Com prisão de executivo, Lava Jato pode avançar sobre novo ‘terreno fértil de ilicitudes’ na Petrobrás

Com prisão de executivo, Lava Jato pode avançar sobre novo ‘terreno fértil de ilicitudes’ na Petrobrás

Executivo Mariano Ferraz, detido na quarta-feira, atuava para a Trafigura, empresa internacional que movimentou US$ 8,6 bilhões em compras e vendas de combustíveis com a estatal; segundo delatores, área de trading gerava propinas que abasteceram campanha petista e teve nomes ligados ao PSDB e PMDB

Mateus Coutinho e Fabio Serapião, enviado a Curitiba, e Julia Affonso

28 Outubro 2016 | 05h00

MARIANO1 - RJ - 27/02/2014 - MARIANO/PORTO DO SUDESTE - ECONOMIA OE - Mariano Marcondes Ferraz, executivo da Trafigura e representante da empresa no Conselho da Porto Sudeste do Brasil, na zona sul do Rio de Janeiro. Foto: MARCOS DE PAULA/ESTADÃO

O empresário Mariano Ferraz, preso pela Lava Jato nesta quarta-feira, 26, enquanto tentava deixar o País. Foto: Marcos de Paula/Estadão

Com a prisão preventiva do empresário Mariano Ferraz, detido no aeroporto de Guarulhos nesta quarta-feira, 26, quando estava prestes a embarcar para Londres, a força-tarefa da Lava Jato avança sobre uma área ainda não investigada na Petrobrás: o setor de compra e venda internacional de combustíveis e derivados que pode atingir, além do PT, o PMDB e o PSDB.

Segundo a Lava Jato, o grupo internacional Trafigura, do qual Ferraz é executivo, movimentou US$ 8,6 bilhões em compras e vendas de derivados de petróleo com a Petrobrás entre 2003 e 2015. Não é a primeira vez que a área de trading de combustíveis e derivados do petróleo, que é submetida à Diretoria de Abastecimento, aparece na operação.

Em suas delações premiadas, o ex-diretor Internacional da Petrobrás, Nestor Cerveró, e o ex-senador Delcídio Amaral relataram que essa área era um “terreno fértil para ilicitudes”, pois os preços poderiam variar artificialmente gerando uma “margem para propina”. O próprio Cerveró disse que a a Trafigura era uma das principais empresas atuantes neste setor na estatal e que as negociações diárias “podem render milhões de dólares ao final do mês em propina”.

OS NEGÓCIOS DE TRADING INTERNACIONAL DA TRAFIGURA COM A PETROBRÁS

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Segundo o ex-diretor, apesar de não ser uma área de “muita influência” do PT na estatal, as propinas nos negócios de trading teriam abastecido o suposto caixa 2 da campanha de Jaques Wagner (PT) ao governo da Bahia, em 2006.

Ele relatou também que Rogério Manso, diretor de Abastecimento antes de Paulo Roberto Costa, seria um nome “do PSDB” indicado ao cargo, antes do governo Lula, pelo ex-ministro da Fazenda Pedro Malan e que teria operado esse “esquema de trading” até 2004, com a chegada de Paulo Roberto Costa à diretoria.

Ainda assim, segundo o delator, Manso teria continuado a atuar na área de trading até 2007 e teria sido o responsável, segundo Cerveró, por coordenar “informalmente” a captação do dinheiro do suposto caixa 2 de Wagner, em 2006.

A DELAÇÃO DE DELCÍDIO SOBRE ROGÉRIO MANSO:

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Delcídio também relatou em sua delação que, com a chegada de Paulo Roberto Costa à Diretoria de Abastecimento, em 2004, Malan teria pedido ao então ministro da Fazenda Antonio Palocci que Manso permanecesse na diretoria. A partir daquele ano, contudo, Manso ficou seis meses assessorando o então presidente da Petrobrás, José Eduardo Dutra e, depois foi para a diretoria de Gás e Energia, onde ficou até 2007.

Depois dele, segundo Cerveró, a área de trading teria sido assumida, em 2010, por um indicado pelo senador Edison Lobão (PMDB) identificado como “Pereirinha”.

Prisão. No pedido de prisão de Ferraz, a força-tarefa aponta que o executivo teria repassado mais de US$ 800 mil dólares em propinas a Paulo Roberto Costa entre 2011 e 2013 por meio de uma conta do genro do ex-diretor no exterior.

Os investigadores levantam todos os contratos da Trafigura e citam o volume de negócios dela, incluindo o trading internacional e o afretamento de navios (que de 2004 a 2015 somam US$ 169 milhões) da companhia com a Petrobrás. Além disso, eles também citam um contrato de aluguel da Decal, empresa que Ferraz representava, com a estatal petrolífera.

Ao decretar a preventiva, o próprio juiz Sérgio Moro aponta que “não está totalmente claro se (Mariano Ferraz) agiu, na ocasião, representando os interesses da Trafigura ou da Decal”. O executivo deverá depor à Polícia Federal nos próximos dias sobre as acusações que pesam contra ele.

Procurada, a defesa do senador Edison Lobão (PMDB) não respondeu ao contato da reportagem.  O ex-ministro Jaques Wagner e a defesa de Antonio Palocci não foram localizados.

COM A PALAVRA, A DEFESA DE MARIANO FERRAZ:

Os advogados do executivo informaram que ainda estão estudando o caso e que vão se manifestar sobre o assunto após o depoimento de seu cliente à Polícia Federal.

COM A PALAVRA, PEDRO MALAN:

“Esclareço que não conheço e nunca tive qualquer contato com o ex-diretor de Abastecimento da Petrobrás, Sr. Rogério Manso, nem o indiquei para nenhum cargo. Tampouco conheço pessoalmente o Senador Delcídio do Amaral, com o quem nunca tive qualquer contato. A afirmação constante da delação premiada é absolutamente improcedente e de natureza estritamente difamatória. Tenho orgulho da minha carreira de 36 anos no serviço público federal, por isso, repilo com veemência e indignação qualquer pretensão de maculá-la”.

Pedro S. Malan

COM A PALAVRA, ROGÉRIO MANSO:

“Em relação aos trechos da delação de Nestor Cerveró com referências a mim citados no seu blog hoje, gostaria de esclarecer que, ao contrário do que afirma o delator, jamais ocupei função ligada a Sérgio Gabrielli. Ao deixar a Diretoria de Abastecimento em maio de 2004 assumi por um curto período de 6 meses a função de Assessor da Presidência, reportando diretamente a José Eduardo Dutra.

Assumi em novembro de 2004 a Gerência Executiva de Gás e Energia subordinada ao diretor Ildo Sauer, aí permanecendo até me afastar por iniciativa própria da Petrobras, em fevereiro de 2007.

Desde que deixei o Abastecimento, em maio de 2004, não tive contato ou atuação, direta ou indireta, com o trading de combustíveis e petróleo da Petrobras. Orientei minha carreira para novas atividades, desde o gás e energia, à implantação de projetos de renováveis, área em que atuo desde 2007.

Durante minha carreira, incluindo o período em que fui reponsável pela área de Abastecimento, jamais realizei ou permiti que alguém realizasse qualquer ato ilícito que pudesse prejudicar a Companhia a que servi, com orgulho, durante 28 anos. Nunca precisei de apoio político para progredir; como empregado concursado e com experiência nas áreas em que atuei, sempre exerci minhas atribuições de forma leal e honesta.

Prevalecendo a justiça, espero que essas acusações mentirosas e difamatórias de Nestor Cerveró gerem consequências comensuráveis em sua delação premiada.”