ainda esbarra em alguns obstáculos e um dos principais deles é a confiança do consumidor em relação à entrega, em itens como prazo e envio com segurança. Hoje o comércio eletrônico representa cerca de 5% das vendas do varejo brasileiro – percentual muito baixo, se comparado a países com China, onde responde por 45%.

Se tivermos um serviço de logística de qualidade, a população passa a acreditar ainda mais no comércio eletrônico e o segmento deve crescer exponencialmente em poucos anos. Impulsionado também pela tecnologia, inteligência da distribuição e artifícios, como lockers e pontos de retirada, por exemplo, que ainda são incipientes no país, mas irão alavancar em breve e aumentar a eficiência da entrega

Para as empresas de logística que souberem aproveitar as oportunidades dessa privatização que já desponta no horizonte, o futuro é promissor. Sai na frente aquelas que souberem dialogar, pensar em soluções acessíveis, além de identificarem e atuarem em nichos de mercado.

Até porque há grandes chances de os Correios optarem pela aquisição de empresas ligadas a tecnologia e transportes para complementar e qualificar os serviços prestados. Mas vale lembrar que como a estatal têm o monopólio do serviço postal assegurado pela Constituição, sua privatização precisa passar pelo Congresso. E esse processo deve demorar alguns anos, o que deve garantir um tempo extra para que as empresas privadas se aperfeiçoem e estejam preparadas para esse novo cenário de entregas e logística no Brasil.

*Ricardo Hoerde, CEO da Diálogo Logística

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